China
ReutersProtestos contra a expropriação de terras em Wukan, que começaram em Setembro, agravaram-se depois da morte de um representante do povo quando estava nas mãos da polícia
Cansados de serem constantemente enganados pelas autoridades locais, os agricultores da vila costeira de Wukan, na província de Guangdong, no sul da China, estão desde Setembro em protesto contra o governo da cidade, que qualificam de corrupto. A polícia isolou a vila na quinta-feira passada, cortando o abastecimento de alimentos para quebrar pela fome a resistência dos habitantes mas a morte de um manifestante quando estava sob custódia da polícia acirrou ainda mais os ânimos.
Em causa está a apropriação de terras agrícolas por funcionários do governo, acção que se tem tornado recorrente na região. Centenas de hectares foram expropriados pelas autoridades locais que enriquecem à custa dos residentes – revendendo as terras a promotores para projectos de construção – sem indemnizar os proprietários.
Ontem, centenas de residentes de Wukan realizaram uma manifestação desafiando a proibição imposta pela polícia. Um habitante local declarou à AFP que desde há cinco dias a polícia começou a bloquear as estradas que conduzem à vila de forma a não permitir a entrada de alimentos. “As autoridades deixaram chegar alguma comida na segunda-feira mas proíbem-nos de pescar”, adiantou.
Contudo, na segunda-feira, o braço-de-ferro agravou-se e resultou em confrontos com a polícia, depois da multidão ter sido informada da morte de Xue Jinbo, um representa-te local que tinha sito eleito para negociar com os representantes do Partido Comunista a situação das terras.
Xue Jinbo, de 42 anos, foi detido pela polícia por ter participado nas manifestações de Setembro em que também houve confrontos. Os manifestantes de Wukan acusam a polícia de homicídio. Segundo o genro de Jinbo, o corpo tinha ferimentos nos joelhos, o nariz estava coberto de sangue e os seus polegares pareciam partidos. As autoridades locais recusam-se entregar o corpo à família enquanto prosseguirem os protestos.
“O caso está a ser investigado”, disse Zheng Yanxiong, líder do Partido Comunista da cidade de Shanwei, que supervisiona Wukan, citado pela agência de notícias oficial chinesa Xinhua.
A organização de direitos humanos Amnistia Internacional pediu uma investigação imediata e independente à morte de Xue Jinbo, acrescentando que o poder chinês pouco está a fazer para proteger os seus cidadãos das expropriações forçadas.
“Ao contrário dos padrões e da legislação internacionais, os cidadãos chineses raramente têm a oportunidade de poder fazer verdadeiramente uma consulta antes do despejo, raramente recebendo informações adequadas sobre a natureza ou o propósito do despejo e, frequentemente, recebem pouca ou nenhuma indemnização”, disse a organização num comunicado.
“Queremos que o governo central [Pequim] trate do nosso problema. Não vamos abandonar a luta, queremos que os dirigentes corruptos sejam detidos”, afirmou um habitante à agência AFP.
Ontem o termo “Wukan” foi censurado no Weibo, o serviço de microblogues mais popular da China, impedindo os chineses de saber mais informações sobre o assunto. A agitação social está a tornar-se cada vez mais comum na China, principalmente em relação à corrupção generalizada e a um sistema judicial ineficiente.



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