Por Jornal i
publicado em 9 Mar 2012 - 03:00

Entre a fraude e a traição
<ENTRADA><P>Os cineastas portugueses estão impedidos de fazer o que sabem e gostam. As produtoras de cinema também. Porque o Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) parou o Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual</P> </ENTRADA>

Ela decidiu que agora já era de mais. Largou o guardanapo sobre a mesa e o pequeno-almoço a meio, embora levasse a chávena de café duplo que bebericou pelo corredor até à casa de banho, tomou um duche menos rápido do que tinha em mente e compensou os minutos gastos com uma fricção rápida da toalha que mal limpou o corpo.

Entrou no elevador quando as portas ainda se abriam, virou-se para se encostar ao fundo enquanto carregava no botão do átrio. Olhou o vazio, o quadro em frente na parede do corredor chamou-lhe a atenção, curiosa deu um passo em frente, as portas do elevador fecharam-se interrompendo-lhe o caminho…

Bom, prosseguir é impossível, porque o cinema está interrompido em Portugal. Os cineastas portugueses estão impedidos de fazer o que sabem e gostam. As produtoras de cinema também. Porque o Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) parou, o Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual (FICA) também, o fundo europeu de 26, 23 ou 20 milhões vai, afinal minguando sem que ninguém saiba até onde, esvaindo-se em fatias de centenas de milhar que se vão acumulando em milhões, em lugar de dotar o novo fundo que viria substituir o FICA e levaria à revolução no sector de cinema em Portugal. Este é um bloqueio a que o governo ainda não conseguiu responder mas que Francisco José Viegas tem a responsabilidade de resolver, pesem embora as irregularidades e ilegalidades que nasceram há muito e se organizaram numa teia feroz que a todos enreda.

É este, hoje, o cerne da questão, que parou o cinema em lugar de o alavancar, tornando-se num paradigma da ironia trágica que pode muito bem ter sido arquitectada e, portanto, ser afinal uma sátira. Porque o FICA foi criado para resolver a brutal divergência do cinema português com a realidade de sucesso da Europa mas, afinal, resultou no seu absoluto oposto: a paralisação da revolução no cinema português. E com isso delapidou-se entusiasmo, investimentos de muitos cidadãos e das produtoras de cinema e pintou-se a negro o nosso futuro. O erro é incomensurável e, por isso, das duas, uma: ou os governos e técnicos assessores que trabalharam a Lei e a regulamentação que levaram a isto eram assustadoramente incompetentes, ou construíram racional e intencionalmente o edifício legal que permitiu a alguns atraiçoarem o espírito que o justificava e que beneficiava a maioria.





 

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