Sócrates tranquilo. Cardeal recusa guerra santa ao casamento gay
Publicado em 17 de Dezembro de 2009
Numa frente, Sócrates está descansado. A hierarquia católica opõe-se, mas não vem para a rua combater a proposta que é hoje aprovada
Em Espanha, o cardeal Rouco, bispo de Madrid, esteve na linha da frente anti-casamento gay e levou os católicos para a rua onde engrossaram as manifestações anti-casamento gay. Em Portugal, a aprovação da proposta de lei que institui o casamento entre pessoas do mesmo sexo não irá contar com o mesmo tipo de oposição da hierarquia católica.
O cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, garantiu a José Sócrates que a decisão do governo não provocará nenhuma guerra santa, soube o i. A Igreja continuará a repetir a sua doutrina sobre o assunto mas não sairá à rua. José Sócrates e D. José Policarpo têm encontros que não são públicos: o primeiro-ministro recebeu o cardeal na residência oficial antes de anunciar o novo governo, mas o encontro não constava da agenda. Aquela que era para ser uma reunião discreta foi descoberta pelas televisões que estavam à porta da residência oficial do primeiro-ministro na tentativa de ficar a saber quais as personalidades com quem se reunia antes da formação do governo. Dias mais tarde, D. José Policarpo garantia que a formação do governo não fez parte dos temas da conversa com o primeiro-ministro.
O PS ficou sossegado com a gestão do dossier casamento gay a partir do momento que percebeu que não iria haver um combate na rua liderado pela hierarquia. A visita do Papa ajudou: o governo recebeu mensagens de que quanto mais depressa o assunto fosse resolvido melhor, de modo a que a questão estivesse arrumada em Maio, quando Bento XVI iniciar a primeira visita oficial a Portugal.
Porque é que o clima nacional é diferente do que aconteceu em Espanha quando José Luis Zapatero aprovou o casamento gay? O padre Edgar Clara, do secretariado para a comunicação social do patriarcado, faz uma grande distinção entre a situação espanhola, onde a Igreja veio para a rua combater a agenda do primeiro-ministro espanhol, da nacional. "Em Espanha não se tratava apenas do casamento gay. O governo Zapatero cortou todas as relações com as escolas católicas. A afronta à Igreja foi muito grande", afirma o porta-voz do patriarcado.
Apesar da decisão do cardeal-patriarca de não abrir uma guerra santa por causa do casamento entre homossexuais, a Igreja fala evidentemente a várias vozes. A exigência de um referendo foi abandonada pela hierarquia, mas D. Manuel Clemente, bispo do Porto, tem falado nisso. Ainda ontem, o Prémio Pessoa afirmou que "o timing" da aprovação da proposta de lei "não é famoso" mas reconheceu que, para a Igreja Católica, nenhum seria. "Para nós católicos o problema está resolvido, quando há casamento é a consagração do matrimónio e nesse ponto não há mudança", disse D. Manuel Clemente.
D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa e organizador da visita do Papa, defende que o assunto seja despachado o mais depressa possível. E o tema não fará parte da visita do Papa a Portugal. De resto, D. Carlos Azevedo afirmou mesmo que espera que "o tema não se arraste", como declarou na semana passada à comunicação social. Quando o Papa vier a Portugal, em Maio, a questão do casamento entre homossexuais não será abordada. "A defesa da família é um dos valores que estará presente. Não é para entrar de modo nenhum no debate porque todos sabem a posição da Igreja e da vida cristã sobre esta matéria", declarou Carlos Azevedo.
Tudo radica na concepção de José Policarpo de uma mais nítida separação entre Igreja e Estado, que já se tinha revelado aquando do último referendo sobre a despenalização do aborto. Apesar da posição da Igreja, Policarpo chegou a afirmar que a despenalização "não era uma questão religiosa". Agora, o comunicado da última assembleia plenária da conferência episcopal, que decorreu entre 9 e 12 de Dezembro, é moderado. Só o ponto 9 é dedicado à nova legislação. "Havendo projectos para legalizar as uniões entre pessoas homossexuais concedendo-lhe o estatuto de casamento, os bispos portugueses manifestam pública rejeição a que este tipo de uniões possa ser equiparado à família estavelmente formada através do casamento entre um homem e uma mulher". Para os bispos, "tal constituiria uma alteração grave das bases antropológicas da família e com ela da própria sociedade. Todo o respeito é devido a todas as pessoas, também às pessoas homossexuais, mas este respeito e compreensão não podem reverter na desestruturação da célula base da sociedade, que é a família baseada no verdadeiro casamento". Ora, nada disto configura uma guerra santa.