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Gripe A: Mudança de quinzena de férias pode acelerar propagação

por Marta F. Reis e Inês Cardoso, Publicado em 13 de Agosto de 2009
Regresso de turistas do Algarve, a região com mais casos, preocupa autoridades. Lisboa e Porto serão próximos focos
Uma mudança de quinzena em Agosto é sinónimo de romarias na auto-estrada do Sul, mas desta vez a segurança rodoviária não é a única que chama a atenção das autoridades. Com o Algarve a liderar em número de casos de gripe A, o regresso de milhares de turistas representa um risco acrescido na evolução da doença. A velocidade de propagação vai depender muito de três períodos - o próximo fim-de-semana, o final do mês e o início do ano escolar, explica Mário Carreira, da Direcção-Geral da Saúde.

Por enquanto, assegura o responsável, "não está a acontecer nada inesperado". Os 600 casos acumulados a nível nacional foram atingidos exactamente no dia em que estava projectado, 10 de Agosto. Mas as projecções só são eficazes a uma semana e a próxima será determinante. "Tudo vai depender muito da propagação no resto do país, após o regresso de turistas a casa", explica Mário Carreira.

Esperado era igualmente que o Algarve fosse a primeira região do país a registar mais casos de contágio, já que acolhe pessoas vindas dos países em pico de epidemia, como o Reino Unido. Depois de o primeiro Serviço de Atendimento à Gripe (SAG) ter arrancado em Loulé, ontem começou a funcionar um pólo em Portimão e até ao final da semana espera-se a abertura de serviços em Tavira, Albufeira, Lagoa e Silves. No Alentejo, o primeiro SAG abriu em Évora. A janela de atendimento varia entre as 8h00 e a meia-noite e recebem apenas doentes ou casos suspeitos reencaminhados pela Linha de Saúde 24.

Próximo destino Lisboa e Porto são os próximos pontos esperados de disseminação da doença, explica Jaime Nina, especialista do Instituto Nacional de Saúde dr. Ricardo Jorge.

O vírus tem estado a progredir "como esperado", concorda Jaime Nina, salientando a regularidade no crescimento dos contágios: "Não é uma escada, é uma rampa." Se se mantiverem os níveis de contenção em períodos de risco como os próximos dias, não haverá oscilações quanto ao pico esperado da epidemia, em Outubro e Novembro.

O modelo desenhado pela Direcção-Geral de Saúde está preparado para que depois da primeira onda epidémica possa haver uma segunda, mas Mário Carreira explica que em pandemias anteriores "nem sempre isso aconteceu em todos os países". Caso haja uma segunda onda, atrasá-la dá tempo de "promover a vacinação".

Depois de os 76 novos casos confirmados na terça-feira - entre eles 13 jovens que apanharam o vírus por via terciária durante um acampamento em Itália, na semana passada - o balanço diário da DGS referia ontem 52 doentes. Apesar de terem sido registadas até ao momento 735 infecções, apenas 12 pessoas permanecem hospitalizadas. A mulher de 30 anos internada no Hospital de São João desde o final da semana passada continua em estado grave.

Os apelos à colaboração das pessoas tornam-se mais exigentes à medida que a curva da doença sobe, mas declarações como as da ministra da Saúde, relativamente a comportamentos anti-sociais, são desvalorizadas por especialistas em saúde.

inquérito A equipa do projecto Gripenet (um sistema participativo de monitorização em tempo real) divulga hoje os resultados de um inquérito que conclui haver níveis adequados de informação. À pergunta sobre como reagirão se tiverem de ficar isolados em casa durante 5 a 7 dias, 81% dos 1700 inquiridos prometem aceitar voluntariamente.

A segunda maior fatia de respostas, 6,2% do total, é de pessoas que aceitariam o isolamento, mas preferiam ficar em hospitais. Só uma pequena minoria admite recusar essa ordem - 2% invocam razões de trabalho e 0,4% consideram que essa instrução seria contrária à sua liberdade individual. "As pessoas são responsáveis e sabem ter comportamentos adequados", acredita o sociólogo Vitor Faustino, que trabalhou os dados do inquérito e gere o Twitter do Gripenet. A internet e as redes sociais têm sido "ferramentas úteis para informar a população".

O painel de especialistas da União Europeia para a pandemia de gripe A reúne-se esta manhã no Luxemburgo. O porta-voz Ton van Lierop disse ao i que um dos temas em cima da mesa será a preparação do próximo ano lectivo. No entanto, a decisão de adiar o início das aulas - que em países como a Alemanha ou o Reino Unido costuma estar marcado para o final de Agosto - caberá sempre aos governos nacionais, salientou van Lierop. "Teremos sempre um papel de coordenação. O encerramento de escolas ou planos de vacinação estão entre as questões a debater", disse.

O estudo do vírus H1N1, para tentar perceber o impacto de possíveis mutações no início da época de gripe sazonal no hemisfério norte, continua a decorrer nos principais laboratórios mundiais. Daniel Janies, um dos virologistas americanos que estuda o H1N1, disse ao i que para já o vírus não inspira grandes preocupações mas que na gripe A registada em contexto sazonal há "muitas linhagens do vírus, que fazem com que a sua resistência a antivirais se torne mais comum. Devemos usar estes medicamentos de forma sensata, até a evolução de uma pandemia acontece geralmente em torno deles". O presidente da Costa Rica, Oscar Arias, tornou-se ontem no primeiro líder mundial com gripe A.
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