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A discussão vai longa, os erros dos árbitros vão-se acumulando (e continuarão a acumular-se), mas desta vez a iniciativa do jornalista Rui Santos chegou à Assembleia da República. Sete mil signatários clamam pela introdução de tecnologias no futebol para minimizar erros penalizantes para jogadores, equipas, clubes, federações.
A intenção é naturalmente boa e seria no mínimo tonto ignorar a discussão. Que é na verdade o que têm feito a FIFA, a UEFA e o International Board. A petição entregue a Jaime Gama tem a vantagem de colocar o assunto na ordem do dia. Pouco mais efeitos se verão.
A discussão: um fórum que escutei hoje na TSF trouxe à evidência o pimeiro dos factores que devemos ponderar: a clubite ultrapassa a racionalidade. A questão em debate era a tecnologia – um ouvinte queria Olegário Benquerença com a PJ a porta do balneário depois do Benfica-Nacional; outro dizia que meio país (fez mal as contas aos seis milhões...) anda desvairado porque o Benfica joga bem. Ou seja, nem todos quiseram discutir os chips, os videos, os olhos de falcão.
Pedro Henriques, árbitro, foi ponderado: apelou à utilização do video-árbitro, sistema que permitisse rever uma jogada em caso de dúvida. E apenas em casos de penálti, fora de jogo ou expulsão.
É a posição que parece fazer mais sentido. Ainda assim fica a pergunta: quantos lances estão vistos, revistos e repisados por todos os ângulos televisivos e informáticos e merecem unanimidade na sua avaliação? OK, a mão de Thierry Henry que colocou a França no Mundial foi evidente e é chocante. Mas quantos milhares de situações dúbias sobram? Em que situações se aplicaria a videovigilância? As equipas teriam limite de pedidos? E se uma que já não possa apelar sofre um golo com a mão no último minuto sem o árbitro ver, não é injusto na mesma?
Depois há a questão do tempo: os espectadores no estádio e em casa vêem filmagem da cabina do quarto árbitro e assiste à decisão? Ou entram em campo as cheer leaders, outra ridícula importação dos Estados Unidos?
Finalmente, o essencial: a democraticidade do futebol. Não é por acaso que se tornou desde o berço o desporto mais popular do mundo. É porque se joga sob quase todas as condições atmosféricas, em qualquer bocadinho de terreno, com chuteiras ou descalço, pedras e paus podem fazer de baliza e meias rotas de bola. O segredo: as regras são as mesmas – poucas, simples e universais (na rua não usávamos o fora-de-jogo, pronto...)
Introduzir teconologia só seria possível em provas internacionais e (eventualmente) nos campeonatos profissionais de alguns países do primeiro e do segundo mundo. E o fosso entre ricos e pobres, que já vai tão grande, acentuar-se-ia até ao limite de tornar o futebol um espectáculo de elite ao qual só alguns desportistas poderiam ter acesso. Chama-se a isso matar o futebol.
Já faltou mais, agora que para os miúdos o jogarem já precisam de ter pais que possam pagar 40 ou 50 euros por mês numa escola fina...




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A Taça da Liga, para mais complicada como é, serve basicamente como prémio de consolação para quem a pouco mais aspira ou cereja no topo do bolo se for ganha por quem conquista algo de realmente importante. É a terceira prova do calendário português e a quarta dos clubes mais fortes que se mantêm na Europa (será, Sporting?).
A jornada deste fim-de-semana tinha, contudo, alguns aliciantes: veio depois de uma paragem na Liga e trazia no calendário dois jogos interessantes de seguir, mais pelo significado dos estados de espírito do que propriamente pelos pontos que valiam nos grupos da dita taça.
O primeiro prato de domingo para os ressacados da paragem competitiva trouxe um Benfica-Nacional um tudo-nada mais equilibrado que o 6-1 do campeonato. O Benfica, como de costume, atacou mais e como de costume teve dificuldades, em casa, perante uma equipa bem estruturada defensivamente. Aos 78 minutos, Jesus lançou mão de uma pérola e resolveu o jogo. Sim – aos 33 anos, Nuno Gomes ainda sabe fazer coisas em campo que os outros companheiros de ataque têm dificuldades em executar. No caso fala-se de antecipar a ocupação de espaços e saber jogar ao primeiro toque. E aqui foi literalmente o primeiro dele no jogo: passe para Saviola, golo. Tudo decidido. O velho Nuno ainda mexe, Carlos Queiroz (perdão pela insistência) devia olhar bem para ele até ao Mundial.
Prosseguiu a tarde/noite com o Sporting-Braga. Um fantasma cheio de pontos de visita a Alvalade, onde já ganhara este ano. Carvalhal com algum tempo (ainda que poucos jogadores) para instalar os métodos de trabalho em Alcochete e a curiosidade de ver o novo Sporting, ainda que sem as mais recentes contratações.
Apesar do futebol fraquinho, o Sporting teve um domínio do jogo como há algum tempo não se via. Depois voltou a si próprio, no início da segunda parte, e deixou que o Braga se sentisse grande em casa de um grande. Depois... apareceu o talento de Veloso. Segundo grande golo desta época, a mostrar um Miguel que andava arredado de Alvalade desde o início do ano passado e que esta época percebeu – Paulo Bento explicou-lhe – ser impossível ir longe sem mostrar aplicação e qualidades com a camisola que agora veste.
Barcelona será miragem, Manchester United sonho, quem sabe se um dia? Mas só com este novo Miguel a família Veloso pode ambicionar uma liga de primeira.




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Manuel Fernandes, treinador do União de Leiria, acha que não foi penálti. Jorge Jesus, treinador do Benfica, acha que foi. Óbvio – e idem aspas para os adeptos das duas equipas (na verdade para os do Benfica e os outros). Ambos os técnicos falaram depois de ver o lance na TV.
Vamos aos jornais da especialidade: "A Bola" e "Record" admitem o espaço da dúvida, mas são categóricos – foi penálti. "O Jogo" deixa a análise para os três ex-árbitros que formam o seu habitual painel de comentadores. Jorge Coroado e Rosa Santos dizem que não foi penálti, António Rola afirma que sim. Todos, claro, viram as imagens televisivas. E muito mais vezes que os treinadores, pelo menos até domingo à noite, altura em que as opiniões foram emitidas.
Imagine-se agora, por momentos, a posição de Jorge Sousa, o árbitro que teve de decidir sem repetições. Decidiu, num segundo, porque se convenceu de ter havido uma falta merecedora de grande penalidade.
De que serviriam, neste caso, os apregoados como necessários meios tecnológicos de apoio às decisões do árbitro? De pouco ou nada, evidentemente. Jorge Sousa, provavelmente, manteria a sua opinião, os treinadores, os jornalistas, os adeptos e os ex-árbitros também.
Há, no futebol, discussões quase intrínsecas. Se até na lei do fora-de-jogo, que apesar de complicada é objectiva, duas pessoas conseguem discordar vendo TV, como resolver as diferenças de visão em penáltis, agressões, mãos na bola e bolas na mão? Resposta: de nenhuma forma. Deixando ao critério subjectivo de um árbitro pago para decidir e fazendo, depois, o esforço civilizacional possível por aceitar as decisões dele.
Meios tecnológicos? Sim – um chip que garanta infalivelmente se uma bola passou ou não o risco de baliza e recurso a imagens para punir agressões não vistas pela equipa de aribtragem. O resto é irrisório: gasta-se muito dinheiro, uma imensidão de tempo (para interrupções já bastam as normais) e passaríamos a vida a discutir na mesma.




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Na quarta-feira era dia de Inter-Barcelona. Acontece que também era dia de reunião de pais na escola da criança, e nisto da vida ainda há prioridades, pelo menos enquanto eles ou elas são menores.
Deixei o jogo a gravar, mas algo que me dizia que nunca iria vê-lo. Nem mais: bastou assistir ao último quarto de hora e ouvir os óptimos comentários do Nuno Dias na Sport TV para perceber tudo. A sério que isto não é embirração pessoal - eu não conheço José Mourinho. Quando muito poderia ser inveja. Faz sentido, quem quiser que pense assim.
Vamos aos factos, já brilhantemente explanados pela pena do Rui Miguel Tovar no i de quinta-feira: uma vez mais (e já são muitas) uma equipa de José Mourinho impediu um bom adversário de jogar futebol. Tirou essência ao jogo. Pelo menos para quem ainda acredita que a essência vai um bocadinho além dos resultados. O Inter empatou em casa, a zero, com um alegado adversário directo na luta pelo primeiro lugar no grupo. No fim, Mourinho mostrou-se satisfeito com o resultado. O que significa, muito pragmaticamente, que lhe chega ser segundo e qualificar-se para a fase seguinte. Que se danem os muitos mil que pagaram bilhete para ver um espectáculo. Do George Clooney não tenho tanta pena, porque a entrada foi oferecida.
Mourinho ganha, Mourinho sabe, Mourinho é bom. Nem o maior invejoso do mundo dirá o contrário. Mas na maioria das horas da verdade prejudica quem faz sobreviver a indústria – os adeptos. Viva Pep Guardiola!
E por cá…
Boa entrada dos portugueses na ex-Taça UEFA. Como que a provar a tese de que aquele é o sítio deles, Benfica e Sporting entraram a ganhar na Liga Europa. Os da Luz sem o brilho a que vão habituando mal os seus adeptos, os de Alvalade a jogar mal na mesma mas com Liedson mais perto de si próprio.
Foi pena o Nacional, mas a secção de milagres, provavelmente, já fechou este ano com a eliminação do Zenit de Sampetersburgo. Ter estado perto de não perder com o Werder Bremen, convenhamos, já é de se tirar o chapéu aos homens da ilha, que ainda por cima são sistematicamente secundarizados, em favor do Marítimo, na democracia perfeita do dr. Jardim.
O FC Porto foi quase grande em Londres. Perdeu mas jogou. De peito bem aberto, o que se calhar nem nos tempos de Mourinho fazia…
Este fim-de-semana (ou coisa parecida, porque afinal aquilo de não haver jogos à segunda-feira foi tudo propaganda de Verão da Liga) volta o campeonato nacional. E dificilmente haverá surpresas.




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NACIONAL: Notável proeza ao ultrapassar o Zenit no play off da Liga Europa. Talvez precisemos de uns dias para assimilar bem o significado do feito. Pena que o presidente do clube esconda o bom trabalho de Manuel Machado e dos jogadores por causa de guerras financeiras sem sentido com as televisões.
SPORTING: Já se lhe viram piores noites este ano. Noutros anos já se viram bem melhores. Os jogadores são os mesmos, portanto a explicação dos empates e das derrotas só pode estar na má forma de elementos-chave. Começou com sete jogadores da Academia e acabou com oito. Não se pode ter tudo na vida. Transformar em “contestação” os insultos de duas pessoas, entre dez ou quinze que estavam no aeroporto quando a equipa chegou a Lisboa, é no mínimo um exagero. No máximo é manipulação.
BENFICA: Tal como o Sporting, está na competição europeia que mais se lhe adequa. Falar em vitória na Liga Europa, para qualquer um dos dois, é no mínimo um atrevimento. No máximo é demagogia. Claro que não há impossíveis em futebol, mas à Liga Europa vão chegar os terceiros classificados da fase de grupos da Champions. E as atenções do Benfica, por razões óbvias, estarão no campeonato nacional. Mas não há impossíveis no futebol – já tinha dito isto hoje?
FC PORTO: Não foi a equipa do pote 2 do sorteio da Champions mais bafejada pela sorte. Há segundas linhas noutros grupos bem mais acessíveis. Também não foi açoitada pelo infortúnio. Escapou a Milan, Barcelona, Bayern e Manchester United. Tem o Chelsea, sim. Mas no futebol não há impossíveis, sobretudo para o FC Porto. Portanto, pensar no primeiro lugar é no mínimo realista. No máximo é exigível. O Atlético Madrid? Caiu às mãos do dragão há meses, porque não há-de cair outra vez?
SELECÇÃO: Nuno Gomes voltou. Não é coerente, mas em alturas de aperto a coerência nem sempre é o que mais conta. No caso de Queiroz, aliás, conta muito poucas vezes no que respeita a escolhas de jogadores. Liedson chamado. Mesmo a jogar bastante mal. Podia Queiroz não o fazer, depois da naturalização dele? Talvez não. E nunca se sabe quando o Levezinho regressa à normalidade. Ponto positivo: estive ontem num programa de TV e o tema veio a lume. Nem uma frase sobre o facto de ser um ex-não português. No mínimo é bom senso. No máximo um sinal de evolução de mentalidades.




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Se tivesse ficado no Sporting, muito provavelmente Silvestre Varela seria segundo suplente. Ou terceiro. Hoje é titular do FC Porto. Veremos, dentro de meses, se continuará a sê-lo e deixemos para outra altura a reflexão sobre a passagem de júnior a sénior, problemática que raramente atingiu o FC Porto. (Raramente ou nunca?)
Falemos por hoje de Nuno Gomes. Saiu novinho do Boavista, afirmou-se no Benfica, teve uma aventura italiana mas não resistiu ao canto da sereia de Vale e Azevedo. Depois ficou no Benfica. Como se nunca de lá tivesse saído. Continuou a jogar, a marcar, a falhar e – atente-se bem – a fazer os outros jogar.
Atravessou o deserto, participou activamente no título de 2005, chegou a capitão. Mas ficou sempre no Benfica. E é tratado como normalmente os adeptos tratam estes jogadores: sentem-se tão à vontade com a presença e a dedicação deles, é uma relação tão cheia de certezas, que os transformam facilmente nos primeiros alvos sempre que os fígados se revoltam com um mau resultado ou um golo falhado. Para depois, num qualquer jogo a seguir, o Nuno marcar um golo e cada adepto jurar ao da cadeira ao lado que nunca o colocou em causa, e o amigo sabe bem, que fica sempre aqui à minha beira nos jogos e pode confirmar que eu não embarco nessas coisas dos assobios sempre que qualquer coisita corre mal. “Meu rico Nuno Gomes”.
O mesmo “rico Nuno Gomes” que apurou Portugal para meias-finais de Europeus e fez pela selecção o que poucos terão feito se nos deitarmos a contas de dividir entre minutos jogados, golos marcados e assistências para colegas brilharem.
O campeonato vai no início e é muito cedo para se ter ideias consistentes - quanto mais conclusões - sobre os três candidatos ao título, o que valem hoje e o que podem valer no futuro. Mas como o futebol e a vida, no fundo, são momentos, apetece-me deixar dois factos registados: Nuno Gomes entrou no Benfica-Marítimo, havia 0-1 e o Benfica empatou; Nuno Gomes entrou no Guimarães-Benfica, havia 0-0 e o Benfica ganhou.




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Com muito mais fé que razão (em tom coloquial dir-se-ia com piada e a-propósito “com mais sorte que juízo”), o Sporting continua na luta por um lugar na Liga dos Campeões.
A história é conhecida e nem sequer inédita – a mesma Holanda, em 2005, já fora palco de um golo nos descontos que deu a final da Taça UEFA.
Passada a euforia que só a irracionalidade do futebol no momento do golo permite extravasar, os adeptos sportinguistas não estarão contudo descansados. Longe disso. A exibição voltou a ser pobre e a equipa desenvolve pouco. Metade da explicação está na ausência do verdadeiro Liedson. Sabe-se que o brasileiro, muito para lá dos golos que marca, é fundamental para o Sporting dos últimos anos. Por agora vai lutando como sempre, mas falhando lances banais como quase nunca.
A outra metade da explicação entra no campo especulativo, sobretudo para quem não é Paulo Bento e não conhece a equipa e os seus segredos como ele.
Para já, sobra de factual a ausência de vitórias até ao momento (com a devida licença do Atlético do Cacém) e o cinzentismo dos jogos. Sobra também a curiosidade aguçada por meia hora de Caicedo – bons detalhes no capítulo da garra, precisamente o que ia faltando à equipa.
O Twente foi melhor na eliminatória. Mesmo tendo jogado com dez durante um terço dos minutos, criou mais e melhores oportunidades de golo. Teve azar.
Sim: por mais científicos que sejam todos os treinos e cálculos e contas, há este factor meio aleatório que o futebol reserva para si (nos outros desportos é muito raro o melhor não vencer).
O Sporting, que só perto do fim a procurou com a ânsia que se impunha, teve a sorte do seu lado. Ao contrário de Liedson, que tem dado tudo e anda azarado, o Sporting deu pouco e teve grande fortuna. Como não a mereceu até agora, tem, no mínimo, a obrigação de saber merecê-la daqui para a frente.




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Desportivamente haverá muito para discutir em torno de uma eventual chamada de Liedson à selecção portuguesa. Como há para discutir na chamada de qualquer outro jogador, mas um pouquinho mais. A saber: quando a equipa precisar de um guarda-redes (e precisa...) ou de um lateral-esquerdo (e precisa...) a Federação vai tentar promover uma naturalização mais à pressa ou espera que algum brasileiro talentoso caia de maduro no país para se tornar português? As naturalizações prejudicam ou não a formação local?
O resto é igual para todos: vale a pena apostar num novo avançado aos 31 anos? Vale a pena deixá-lo de fora quando é claramente melhor que os outros e marca muito mais golos? O seu estilo de jogo coaduna-se com o da selecção?
Questões desportivas à parte, não há discussão possível. A lei é a lei, Liedson vive há seis anos em Portugal e tem direito à nacionalidade. Não foi sequer um processo martelado à pressa. Quis ser português e tem, como qualquer outro cidadão que reúna para tal condições, direito a sê-lo.
A partir do momento em que se torna cidadão nacional é exactamente igual aos outros portugueses. Aos que têm sotaques (todos!), aos que nasceram no estrangeiro e têm pais portugueses, aos que nasceram em Portugal e têm pais estrangeiros, aos que nasceram em Portugal e têm pais ainda mais portugueses. Todos com os mesmos direitos e deveres. Dizer o contrário era dar muitos passos atrás no progresso civilizacional.
A decisão, portanto, é apenas desportiva. E cabe a Carlos Queiroz, a quem apenas se acrescenta mais uma dor de cabeça.




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Situemo-nos: há um par de semanas o Sporting-Benfica que decidia o campeonato nacional de juniores foi interrompido devido a desacatos nas bancadas (ou melhor, numa bancada e em todo o baldio que rodeia o campo da academia do Sporting).
Ontem, o Conselho de Disciplina (CD) da Federação Portuguesa de Futebol decidiu punir as duas equipas com derrota. A consequência disto foi que o Benfica conquistou o título na secretaria, porque tinha dois pontos de avanço antes do jogo e portanto manteve-os.
O Benfica é assim campeão, salvo diferente e melhor decisão do Conselho de Justiça (há recurso), mas podia perfeitamente ser ao contrário. É irrelevante para o que quero dizer. Como é irrelevante o facto de terem sido os adeptos do Benfica a causar os problemas. Como sabemos, as claques de qualquer clube, nomeadamente dos três principais, seriam perfeitamente capazes de fazer exactamente o mesmo.
Nada nos diz que o Benfica não empataria ou ganharia o jogo – seria campeão na mesma. E é aqui que entramos nos princípios devassados:
- É lamentável que uma prova nacional tenha um campeão sem jogo, sobretudo se o jogo estava por disputar. Casos houve em que factos conhecidos a posteriori determinaram alterações em classificações. Antes de se jogar é que é complicado.
- O jogo foi interrompido, portanto qualquer dose normal de bom senso apontaria para a realização de novo jogo ou o reatar daquele que se disputava e foi interrompido durante a primeira parte
- Trata-se de uma competição jovem, disputada por jogadores e homens em formação. Que aprenderam eles com isto, que exemplo se lhes deu?
- De hoje em diante quantas vezes os adeptos de equipas a quem convenha que os pontos fiquem como estavam antes dos jogos vão tentar interrompê-los recorrendo ao mesmo expediente?
- Sem duvidar de que o CD seguiu os regulamentos, a pergunta é simples: entre multas, suspensões, jogos à porta fechada, repreensões e castigos não seria mesmo possível deixar os miudos decididrem o campeonato dentro de campo?
Tem a palavra o Conselho de Justiça




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É verdade que os números assustam um pouco. Quer os 94 milhões da transferência do Manchester United para o Real Madrid, quer os 12 milhões livres de impostos que se diz ir ganhar o português.
Irrita, no entanto, a baratíssima demagogia de quem se põe a fazer contas a números de refeições que podiam pagar-se a meninos do terceiro mundo ou quantidade de hospitais que poderiam construir-se, ou todas essas derivas fáceis, tão fáceis como o pé que foge para o chinelo quando chega o calor.
Às vezes faz-se a mesma confusão entre submarinos e escolas, comboios e hospitais, idas à lua e fome em África.
Na última lista das 100 celebridades mais poderosas do mundo, segundo a revista Forbes, estão mais de dez desportistas. NBA, golfe, ténis, automobilismo, futebol americano... Entre os 100, dois futebolistas apenas: Ronaldinho Gaúcho e David Beckham.
Não me lembro, contudo, de ter alguma vez lido, a propósito dos ordenados do basquetebol americano ou do golfe – ou mesmo dos actores e actrizes de Hollywood – que são uma imoralidade; tão altos que serviriam para erradicar a sida do planeta e dar uma perna na luta contra o cancro.
A explicação é simples: o futebol é o fenómeno desportivo mais acompanhado do mundo. O desporto universal por excelência. O único que acede a esse patamar. E isso tem custos para as suas estrelas, mesmo que grande parte delas continue a ter, em média, ordenados de mordomo das estrelas da NBA.
Demagogia por demagogia, prefiro a de Tony Carreira na entrevista dada hoje a "A Bola": "Para mim, chocante são os 2 mil milhões de euros de buraco do BPN." Voilà!




Rating:0.0 (0 votos)A vida é muito mais que desporto, está escrito no enunciado do blogue e vai sendo tempo de fazer justiça ao que aqui um dia me trouxe.
Mas a vida é pouco mais que livros. Muito pouco. Sobretudo se tratarmos de um livro como este, que além (ou apesar!) de ser escrito por um amigo é muito bom de ler, reler e reflectir.
Os futebóis estão a banhos - entram agora em campo os advogados, os solicitadores, os agentes, os dirigentes, os donos das carteiras mais recheadas, as fotografias dos jogadores em férias com amigos e amigas mais ou menos sociáveis, consoante a sorte e a vontade de se exibirem.
Jorge Jesus nunca mais é oficializado no Benfica – vê-se como tudo foi mal preparado, nada de novo.
Cissokho, em seis meses, pulou do Setúbal para o Milan – o Porto viu antes dos outros, nada de novo.
No Sporting pouco ou nada acontece – não há dinheiro, nada de novo.
A busca do novo no mundo do desporto, e do futebol em particular, é o ganha-pão do Miguel Cardoso Pereira, jornalista de “A Bola” desde os tempos em que só precisava de fazer a barba uma vez por semana. Agora até precisava mais vezes, mas só faz quando tem de ser. Há coisas mais importantes nos dias.
O jornalismo, para ele, é o ganha-pão mas não só: é um trabalho que abraça com entusiasmo, seriedade, rigor, qualidade e paixão. Porque o jornalismo, desculpem, há-de ser sempre paixão, pleno de todos os extremos com que a paixão nos tortura.
Abraça a causa, o Miguel, sobretudo com talento. Pode fazer-se muito floreado sem ele (dá e sobra para viver, está provado por aí aos magotes), mas há coisas que só com talento se alcançam. A escrita do Miguel é uma delas. E por isso era preciso algo mais. Ele sabia-o, nós sabíamo-lo, os milhares que o lêem em ”A Bola” calculavam.
Quando, daqui a uns muitos anos, recordar a apresentação do primeiro livro, este sábado, em Lisboa, o Miguel há-de sorrir e pensar para ele, ou partilhando o pensamento com quem tiver ao lado nessa hora, quem sabe se em frente a uns caracóis e cheio de netos à volta: “Corri Seca e Meca para publicar o ‘Amor dos Babuínos’, agora correm atrás de mim e eu sem querer publicar à velocidade que eles gostavam. Eles que esperem. Mais uma imperial, por favor!”
O Miguel Cardoso Pereira é meu amigo. Claro que é meu amigo. A partir do momento em que nos cruzámos era impossível não sê-lo. Era impossível, pelo menos, eu não querer ser amigo dele. Tentei e consegui.
Escreveu um belo livro, que aconselho para lá das fronteiras da nossa amizade, com toda a parcialidade de que óbvia e felizmente me invisto ao falar do “Amor dos Babuínos”.
É um livro difícil. Não esperem daqui a trivialidade da escrita a metro que vende por aí como ginjas. Quem ler, vai ter de pensar e sentir. Pensar e sentir é uma maravilha, não é? Mesmo ao domingo.
Mais informações em http://www.temas-originais.pt/index.htm




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A exibição da selecção nacional na Albânia foi, objectivamente, uma vergonha. Não vale a pena mascarar a realidade, dizer que o mundo está muito mais difícil hoje do que era há uns anos, lembrar que o objectivo foi cumprido. Foi, sim senhor: no último minuto, um bocado sem se saber como, visto que até então os caminhos da baliza albanesa tinham estado tapados. Um milagre, portanto.
O objectivo foi cumprido mas a jogar daquela forma Portugal não pode sequer sonhar com uma vitória na Dinamarca. E na Hungria, provavelmente, também não.
Não vale a pena entrar na guerrilha Scolari-Queiroz. Já não é disso que se trata. Trata-se apenas de lamentar vermos uma equipa arrastar-se daquela forma, tão parecida com a forma como se arrastou pelos jogos anteriores. Sem chama, sem garra, com o pretenso melhor jogador do Mundo a empatar a vida aos outros e valores de mais no banco. E com pouco, muito pouquinho valor dentro da área de decisão.
Portugal ainda pode ir ao Mundial. Se esta selecção se encontrar a tempo ou se até Setembro se encontrar uma nova selecção.
Desculpem, mas por mais difícil que seja hoje ganhar à Albânia (?), não queria ter visto os jogadores de Portugal festejarem como se se tivessem qualificado para a final de um Mundial. No sábado, o mínimo que se lhes pedia era que, mal soasse o apito final, corassem todos até à raiz dos cabelos e fugissem para o balneário. Dantes era assim, e Portugal andava longe de se achar tão bom como se acha hoje...




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O presidente do FC Porto teve, no mínimo, piada nas observações que deixou sobre o gosto que Cristiano Ronaldo sente em marcar golos ao seu clube.
"O Cristiano diz que gosta muito de marcar golos ao FC Porto e eu gostava muito era de o ver marcar golos pela selecção. Infelizmente, o FC Porto sofreu um golo a 35 metros numa baliza onde uns dias antes falhou um golo a 35 centímetros. Portanto, eu ficaria bem mais contente, e todos os portistas e todos os portugueses, se marcasse golos pela selecção em primeiro lugar."
Por mais que diga que se todos jogassem como ele na selecção Portugal seria campeão do Mundo (o que é obviamente mentira), a verdade é que Cristiano tarda em mostrar-se ao nível do Manchester United. O que no fundo ate é natural, por uma série de razões que é escusado enumerar aqui.
Compreenda-se, então, que o contexto não é o mesmo, mas exija-se que Ronaldo jogue mais e fale menos quando vem à selecção. O estatuto de melhor do mundo defende-se em campo.




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Ou anda mais de meio mundo louco, ou Quique Flores vai mesmo deixar de ser treinador do Benfica no início da próxima semana. Rui Costa, que ia abraçar a carreira de dirigente desportivo para ser diferente, vai afinal, logo no primeiro ano, fazer exactamente o mesmo que toda a gente faz há séculos: despedir o treinador quando as coisas não correm conforme o esperado. Até aqui tudo normal, embora se lamente a falta de ar fresco.
Apesar da indefinição (?), o Benfica anda a contratar jogadores para a próxima época. O que significa, se mais de meio mundo não andar louco, que boa parte do plantel (pelo menos relevante parte do plantel) vai ser escolha dos dirigentes e não do novo treinador. As vantagens e desvantagens são discutíveis. Mas ter um grande treinador, de nome feito, raramente liga bem com pouca autonomia na escolha dos jogadores.
Há outra hipótese: Jorge Jesus (ou qualquer outro) está contratado e já trabalha em consonância com quem manda na Luz. Coisa muito pouco fresca e saudável, quando ainda há um homem a cumprir um contrato.
Se, ao contrário do que parece, andar mais de meio mundo louco, então esqueça-se as linhas de cima e tire-se o chapéu a Filipe Vieira, Rui Costa e Quique Flores — nesse caso estarão a preparar a nova época em tempo muito útil. E isso sim, seria uma lufada de ar fresco.
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Mário Jardel, 35 anos, é uma criança grande. Continua uma criança grande.
Mário Jardel, 35 anos, foi o jogador mais espantoso que vi passar no futebol português nos últimos 25 anos. O melhor. A opinião, claro, é discutível. A marca de Jardel não: títulos, glória e golos, muitos golos. De toda a forma e feitio, marcados de cabeça ou com qualquer dos pés. De peito, joelho, coxa, calcanhar. Até, jura-me um treinador que com ele trabalhou no FC Porto, com o rabo! Aconteceu num treino que lhe corria mal como tantos outros... até à hora de empurrar para a baliza. A bola, quando o encontrava no caminho, sabia onde tinha de chegar. E chegava.
Jardel foi títulos, glória e golos quase até ao fim. Criança grande, ao que parece bom de coração e influenciável, caiu na má vida. Arrastou-se no segundo ano de Sporting, saiu para Inglaterra, andou por mil lugares e a magia dos golos não voltou. Ainda regressou ao Beira Mar, sem sucesso. Jardel continuou títulos e glória, a imagem ainda assim intocada.
Jardel, com muito menos anos, nunca escondeu que gostaria de ter jogado no Benfica. E disse muitas vezes o óbvio: "Comigo o Benfica era campeão."
Mas os óbvios também se esbatem no tempo. Jardel, 35 anos, faria alguns golos e empolgaria a bancada, mas dificilmente faria do Benfica campeão.
Jardel, 35 anos, é uma criança grande. E por isso perdoa-se-lhe outra vez a insistência. Mas já chega, não?




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A Europa e o Mundo vão ter a final da Liga dos Campeões que o futebol merece: Manchester United-Barcelona.
O Chelsea passou uma vez do meio-campo na primeira mão e empatou a zero. Depois marcou cedo na segunda mão, em casa, e foi desmontando o futebol letal do Barcelona. Mas só até aos 93 minutos.
Pelo meio, é verdade, o árbitro prejudicou os ingleses. Não cabe aos árbitros exercer a justiça divina, por isso teremos sempre de lamentar o sucedido.
Mas confessemos: não há um certo prazer perverso em ver uma equipa cheia de cuidados defensivos ser eliminada no último minuto precisamente na sequência de um erro na zona fatal?




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Ainda antes de ter marcado quatro golos-quatro num jogo importantíssimo para o União de Leiria, Carlão já fazia manchetes de jornal como possível reforço do Sporting para a próxima época. O poker do último domingo de manhã (quando se estenderá este simpático horário ao escalão principal?), num jogo importante para as possibilidades de a equipa subir de divisão, fez do brasileiro alvo ainda mais apetecido.
Há na Liga um caso parecido, mas apontado ao outro lado da segunda circular – Nenê, o goleador do Nacional. Um e outro precisarão, caso lá cheguem, de provar estofo para as camisolas mais pesadas. O estofo que faltou a tantos Marcelos, Hassans ou Silvas do passado.
Mas é de Carlão que se fala aqui. E não só: também do treinador que o foi buscar e não teve falsas modéstias na hora das entrevistas rápidas após o 5-1 ao Olhanense. Manuel Fernandes, avançado de corpo inteiro mesmo passados 20 anos sobre o pendurar das botas, foi directo ao assunto: «É preciso ter a coragem de apostar nestes jogadores. Baratos, desconhecidos e cheios de talento. É preciso saber encontrá-los.» [citação livre]. O recado foi direitinho ao seu Sporting, claro. Que por acaso não se deu nada mal com a última grande descoberta – Liedson, o ex-arrumador de prateleiras em supermercados.
Fala-se aqui de Carlão, do Sporting e de Manuel Fernandes. Não terá sido por acaso que já se sussurrou o nome do ex-capitão leonino como possível (ainda sussurrado, ainda…) sucessor de Paulo Bento. Se subir o União de Leiria, fica certamente mais perto de regressar a casa. Entrará Carlão sozinho em Alvalade?




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Hermínio Loureiro está optimista naquilo a que chamou “intervalo” da discussão sobre punições para clubes que não pagam ordenados (a Assembleia Geral da Liga de segunda-feira terminou sem conclusões, dia 30 há mais). Aliás, o presidente da Liga é normalmente optimista, e é sobretudo isso que o tem feito correr no cargo. Com interessantes conquistas no percurso, é preciso dizê-lo.
No ponto dos salários em atraso, todavia, está a pisar muitos calos de uma vez. E todos sabemos como somos capazes de deixar a moral de lado quando nos pisam os calos. De acordo com os estatutos do futebol, cabe aos clubes definir as regras de acesso às competições e respectivos regimes disciplinares. Custa a crer, portanto, que os clubes concordem num sistema realmente punitivo para os faltosos. Porque cada um deles, ou uma larga maioria, sabe dos riscos que corre de um dia lhe faltar a liquidez. Vão encontrar uma solução de fachada para manter o decoro, mas deixarão mil escapatórias para o tradicional contorno da lei.
Era bom sinal enganar-me – e cá estarei com gosto para dar a mão a essa palmatória – mas os clubes vão continuar a viver acima das suas possibilidades. E tirando um ou outro caso tipo Salgueiros, Campomaiorense, Farense, Boavista ou, provavelmente, Estrela da Amadora, continuarão a ser os jogadores as maiores vítimas. Vão continuar a jogar muitos meses sem receber, sabendo que o atrevimento de rescindirem contratos com justa causa pode fechar-lhes portas em muitos outros lados. Porque lá nisso ainda vai havendo associativismo, corporativismo ou o ismo que lhe queiramos chamar: «Vou contratar aquele que rescindiu com o x? E se um dia lhe falho, vai-se embora daqui também?»




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Dizia-me um amigo no fim das favas de sábado: «Se queriam homenagear o Giggs que arranjassem um prémio carreira tipo Hollywood, ou coisa assim.»
No essencial o Miguel tem razão. O fabuloso galês jogou pouco nos últimos tempos e talvez não tenha sido, de facto, o melhor jogador da época em Inglaterra. Mas os companheiros de profissão entenderam prestar-lhe esta homenagem, num daqueles actos colectivos de cavalheirismo e elevação que o futebol inglês, mesmo hipercolonizado, consegue manter. Votaram, de forma secreta, e elegeram Ryan Giggs como futebolista do ano.
É fantástica esta réstia de pureza que por lá se revela de vez em quando. A essência do futebol enquanto disputa de gentlemen a contaminar a legião estrangeira que nos últimos anos deu à Liga inglesa uma importante dimensão estética. Dimensão esta que, convenhamos, lhe fazia falta para poder juntar-se à paixão e à emoção inimitáveis daqueles estádios.
Por tudo isto, faz sentido que Giggs tenha sido coroado. Pelo exemplo de desportista, pela dedicação ao Manchester United e pelo facto de simbolizar, assim de repente, o tipo de jogador que os canhotos das duas últimas gerações gostariam de ter sido quando sonharam ser futebolistas.




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Luiz Felipe Scolari já ganhou muito dinheiro na vida. E gosta de ganhar, porque além de humano é daqueles humanos para quem o pragmatismo é lei sagrada.
Luiz Felipe Scolari já ganhou muitos títulos e honrarias na vida. Gosta de ganhá-las, porque além de pragmático é vaidoso e guarda aquela pontinha de orgulho de quem "vindo de baixo, teve de lutar muito para chegar cá acima" [vox populi].
Fica difícil de entender, portanto, o que pode levá-lo a aceitar o cargo de seleccionador de Angola. Títulos? Difícil. Honrarias? Possível, mas muito complicado. Afinal Angola já esteve num Mundial, e não se prevê que Felipão consiga fazer algo parecido com o que alcançou à frente da selecção portuguesa. Na Taça das Confederações Africanas? Talvez um dia. É esta a ponta solta no campo das motivações desportivas.
Dinheiro? Mais fácil, sem dúvida. Em Angola, embora só pareça nalguns nichos de boa vida do país, há muito. E é para distribuir selectivamente. Scolari tem tudo para enriquecer mais um pouco em África. Sobretudo se estiver farto de ganhar provas e souber colocar em campo e na vida social a faceta de conquistador das massas. Nem que seja preciso deixar jogar o Mantorras.




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Há entre eles honrosas excepções, mas os italianos foram pioneiros e mantêm-se como grandes mestres da estratégia defensiva, do cinismo, do futebol maravilhosamente táctico para quem gosta de comparar o jogo a xadrez e infinitamente aborrecido para os restantes. Estão contudo longe, nos dias que correm, de ser únicos, e já nem sequer aparecem nas meias-finais da Liga dos Campeões.
O Chelsea é, desde os tempos de Mourinho, um dos paradigmas desse futebol interesseiro e resultadista. De vez em quando mascara-se de espectacular, porque tal como o dos italianos de topo é interpretado por grandes jogadores. Mas nas horas da verdade revela-se na sua plenitude. Uma delas foi em Barcelona. Frente à melhor equipa mundial do momento, os ingleses retraíram-se como ratos, arrancaram um empate a zero e, num fogacho, até podiam ter conseguido a vitória. Pronto, é verdade que o Bayern tinha apanhado quatro em Camp Nou e o Real Madrid, logo a seguir, foi atropelado por 6-2 perante o fabuloso Barça. O Chelsea até pode, porque há na equipa valor para isso, bater os catalães na segunda mão e chegar à final.
Será eterna, e com tendência a agudizar-se, a luta de argumentos entre os defensores do futebol-espectáculo e os pragmáticos do meio a zero. Estes ganham muitas vezes, mas aqueles, quando ganham - quando desamarram os espartilhos à custa de talento e gosto pelo jogo - deixam-nos em paz com o futebol. É seguramente pelo que oferece o Barcelona que muitos milhões assistirão pela TV à segunda mão da meia-final. E a maioria, razões do coração à parte, torcerá para poder ver uma final com a melhor, mais bonita e mais entusiasmante equipa da actualidade.
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