Ao longo dos tempos os governos têm contado com a ajuda dos bancos para garantir o chamado interesse nacional
Podíamos chamar-lhes negócios de conveniência. E a conveniência, claro, não foi apenas para uma das partes. O esquema era simples: “Havia grandes projectos para financiar e os bancos queriam participar. Para isso, colaboravam na organização das operações. Se calhar, não era só um problema de preço, mas também das condições oferecidas para ganhar as operações”. O resumo foi feito por João Salgueiro, ex-presidente da Associação Portuguesa de Bancos, numa entrevista concedida ao i no final do ano passado. O problema, como disse, “é que quando se faz isso muitas vezes acaba por se pagar um preço”.
O preço são os cerca de 30 mil milhões de euros que o sector empresarial do Estado deve à banca e que os banqueiros se têm esforçado para receber. Dinheiro que podia e devia ser injectado na economia, servindo para financiar projectos de pequenas e médias empresas, a braços com falta de liquidez, como tem vindo a defender o presidente do Banco BIC Português, Mira Amaral. E não é o único.
Acertar no totobola à terça-feira é fácil e ninguém imaginou que fosse possível chegar à situação que o país, a Europa, o Ocidente em geral, atravessam. Negligência ou falta de visão, certo é que o Estado não tem hoje a certeza de ter dinheiro para pagar futuros, quanto mais atrasados.
Mas é de há muitos anos que uma boa parte do crédito dos bancos é canalizado para o sector público, duas décadas, pelo menos.
O processo de privatizações, ou reprivatizações, como alguns preferem chamar-lhe, foi o grande impulsionador desta prática. E logo aí, os compradores viram-se obrigados a fazer alguns ajustamentos às compras feitas ao governo. O BCP, por exemplo, acabou por gastar mais 900 milhões de euros do que o valor inicialmente previsto na compra de um banco e de uma seguradora, o equivalente ao “buraco” que encontrou nas instituições.
Estava-se então nos anos 90, ainda muito perto da adesão de Portugal à Comunidade Europeia, em 86, com os mercados inundados de fundos. António Barreto, sociólogo e presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, disse que “portámo-nos como novo ricos”, para explicar o nível de endividamento de Portugal, sobretudo nos últimos tempos. “A partir de certa altura, foi-se percebendo que Portugal não tinha os recursos suficientes para a vida que estava a fazer, sobretudo para os projectos, e começou a empurrar e a acumular dívida para a geração seguinte. Isto é válido, a meu ver, a partir de meados dos anos noventa. Começou-se a gastar por conta do que se ia crescer nos 20 anos seguintes. Simplesmente, não crescemos!”
O que parece consensual é que se a Europa encontrar as soluções e a estabilidade financeira, o papel a desempenhar pelo Banco Central Europeu, entre outras coisas, a vida vai continuar a ser difícil. E como disse também ao i António Barreto, “Portugal precisa urgentemente de tempocom alguma estabilidade para recuperar um pouco e pôr em ordem algumas reformas, nas empresas, na administração, nas instituições”.



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