Governo de unidade nacional perde um dos partidos e enfrenta mais deserções. Alemanha pressiona para mais cortes. Protestos aumentam
O acordo decisivo levou semanas a alcançar – mas 24 horas a ficar em risco. O consenso sobre as medidas de austeridade firmado entre os três partidos do governo de unidade nacional grego desintegrou-se ontem, com a recusa do partido Laos, da direita radical, em selar o compromisso. Sem acordo, a Grécia não receberá um segundo resgate financeiro por parte de parceiros europeus cada vez mais desconfiados e hostis, uma situação que levará ao primeiro incumprimento involuntário de dívida na zona euro.
“Não podemos deixar a Grécia falir”, afirmou ontem o primeiro-ministro Lucas Papademos, ex-vice-presidente do Banco Central Europeu. “A nossa prioridade é fazer o que for preciso para aprovar o novo programa económico e avançar com o novo empréstimo”, acrescentou, em declarações à margem de uma reunião de ministros.
O governo perdeu um ministro e cinco vice-ministros nos últimos dois dias, com demissões em protesto contra as medidas de austeridade atadas ao segundo empréstimo de 130 mil milhões à Grécia. Quatro saídas vieram do partido Laos, cujo líder – que na quinta-feira tinha dado luz verde ao acordo, segundo Papademos – garantiu não assinar o documento final no próximo domingo.
“Fomos roubados na nossa dignidade, fomos humilhados. Não posso aceitar isto”, afirmou George Karatzaferis. “A Grécia pode passar bem sem a bota alemã.” O Laos tem 16 dos 300 lugares do parlamento.
O abandono do Laos deixa o governo de unidade nacional mais fragilizado perante eventuais deserções de deputados dos dois maiores partidos da coligação: o Pasok, socialista, e o Nova Democracia, conservador. Mas um analista político citado pela Reuters afirma que mesmo com algumas deserções o pacote de austeridade poderá passar no parlamento grego.
A Grécia está numa corrida contra o tempo se quiser cumprir um pagamento de dívida de 14,5 mil milhões de euros no próximo mês. A operação demora a ser montada e atrasos quer na aprovação das medidas em Atenas, quer na luz verde por parte dos ministros das Finanças do euro significam uma falência desordenada – um cenário que vários analistas consideram uma espécie de antecâmara da saída do euro.
Em Bruxelas, a reunião do Eurogrupo mostrou a extensão da desconfiança dos ministros das Finanças do Norte da Europa – Alemanha e Holanda, cujos eleitores se opõem a mais um resgate grego – sobre a capacidade das autoridades em Atenas. A Europa está a pressionar o governo para assinar e explicar como vai executar os cortes.
A tensão política foi acompanhada por violentos protestos em Atenas. O maior sindicato da polícia grega ameaçou prender os auditores da troika. Segundo a Reuters, milhares de pessoas entoaram canções de protesto dos anos 60 e 70, evocadoras da luta contra o antigo regime militar.
O plano de austeridade grego implica o corte de 22% do salário mínimo, o despedimento de 150 mil funcionários públicos e cortes nas pensões. A economia contraiu 12% entre 2009 e 2011 e o desemprego supera 20%, com quase 50% de desemprego jovem.



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