17 cientistas trouxeram 26 milhões de euros para Portugal nos últimos anos. Ajudava que os produtos biomédicos estivessem isentos de IVA
Miguel Soares estava a ser recrutado para Cambridge. “Não acha que seria uma melhor progressão vir para a Universidade de Cambridge em vez desse seu instituto… como é que se chama?” O investigador, que acaba de receber uma bolsa europeia de 2,2 milhões de euros para cinco anos, irritou-se. “Respondi Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) e, agora que pergunta, se pensasse assim ficava em Harvard.”
Depois de sete distinções internacionais anunciadas em Janeiro para cientistas portugueses, do Conselho Europeu de Investigação (ERC) e do Howard Hughes Medicine Institute, dos EUA, restarão poucas dúvidas: a ciência nacional está na primeira liga. O movimento é transversal, mas ninguém tem arrecadado tanto dinheiro como estes 17 investigadores das ciências da vida. Regressaram do estrangeiro na última década e dois escolheram mesmo Portugal para imigrar, motivados pelo sangue novo de institutos como o IGC, o Instituto de Medicina Molecular (IMM), a Faculdade de Medicina de Lisboa e o Centro Champalimaud.
Há problemas, alertam, mas o financiamento nacional está mais organizado, e cada vez recorrem mais a fundos externos. Miguel Godinho Ferreira, um dos cinco vencedores do título de futuro líder científico do Howard Hughes, que garante financiamento de 513 mil para os próximos cinco anos, sublinha que, embora num ranking de financiamento estrangeiro possa aparecer num lugar mais abaixo, sem 190 mil euros da Associação Internacional para a Investigação em Cancro não teria conseguido regressar a Portugal há cinco anos. “Consegui dinheiro para o projecto, para contratar um pós-doc e um aluno de doutoramento. O financiamento da FCT era irregular. Hoje sabemos que vai continuar a abrir concursos, com mais ou menos orçamento. ”
Nas bolsas europeias há contudo um problema. Em 2007, o Conselho Europeu de Investigação (ERC) instituiu novas bolsas que, em vez de financiarem um projecto numa instituição, dão os montantes aos seus mentores. Portugal já recebeu 17 dessas bolsas, dez para a área das ciências da vida. Sinal de sucesso, concordam, com um mas. Nestas bolsas, o IVA não é elegível, por isso têm de encontrar fontes alternativas para co-financiar a compra de recursos como anticorpos ou ratinhos ou as instituições têm de abdicar dos 20% que Bruxelas destina a custos operacionais para suportar o imposto. “Está-nos a sufocar um pouco”, diz António Jacinto, dos primeiros a conseguir uma ERC em 2007. “Há países em que o IVA é reduzido ou não existe, noutros as agências nacionais devolvem o montante e há outros casos como Portugal, que fica com o IVA.”
O impacto é subtil, diz Soares, mas impede que as universidades sofram a mesma revolução que tornou a ciência de alguns institutos competitiva, atraindo os melhores, e pode mesmo levar alguns a emigrar: lá fora as bolsas acabam por valer mais. “As faculdades em Portugal não têm dinheiro para assegurar o IVA, em vez de mobilidade há desmobilidade.”
O financiamento da FCT, o institucional e por concurso, está a diminuir e estes 17 cientistas, quase todos líderes de unidades, passam grande parte do tempo a preparar candidaturas para assegurar salários e material. No IMM, em 2011, o financiamento competitivo estrangeiro ultrapassou pela primeira vez o nacional: 2,4 ME lá fora e 1,7 ME em concursos da FCT e prémios nacionais. O IGC conseguiu angariar 2,5 ME o ano passado e, em 2010, 6 ME.
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