Banco estatal mantém posição de 9,6% na Cimpor se não renegociar a aliança com a brasileira Votorantim
“A Caixa Geral de Depósitos vai ser um banco estritamente centrado no negócio bancário.” A garantia foi dada ontem por José de Matos, presidente do banco público, na conferência de imprensa de apresentação dos resultados de 2011, e mostra que a instituição vai cumprir as orientações estratégicas da troika. O plano para a venda das unidades de seguros e saúde já está em marcha. “São activos apetecíveis, serão vendidos directamente no mercado e há sempre interessados em bons negócios.” No que se refere à alienação de participações detidas em empresas cotadas, a Cimpor poderá ser uma excepção.
Isto acontece porque, revelou José de Matos, a manter-se o actual acordo parassocial estabelecido com a Votorantim para a Cimpor, o banco público mantém-se no capital da cimenteira com 9,6%. Apesar de o acordo poder vir a ser renegociado, o banqueiro não assume que tal possa vir a acontecer. “A CGD quando tem acordos cumpre- -os”, afirmou José de Matos, acrescentando que, “quando esses acordos prevêem modelos de renegociação, há boa-fé da instituição.”
A aliança da CGD com a Votorantim realizou-se através do acordo parassocial, assinado em Fevereiro de 2010, por um prazo inicial de dez anos, e é o travão a que o grupo brasileiro concretize, com a Camargo Corrêa, um acordo que resulte no lançamento de uma OPA à Cimpor. O acordo prevê fortes penalizações financeiras em caso de incumprimento. “Os interesses patrimoniais da CGD estão acima de tudo”, sublinhou.
Sobre o pedido feito à CGD por Manuel Fino, accionista de referência da cimenteira, para alargar o período que tem para amortizar a dívida relativa ao investimento na empresa junto do banco público, o presidente do banco não quis comentar. “A CGD nunca se pronuncia sobre as relações comerciais que tem com os seus clientes.” No entanto, sublinhou, “a participação na cimenteira tem circunstâncias muito particulares”.
Manuel Fino entregou, recorde-se, 9,6% da Cimpor à CGD em 2009, no âmbito da reestruturação de dívida, com a opção de recompra dessas acções durante três anos. O prazo está a terminar e o empresário quer a sua prorrogação. A CGD pagou 4,75 euros por cada acção da Cimpor, mais 25% que o valor destas em bolsa na altura, o que suscitou polémica e obrigou José Sócrates, Teixeira dos Santos e Faria de Oliveira a justificarem a operação no parlamento.
O banco estatal detém, além desta posição na Cimpor, participações accionistas em empresas que, desde 2008, já penalizaram as contas da instituição 1844 milhões de euros. Em 2011, a CGD registou o maior prejuízo da sua história, 488,4 milhões de euros, resultado “da difícil envolvente económica e financeira”. No total, o banco contabilizou imparidades de quase 1675 milhões de euros, onde as relativas a desvalorização dos títulos onde detém participações accionistas ascenderam a 623 milhões, “destinando-se este montante a fazer face sobretudo às posições detidas na PT, no BCP, na Brisa e na Zon, no montante de 349 milhões”. “Só este reconhecimento de imparidades de títulos foi superior ao resultado negativo do exercício”, explicou o presidente-executivo.
Sem definir um calendário para a venda das participações, José de Matos esclareceu que vai depender “das circunstâncias de mercado”. No caso da Cimpor, adiantou, há “outras contingências, tem circunstâncias muito particulares”.
Sobre a participação na PT, uma das que mais pressionam as contas, José de Matos escusou-se a caracterizá-la como bom ou mau negócio, dizendo apenas que “é uma das boas empresas do país”.



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