O PS apresentou esta semana uma proposta de criação de um fundo para apoiar quem não consiga pagar prestações da casa.
António Pedro Santos“Na reabilitação urbana a redimensão das tipologias deve ser feita com cuidado para não adulterar os seus valores”, diz João Santa-Rita
O PS apresentou esta semana uma proposta de criação de um fundo para apoiar quem não consiga pagar prestações da casa.
António Pedro Santos
“Nada se perde, tudo se transforma.” Fazendo jus a esta afirmação de Lavoisier, a tipologia dos apartamentos também está a mudar, adaptando-se aos tempos modernos. As casas serão mais pequenas, mais práticas e mais baratas.
“Isto não quer dizer que tenham menos qualidade, mas sim mais racionalidade no espaço, mais exigência no equipamento e preço mais adequado à procura, quer se trate de arrendamento ou venda”, explica o director-geral da CBRE Porto, João Nuno Magalhães.
As razões para esta transformação prendem-se não só com a conjuntura financeira menos favorável – com a restrição ao crédito à habitação –, como também com a própria dimensão do agregado familiar. “Na maioria das capitais europeias, metade dos seus habitantes vivem sozinhos. Esta situação é anterior à crise financeira”, esclarece o arquitecto Pedro Ressano Garcia. Segundo o vice- -presidente da Ordem dos Arquitectos, João Santa-Rita, este fenómeno acontecerá nos centros das grandes cidades, onde os custos de habitação são sempre mais elevados: “A centralidade tem um custo muito pesado. As periferias de algum modo já conhecem esse fenómeno.” Acrescenta que no início dos anos 80 do século passado, a dimensão das habitações era inferior e que muito possivelmente vamo-nos aproximar dessa realidade. Por outro lado, para quem necessitar de espaços maiores, existe sempre a possibilidade de conjugar duas habitações, o que por vezes pode ser compensador. Na mesma esteira de pensamento, João Nuno Magalhães considera que assistimos a um compromisso de tipologias mais pequenas, porque são raras as famílias com mais de dois filhos. “Direi que, no futuro, os pais poderão optar por adquirir dois apartamentos side-by-side de tipologias T0 e T1. Um para o casal, outro para os filhos. Esta será uma forma de conseguirem mais mobilidade e liquidez, caso necessitem de vender.”
Conclusão: “A casa do futuro será pequena e flexível no uso”, diz Ressano Garcia. Mas não só. O director-geral da CBRE Porto considera que há outras preocupações a ter em conta, como a obtenção da máxima eficácia energética, integrando a tecnologia com o meio ambiente e conseguindo uma construção sustentável ligada à crescente necessidade de qualidade de vida. Já João Santa-Rita diz ser difícil fazer futurologia, mas que deve estruturar-se de forma a responder da melhor maneira ao nosso quotidiano. Lembra que, no início do século XX, a cozinha era um espaço instalado nas traseiras do fim da casa. Hoje é um espaço central e próximo da entrada, muitas vezes ligada à sala, porque os nossos hábitos mudaram. Quando questionado se nas obras de reabilitação urbana as dimensões das tipologias também vão ser repensadas, o vice-presidente da Ordem dos Arquitectos diz que esta é uma prática que começa a ter expressão, mas que este tipo de transformações implica uma grande atenção e cuidado, de modo a assegurar a não adulteração de alguns dos seus valores. No entanto, considera um fenómeno inevitável, em analogia com alguns outros exemplos da Europa. “Acredito que para se preservar reabilitando é necessário aceitar algum grau de transformação, neste caso, implicando o aumento do número de habitações através da alteração das tipologias existentes. Esse é também o grande desafio que se coloca.”


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