Ainda há trabalhadores com salários em atraso na antiga Coudelaria Nacional. A solução pode passar pelo emagrecimento
O Estado não está a cumprir a sua parte do acordo no que diz respeito à Fundação Alter Real. Quem o diz é Bernardo Alegria, o administrador nomeado pelos cerca de 20 privados que, em 2007, e a pedido do ex-ministro Jaime Silva, entraram no projecto.
“O apoio dos privados à Fundação Alter Real depende da visão que o governo tenha para o futuro”, afirmou ao jornal i Bernardo Alegria. A questão está em que “o Estado, como fundador, queira promover uma dimensão que o país possa suportar. E essa decisão é política.” O representante dos privados explica assim que a antiga Coudelaria Nacional está sobredimensionada em termos de pessoal e é urgente tomar medidas.
Os privados, que pagam uma quota anual de 2500 euros, entraram há cinco anos com 1,2 milhões de euros. “O capital, que era para investir na melhoria das condições da fundação e na sua visibilidade, foi cem por cento usado para pagar contas do extinto serviço coudélico nacional. Ora nenhum privado entra num projecto para pagar facturas antigas do Estado.”
A posição dos privados já foi comunicada ao Ministério da Agricultura e o secretário de Estado Daniel Campelo já reuniu com o grupo de fundadores, “que não podem estar sujeitos aos humores dos governos”.
Segundo Bernardo Alegria, o projecto actual permitiu ao Estado reduzir a verba entregue a Alter de 3,2 milhões de euros para 750 mil euros, “mas só um milhão de euros é para suportar os salários do funcionários, que são, na sua maioria, públicos”. A solução pode, por isso, “passar por emagrecer a coudelaria”.
Para os privados é fundamental que o Estado se mantenha como fundador, porque o património da Fundação Alter Real é de todos os portugueses. Além disso, o Estado tem como função fiscalizar se os privados cumprem os fins a que a fundação está obrigada. “Fala-se muito em sociedade civil, mas sempre que esta se organiza para fazer alguma coisa castram-na!”
Bernardo Alegria diz que os privados estão dispostos a continuar, mas numa lógica de valorização. “Se o Estado não tem condições para tomar conta deste património extraordinário, tem de delegar nos privados e tem de pedir-lhes ajuda para redimensionar em função das suas possibilidades.”
Nesta altura existem ainda alguns trabalhadores, prestadores de serviços, com salários por receber. A própria fundação tem a haver do Estado 180 mil euros em IVA (imposto sobre o valor acrescentado).
Entre os privados que se mobilizaram para entrar na Fundação Alter Real contam-se José Roquette, o grupo Espírito Santo, Manuel Fino, Nabeiro, mas também nomes internacionais, como Hermès, da casa Hermès, ou o banqueiro Manuel Tavares de Almeida, do Banco Luso-Brasileiro. Situações como aquela por que a FAR está a passar podem deitar tudo a perder. Os privados esperam agora a realização, dentro de dias, da assembleia--geral da Companhia das Lezírias e a tomada de posse da nova administração, liderada por António Saraiva, que será, por inerência, presidente da fundação.



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