Mais pressão, dependência externa e fuga de capitais. Mas a saída dos gregos não tem de obrigar à saída de Portugal, dizem economistas
Uma saída da Grécia da zona euro colocaria pressão extrema sobre Portugal, mas não teria de significar necessariamente uma saída imediata da moeda única, acreditam economistas portugueses contactados pelo i. A pressão teria potencial, no entanto, para ampliar a percepção de risco nos mercados e nos portugueses, agravando os problemas de financiamento da economia portuguesa, que ficaria no curto e médio prazo ainda mais dependente da assistência externa.
O abandono grego da zona euro faz parte das expectativas das instituições europeias, em Bruxelas, e dos governos em Berlim e em Paris. Um representante sénior da máquina administrativa europeia afirmou esta semana, numa reunião com jornalistas em Lisboa, que a saída da Grécia era dada como certa, faltando o tempo necessário para erguer uma protecção maior contra o contágio para o resto da zona euro. Nesse cenário, de acordo com a mesma fonte – ouvida pelo i – Portugal enfrentaria uma situação muito díficil, mas teria “50%” de possibilidades de ficar no euro.
O juízo da probabilidade feito por uma figura política não é uma medida científica, mas ilustra o grau de risco que o país enfrenta. Os economistas contactados por este jornal concordam que esse risco é elevado, mas preferem sublinhar que há condições para o país ficar no euro.
“A saída grega não obriga por si só à saída de Portugal”, afirma Pedro Braz Teixeira, investigador da Universidade Católica e ex-membro do gabinete de Manuela Ferreira Leite nas Finanças. “Depende de como o Banco Central Europeu vai intervir no mercado da dívida pública e do cumprimento pelo governo português do programa da troika”, acrescenta.
A intervenção do BCE e a continuação da assistência financeira externa teriam de acontecer para o país não ficar sem dinheiro. “A saída da Grécia faria com que os investidores ficassem à espera da saída de Portugal e isso é gravíssimo para nós”, sublinha o economista e ex-ministro das Finanças Luís Campos e Cunha. O euro não foi desenhado para haver divórcios de países e o precedente grego levaria a uma subida muito acentuada dos juros da dívida soberana de todos os países, com especial incidência nos mais frágeis e passíveis de sair.
Não seria apenas a República a enfrentar problemas de financiamento. “A principal consequência seria uma saída ainda maior de capitais e de depósitos do sistema financeiro português, com enorme risco sistémico”, antevê Filipe Garcia, economista da consultora IMF, no Porto. Até Outubro do ano passado, data dos dados mais recentes do boletim estatístico do Banco de Portugal, o sistema português era uma excepção entre os países periféricos do euro, registando uma subida de 7,8% face ao mesmo mês em 2010 no valor do total dos depósitos de particulares (e de 730 milhões de euros face a Setembro). Este comportamento excepcional – que pode estar a inverter-se depois do aumento da tensão no euro no último trimestre de 2011 – seria vaporizado.
A degradação causada por uma saída grega – saída que os economistas ouvidos pelo i não disputaram – tornaria Portugal ainda mais dependente do exterior. À partida, o facto de Portugal ser a peça seguinte no dominó do euro “poderia funcionar a nosso favor, uma vez que seríamos como um tampão para impedir que a crise se alastrasse”, aponta Paula Carvalho, economista do Banco BPI. Outra forma de ver o mesmo problema: “A resolução da situação portuguesa, que já não depende só de nós, passaria a depender ainda mais do exterior”, diz Campos e Cunha.
Esta “interdependência” tem sido espelhada em vários comentários políticos. A chanceler alemã, Angela Merkel, tem sublinhado várias vezes que a Grécia é “um caso único”, linguagem que figura também nos comunicados das cimeiras. Do lado português, o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, já admitiu que há um compromisso europeu de continuar a financiar Portugal, caso o essencial do programa da troika seja cumprido. Em São Bento o Executivo de Passos Coelho sabe que os gregos podem estar de saída e agarra-se ao cumprimento do programa em 2012 e 2013 – com o mínimo de alterações – para recuperar a credibilidade com que comprará mais financiamento externo para o país.
Os economistas sublinham que a favor de Portugal joga o facto de o país estar a conseguir apresentar resultados com o programa da troika, sobretudo naquele que é o problema de fundo: o défice externo. “Está a diminuir imenso e esse é o objectivo do programa – é à custa do nível de vida, mas talvez o salto que demos tenha sido demasiado grande”, aponta Filipe Garcia. Na frente orçamental o resultado de 2011 foi conseguido só com cosmética, mas há a percepção na Europa de que as instituições – com destaque para o fisco – funcionam muito melhor do que na Grécia.
Todos admitem, contudo, a delicadeza da situação. Em primeiro lugar, os riscos sobre o cumprimento do programa de ajustamento português são significativos – a recessão deverá ser maior do que o estimado e o governo (a braços com subidas contabilísticas no défice) poderá ter de lançar mais medidas de austeridade.Lá fora, a incerteza é total, com a sobrevivência do euro ainda por assegurar. Com mais ou menos certezas, todos os especialistas concordam que este é “território virgem” e, por isso, muito incerto.



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