Foi o último jogador a fazer um hat-trick em Alvalade, pelo Mafra, no jogo que o tornou famoso. Agora está em Aveiro, no Beira-Mar
O telefone toca. “Estou? Sim?” Do outro lado está Chengdong Zhang, acabado de sair do treino do Beira-Mar. É quinta-feira e o avançado chinês faz 23 anos. Está em Portugal desde 2009. Começou pelo Mafra, depois foi emprestado à U. Leiria e esta época ao Beira-Mar. Fala português sem medo, embora não encontre as palavras certas à primeira tentativa. E ainda faz uma perninha como tradutor na selecção chinesa, com a equipa técnica de Camacho.
Parabéns, Zhang! Que tal está a ser esse aniversário?
Tudo a andar aqui! Tudo a correr bem.
Este ano já marcaste um golo ao FC Porto, por exemplo. Mas ficaste famoso foi pelo hat-trick em Alvalade.
Esta fui... este foi... espera aí um momento [tenta encontrar as palavras certas]. Isso foi há dois anos, quando estava no Mafra, na Taça de Portugal. Fiquei muito contente. Estava na segunda divisão e o Sporting é uma grande equipa, uma das melhores de Portugal. Estava excitado! Depois os golos apareceram de forma natural. Para mim foi o melhor jogo na vida.
E como vieste parar a Portugal?
Foi um empresário. Eu estava na China. O meu clube queria renovar contrato comigo por cinco anos, mas eu não queria.
Porquê?
Porque a minha equipa desceu para a segunda divisão. E depois queria renovar contrato comigo, cinco anos, e eu não queria, queria vir para a Europa, para o futebol verdadeiro, para Portugal. Muitos empresários falaram comigo para me dar muitos caminhos para escolher: Austrália, Bélgica, Portugal, América... e depois escolhi Portugal.
O que te levou a preferir Portugal?
Portugal é muito melhor. O futebol aqui é melhor, o campeonato é muito forte. Na China os adeptos gostam muito da selecção de Portugal, é das mais famosas do mundo. E tacticamente o futebol é mais avançado.
E o que tens achado da vida aqui?
É mais tranquila. É diferente da China, tem menos pessoas na rua. Na China há muita gente. No futebol também é diferente. Aqui vim para a segunda divisão, o futebol é mais duro, mais difícil, mais forte que na China.
Entretanto passaste para a U. Leiria e agora estás no Beira-Mar. Mas ainda vais muitas vezes a Mafra, não vais?
A semana passada fui lá para ver o jogo. O Mafra ainda tem dois chineses a jogar lá. Às vezes vou para lá ajudá-los, levo alguma comida chinesa para eles. Quando aqui temos dois dias ou um dia e meio livre, de folga, vou lá e estou com os jogadores, os directores, o presidente.
Já te safas bem a falar português. Foi difícil de aprender?
No início era muito complicado, só sei falar um pouco de inglês. Foi muito difícil para comunicar com os colegas, com os treinadores. Depois melhorou, com a ajuda de outros jogadores, como o Yu Dabao, que jogou no Benfica e foi para o Mafra. Ensinou-me muitas vezes, falou--me sobre a cultura portuguesa.
E costumas estudar?
Às vezes faço isso sozinho, com livros e dicionários. E pergunto aos colegas, aos amigos. Mas quero falar melhor ainda. Os meus pais queriam que não viesse só jogar futebol aqui. Queriam que falasse melhor português também.
A tua mãe foi nadadora e é treinadora de natação. Isso também ajudou no teu caminho no desporto?
Sim, mas foi o meu pai quem mais apoiou, ele gosta mais que eu jogue futebol. A minha mãe foi jogadora, nadadora, mas ela queria que eu estudasse. Mas eu gosto mais de futebol.
Quando optaste só pelo futebol, o que disseram eles?
O meu pai deixou-me escolher. Perguntou-me: “O que é que tu queres?” E eu escolhi jogar futebol. Então ele disse: “Não há problema. Esforça-te, joga bem, vai para a selecção, põe objectivos para jogar melhor.”
Também já foste chamado à selecção da China, pelo Camacho. Dás uma ajuda na tradução?
Sim, sim, às vezes. Traduzo para os colegas e para os adjuntos dele. É o Camacho e mais quatro adjuntos. Lá havia um tradutor para ajudar o Camacho. Eu ajudo mais o Pepe [Carcelén]. Porque ele fala muito bem português, o Camacho é que só fala espanhol e eu não compreendo muito.
Além de jogar mais vezes pela selecção, o que esperas mais do teu futuro?
Por agora, continuar a jogar no Beira-Mar. Ainda faltam 13 jornadas no campeonato. Quero ajudar o Beira-Mar na manutenção. E continuar a trabalhar.
E em Portugal, do que gostas mais?
O quê, comida?
Sim, por exemplo.
Francesinha! E leitão também. Comida gosto de tudo!



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