Villas-Boas
EPAAbramovich vive obcecado com a prova europeia. O mínimo é estar lá, mas a ambição não tem limites
O Chelsea empata em Stamford Bridge com uma equipa da segunda divisão (Birmingham) na Taça de Inglaterra. Na transmissão televisiva, os comentadores da ESPN fazem correr o rumor de que Didier Drogba deu uma palestra à equipa no intervalo. No fim do jogo (1-1), André Villas-Boas é confrontado com a informação. “Isso não aconteceu, não faz sentido. Não tenho nada a dizer. Acabei de dar uma entrevista à ESPN. Se soubesse que tinham estado a dizer isso teria recusado.” Mais uma vez a liderança é posta em causa. O empate vem no sábado, dois dias depois de Villas-Boas dizer abertamente: “[Os jogadores] não têm de apoiar o meu projecto. É o dono quem apoia o meu projecto.”
O treinador português foi uma aposta pessoal de Roman Abramovich. Talvez vendo nele um José Mourinho 2.0, um português vencedor no FC Porto que, apesar da juventude, tem confiança e força mental para resistir à pressão da Premier League e dos media ingleses. Abramovich é um idealista. Em Villas-Boas viu a filosofia que queria de volta ao Chelsea, depois de se fartar de Avram Grant, Luiz Felipe Scolari ou Carlo Ancelotti. O projecto de que o técnico fala pressupõe a primeira grande reestruturação da era Abramovich. Os jogadores que ajudaram Mourinho ao primeiro título de campeão dos blues em 50 anos têm saído a conta-gotas. Sobra o eixo John Terry-Frank Lampard-Didier Drogba, além de Petr Cech e Paulo Ferreira. Na cabeça de Villas-Boas, nenhum dos cinco terá muito mais tempo pela frente no clube. Como eles, também Ashley Cole e Florent Malouda estarão a prazo.
“A minha autoridade é total porque é a autoridade do dono.” O treinador autoproclama-se mandatário de Abramovich. Mas os resultados, mesmo aceitando esta época como um período de transição, estão a correr contra Villas-Boas. O Chelsea ganhou apenas metade dos 36 jogos que disputou esta época. Em Stamford Bridge, onde chegou a estar 86 jogos sem derrotas na Premier League (entre 2004 e 2008), já perdeu quatro vezes – três delas para o campeonato. Ao fim do mesmo número de jogos (35), Domingos tinha mais uma vitória que Villas-Boas quando foi despedido pelo Sporting.
O que prende então o técnico de 34 anos ao Chelsea? Roman Abramovich é um homem obcecado com a Liga dos Campeões. Desde que comprou o clube londrino, em Junho de 2003, nunca os blues falharam a qualificação para a prova europeia. Estar lá e passar da fase de grupos é o mínimo dos mínimos que exige a um treinador; ficar pelos oitavos--de-final é um mal menor desde que as coisas corram bem melhor na Premier League. Mourinho foi eliminado nessa fase em 2005/06, mas compensou isso com o bicampeonato em Inglaterra. Ancelotti também não passou daí em 2009/10, depois deu a Abramovich a primeira Premier League desde o Special One.
Villas-Boas joga hoje a primeira mão dos oitavos-de-final da Champions com o Nápoles. Umaeliminação seria desculpável se o Chelsea estivesse em boa posição para ser campeão. Mas não está. É quinto, num combate a quatro – com Arsenal, Newcastle e até Liverpool – pelo último lugar que dá acesso à próxima edição da Liga dos Campeões. Em 2009, Abramovich despediu Scolari quando sentiu que a qualificação estava em risco. Guus Hiddink ainda foi a tempo de salvar a época: acabou em terceiro na Premier League e ganhou a Taça de Inglaterra.
É pertinente dizer que a vida do português no Chelsea depende dos dois jogos com o Nápoles. O passado mostra que Abramovich nunca se preocupou muito com as finanças quando se trata de despedir treinadores. De Claudio Ranieri a Ancelotti, passando por Mourinho, Avram Grant e Scolari, o multimilionário russo já gastou mais de 62 milhões de euros em rescisões. Mesmo assim, o valor representa apenas uma pequena fatia dos mais de mil milhões de euros que investiu no clube em oito anos e oito meses. Se optar por despedir Villas-Boas, serão pelo menos mais 24 milhões de euros – o mesmo que pagou a Mourinho.
As apostas falhadas em jogadores como Andriy Shevchenko (43,9 milhões) ou Fernando Torres (58,2 milhões) obrigam--no a repensar alguns investimentos mais pesados. Em 2011, pela primeira vez desde que é dono do Chelsea, Roman ficou fora do pódio na lista dos maiores multimilionários russos publicada pela revista “Finans”. Além disso está a financiar a organização dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 e o Mundial de futebol de 2018, ambos a cargo da Rússia.
Abramovich tem estado mais perto do que nunca da equipa. Aparece no centro de estágio para acompanhar os treinos e está na bancada a assistir aos jogos. Villas-Boas revelou que até já discutiram os planos para a próxima época. A proximidade poderá aconselhar mesmo o patrão a pensar duas vezes antes de cortar mais uma cabeça – mesmo que o Chelsea acabe eliminado pelo Nápoles e o desempenho no campeonato não melhore – em nome da renovação.
“Não queria precisar de um período de transição. A este nível não nos devia ser permitido um ano de transição. Mas o projecto para a próxima época é bom e vamos poder competir noutro patamar. Vamos lutar pelo título”, garantia o treinador há duas semanas. Com sorte, Abramovich terá paciência para esperar pelos resultados da mudança. Por agora, Villas-Boas está preso por um fio dourado chamado Liga dos Campeões.



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