Sonhou ser Springbok mas hoje é um dos rostos da Inglaterra no Seis Nações. Lana Del Rey deu uma ajuda
São 115 quilos atleticamente distribuídos por 1,98 m de físico, o cabelo loiro oxigenado e um sotaque exótico para os ouvidos mais disciplinados. É fácil imaginar Mouritz Botha com problemas em passar despercebido. No entanto, as cenas do último baptismo contam uma história diferente. A banda-sonora, essa pertence a Lana Del Rey. Mouritz, o mesmo que nasce para ser Springbok, joga este sábado frente à Itália com a rosa de Inglaterra ao peito, depois de uma viagem de cerca de 9 mil quilómetros e um trabalho a lavar carpetes.
Não é a primeira vez que Mouritz, 30 anos, é chamado para alinhar pela selecção de râguebi de Inglaterra. É a segunda, o que vai dar praticamente ao mesmo, não fosse o encontro frente à Escócia, no passado fim-de--semana. Mouritz impressionou na estreia do tradicional Torneio das Seis Nações, mas tem todas as razões para perguntar como se tornou um dos principais rostos da selecção da Rosa. Há oito anos foi obrigado a abandonar a terra que o viu nascer, depois de ser rejeitado por todos os clubes locais.
“Disseram-me que nunca seria jogador de râguebi na África do Sul.” Culpem-se os escassos 105 quilos que, na altura, faziam de Mouritz um jogador demasiado leve para suceder ao segunda linha dos Stormers, clube da Cidade do Cabo. A sentença parece cruel a um miúdo que cresceu a sonhar com os Springboks. Não é o único. Mas Mouritz está determinado a escrever o próprio destino e decide enviar emails para 20 clubes em Inglaterra.
Em Outubro de 2004, com 22 anos, aterra no Bedford Athletic. O clube amador é o único a responder ao pedido de emprego, com a promessa de um contrato de 200 libras por semana como assistente de escritório, um quarto numa residência e um jogo por semana. Mas a vida troca as voltas – e os trabalhos – ao sul-africano. “Lavar carpetes foi o trabalho mais difícil que fiz em toda a vida”, conta o jogador. O serviço na fábrica é exigente e depois das horas a secar e dobrar toneladas de tapetes Mouritz ainda tem os treinos.
Da fábrica de carpetes para uma empresa especializada na limpeza e na remoção de amianto (material que, inalado, pode causar graves problemas de saúde), Mouritz continua empenhado no râguebi – “O dinheiro nunca me importou. Para mim era um orgulho vestir a camisola de um clube.” Em 2006 muda-se para o Bedford Blues, torna-se profissional e, pela primeira vez, dedica-se a tempo inteiro. É aí que atrai os olhares da National League One, a primeira liga do râguebi inglês.
Em 2009 vê no Facebook que o Saracens, clube de Hertfordshire, está no mercado à procura de um homem para a segunda linha. Arrisca. O painel de entrevistadores é intimidante: o director da equipa, Brendan Venter, e Morne du Plessis, antigo capitão sul-africano. Mouritz diz- -lhes que é o dia mais importante da vida dele, uma oportunidade única, e abandona a sala. Morne du Plessis não tem dúvidas, sabe pouco sobre o jogo daquele homem, mas tanta vontade de vencer merece ser compensada. Mouritz ainda não abandonou o parque de estacionamento quando recebe o telefonema de Edward Griffiths, chefe executivo do Saracens. “Saí do carro, gritei e comecei aos pulos ao pé dos portões. Quando olhei para cima o Edward estava a espreitar-me da janela do escritório. Foi uma vergonha!”
JOGOS DE VÍDEO Os Saracens são os campeões da Aviva Premiership e a lesão de Courtney Lawes foi a porta de entrada de Mouritz no Seis Nações. Agora o sul--africano é um dos porta-vozes da equipa, e, porque não, um dos mais inspirados. Os louros, imagine-se, vão para Lana Del Rey. Botha revelou que a primeira vitória de Inglaterra em oito anos no Murrayfield, o mítico estádio de Edimburgo, foi inspirada numa música da norte- -americana, “Video Games”.
Conta Mouritz que, antes do encontro com a Escócia, o treinador Stuart Lancaster mostrou aos jogadores um vídeo motivacional com alguns momentos da selecção da Rosa embalados pela voz doce de Lana. “A música soava por todo o balneário. Ficámos arrepiados, mas com a certeza de que estávamos prontos para aquilo.”
Mouritz até pode ter sonhado com uma estreia pela África do Sul, mas nunca a fantasia foi tão real como nos últimos anos em Inglaterra. Garante que foi em Bedford que nasceu e promete a mesma inspiração para o Stadio Olimpico, em Roma, já este sábado.
Veja o resumo do Itália-Inglaterra este sábado, 19h00 na Sport TV3 e o França-Irlanda em directo às 20h00



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