Sporting
Ao fim de dez dias João Pereira já vê diferenças entre Domingos e Sá Pinto. Os jogadores estão mais à vontade com o novo treinador, mais comunicativo
A saída de Domingos Paciência ainda está bem fresca no Sporting. Passaram apenas dez dias desde que o treinador saiu e Sá Pinto também não teve muito tempo para moldar a equipa à medida do que pretende. Mesmo assim, João Pereira já sente mudanças. “Estamos a tentar fazer dentro de campo o que o mister nos tem transmitido, principalmente assumirmos a nossa personalidade e não sermos levados a jogar de determinada maneira por aspectos exteriores, principalmente por influência do público”, explica o lateral. “Às vezes sentíamo-nos pressionados, parecia que a bola picava nos pés e batíamos a bola na frente. Agora não, temos a nossa personalidade e, mesmo que as coisas corram um pouco mal, somos homens e temos de assumir esses erros.”
O discurso de um dos capitães de equipa revela ainda parte do que aconteceu ao longo dos sete meses do trabalho com Domingos. Fonte próxima da SAD do Sporting garante ao i que a comunicação do técnico português com o plantel era fraca: Domingos só falava com os jogadores nas palestras antes dos jogos e recusava falar inglês com os estrangeiros – nem queria aprender (chegou mesmo a ser-lhe oferecido um curso, que acabou por rejeitar). Por outro lado, a postura de Domingos no banco também era mal recebida pela equipa. Gesticulava muito e qualquer erro originava de imediato uma repreensão aos jogadores, que sentiam que eram punidos sem uma conversa frontal.
Esta não era, no entanto, uma situação nova com Domingos. Já no Sp. Braga era o presidente quem muitas vezes assumia o papel de falar à equipa. António Salvador também tinha a noção de que a capacidade do técnico para se fazer entender perante os jogadores era insuficiente.
A declaração de João Pereira mostra que há uma abertura diferente do plantel para ouvir Sá Pinto, para colaborar com o treinador. Essa é uma das mudanças que o técnico tem tentado incutir no Sporting. O professor José Neto, mestre em Psicologia Desportiva e doutorado em Ciências do Desporto, aponta a a comunicação e o sportinguismo como factores importantes para ajudar a resolver os problemas da equipa. “Os laços afectivos são muito importantes. Quando estamos com gente de quem gostamos e que pertence à casa de uma forma tão rica como é a do Sá Pinto, de certeza absoluta que as respostas também são mais apelativas.”
O FACTOR TREINO Por agora, Sá Pinto também tem marcado a diferença em relação à era de Domingos nas rotinas de treino. Com o novo treinador, o Sporting deixou de treinar de manhã, como era habitual com o anterior técnico, e passou a trabalhar à tarde (começa às 16h00 ou 16h30). “Tem a ver fundamentalmente com o controlo do esforço. Mas achamos que por vezes o treino de manhã poderá ser uma dinâmica para continuar.”
Trará esta alteração algum resultado prático? Daúto Faquirá vê a opção mais como uma forma de dar um cunho pessoal. “E se calhar o Sá [Pinto] acha que o jogador, treinando à tarde, depois vai descansar mais cedo. Agora... dizer que isso tem implicações no rendimento é impossível.” A explicação do antigo técnico do Olhanense vai ao encontro do que também diz Carlos Azenha. “Tem a ver com o que o treinador pensa que necessita. Mas a qualidade do treino é a mesma. O rendimento é igual.”
Entre a manhã e a tarde, José Neto lança outra hipótese para a discussão. “Se os jogos são quase sempre à noite, porque é que as equipas não treinam mais à noite? Cada vez mais o jogo diz--nos como devemos treinar. Admira-me que não façam isso mais vezes.” Seria a situação ideal, de reprodução das condições do jogo, mas onde falta um factor essencial, de acordo com Azenha: “Isso não é possível. Crio o cenário da hora, mas não crio o mais importante, que é a pressão. Faltam os espectadores, por exemplo. Também se pode falar nos penáltis. No treino é uma coisa, no jogo é outra – há a pressão psicológica. Por isso é que mesmo os grandes jogadores falham nessa altura.”
Uma coisa parece ter ficado clara com as palavras de João Pereira. O clima no Sporting está mais pacífico, mais tranquilo. A relação que Sá Pinto tenta ter com os jogadores é um princípio para essas melhorias. E José Neto não tem dúvidas: “Quem é mais feliz ganha mais vezes. Quem treina mais contente tem resultados mais positivos. E quem se envolve mais nesta relação olhos nos olhos, onde se abre um pouco a janela da alma, vê que depois o jogador dá um salto de excelência e é capaz de fazer coisas extraordinárias quando menos se espera.”
Para já, o Sporting tem o Legia pela frente. Não precisará de uma exibição nem de um resultado extraordinário para seguir em frente, mas será mais uma oportunidade para os jogadores provarem a Sá Pinto que a bola já não pica nos pés.
Hoje, Sporting-Legia Varsóvia às 20h05 na SIC e Besiktas-Sp. Braga às 20h05 na SportTV1



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