Mourinho
D.R.O clássico a quatro jornadas do fim está a agitar Espanha, sendo “certo” que Mourinho será este ano campeão no quarto país. Igualaria Trapattoni e Happel. Persegue Ivic (seis países)
Arsène Wenger, Alex Ferguson e José Mourinho encontram-se no Céu. Deus vira-se para Wenger e pergunta-lhe o que é importante para ele. Wenger responde “o planeta Terra, assim como proteger o sistema ecológico”. Deus olha para Wenger e diz: “Gosto da tua maneira de pensar, senta-te do meu lado esquerdo.” Segue-se a mesma pergunta para Ferguson. “As pessoas e as suas próprias escolhas.” Deus reage: “Gosto da tua maneira de pensar, senta-te do meu lado direito.” Vira-se então para Mourinho, que o olha com um ar indignado. “Qual é o problema?”, questiona. Resposta de Mourinho. “Penso que estás sentado na minha cadeira!”
Este exercício com três treinadores só faz sentido em Inglaterra, porque Mourinho não tem rivais à altura em Portugal (Camacho fica-lhe com a Taça de Portugal mas não lhe dá luta no campeonato), nem em Itália (Ancelotti dá-lhe luta mas não lhe ganha nada e Ranieri nem conta para o totobola). Em Espanha sim, há concorrência feroz, e basta um para semear o pânico. É Pep Guardiola. Mas desta vez o título está mais perto do Madrid que do Barcelona, com os sete pontos de avanço à 20.a jornada. Falta muito campeonato, sim, mas o Madrid é um carrossel asfixiante de emoções, golos, espectáculo e o Barcelona... bem, o Barcelona é aquela equipa que até pode estar toda a época sem perder com o Real Madrid (já lá vão cinco jogos em 2011/12 e nem uma derrota, com o bónus de duas vitórias no Bernabéu), mas depois tropeça com uma equipa patrocinada pela Burger King (Getafe, próximo adversário do Madrid, já amanhã).
Sete pontos é muito e o Madrid não está com vontade de perder a pedalada. Não faz o tipo do Madrid nem de Mourinho. Tanto que as bolsas de apostas já não perguntam se vai ser ou não campeão, mas sim onde, e Camp Nou é um dos destinos mais apetecíveis. A quatro jornadas do fim, 22 de Abril. Imagina o Barça fazer o pasillo ao arqui-rival na sua própria casa? Na última vez, em Maio de 2008, os catalães não estavam lá muito dispostos a isso, e no Bernabéu!
UM, DOIS, TRÊS, QUATRO Seja em Camp Nou seja nou, a verdade é que Mourinho está perto de se sagrar campeão nacional no quarto país da sua carreira, depois do duplo sucesso no FC Porto (11 e oito pontos de avanço sobre o Benfica em 2003 e 2004), no Chelsea (12 sobre o Arsenal em 2005 e oito sobre o Man. United em 2006) e no Inter (10 sobre a Juventus em 2009 e dois sobre a Roma em 2010). Tal feito só está ao alcance de dois predestinados, como Ernst Happel e Giovanni Trapattoni. O primeiro, austríaco; o segundo, italiano. Um já não está entre nós, o outro é a velha raposa e treina a Rep. Irlanda, apurada para o Euro-2012. Happel tem bandeiras na Holanda (Feyenoord-71), na Bélgica (FC Brugge-76, 77 e 78), na Alemanha (Hamburgo-82 e 83) e na Áustria (Tirol-89 e 90). Quando festeja o tetra já tem 64 anos. Trapattoni não se cinge tanto à geografia e é vê-lo a ganhar em mundos futebolísticos tão diferentes como Itália (Juventus-6 e Inter-1), Alemanha (Bayern-97), Portugal (Benfica-2005) e Áustria (Red Bull Salsburgo-2007), com o último título a chegar- -lhe aos 69 anos.
trapattoni vs. happel Os dois conhecem-se perfeitamente. São contemporâneos e têm um passado juntos. Nos anos 80, com a reabertura das fronteiras em Itália – imposta em 1966 pela escandalosa eliminação da squadra azzurra aos pés da Coreia do Norte (entretanto afastada do Mundial por Portugal) –, a Juventus assume-se como grande na Europa.
Ao leme, Giovanni Trapattoni. Na sua agenda de reforços, um trio incomparável. Primeiro, o francês Michel Platini (ex-Saint Etienne). Depois, o fintas dinamarquês Michael Laudrup (Bröndby) e o goleador polaco Zibi Boniek (Widzew Lodz). Tudo o resto é igual, com os italianos Zoff, Gentile, Brio, Scirea, Cabrini, Bonini, Tardelli e Rossi. A equipa ganha tudo em Itália e depois reina na Europa. Em 1984, a Taça das Taças na final de Basileia com o Porto (2-1). No ano seguinte, a Taça dos Campeões no maldito Heysel, com o Liverpool.
Para chegar ao topo da pirâmide (Trap é pioneiro, com dois títulos europeus diferentes em anos seguintes, Mourinho imita-o em 2003 e 2004 pelo FC Porto), há conversas sobre tácticas e noitadas perdidas para rever posições. Conhecidos são os debates internos entre Trapattoni e Platini.
Uma célebre é contada pelo guarda- -redes Tacconi, suplente do capitão Zoff até 1983, depois titularíssimo. “No intervalo de um jogo, o Platini vira-se para o Trap e diz-lhe ‘mister, vamos avançar no terreno, se tivermos a bola mais longe da nossa área arriscamos menos’. Trapattoni olha para ele, reflecte e responde-lhe com toda a calma do mundo: ‘Bravo, Michel, tudo bem, mas para eu fazer isso faz-me primeiro ver a bola sempre lá na frente e não a equipa sozinha sem ela.’”
Em 1983, a Juventus de Trap e Platini sofre a maior desilusão da carreira. Na final da Taça dos Campeões, em Atenas, o Hamburgo de Happel dá a volta a Trap. Não é só o golo de Felix Magath, aos oito minutos, que garante a vitória. É também a marcação individual de Rolff sobre Platini. Sem maldade nem faltas, apenas perseguição a todo o campo, impedindo o génio francês de se libertar das amarras e municiar Rossi e Boniek, perdidos entre os panzers Kaltz e Jakobs.
É um dia triste para a Juventus, sim, mas só uma derrota é capaz de mudar Trapattoni. Na conferência de imprensa, o técnico italiano aceita a derrota e perspectiva uma mudança táctica com a marcação à zona de Happel. O austríaco ensina involuntariamente o italiano e a partir daí a conservadora Juventus governa Europa e Mundo (Taça Intercontinental vs. Argentinos Juniors).
UM, DOIS, TRÊS, QUATRO, CINCO, SEIS Já chega de Happel e Trapattoni. Ambos se confirmam campeões em quatro países aos 64 e aos 69 anos, respectivamente. Nesta conjectura, José Mourinho só tem 49 anos e prepara-se para igualar os dois marretas. Irá ultrapassá-los ou não, essa é a questão (de tempo, claro). Se sim, não se julgue o maior de todos. À sua frente tem um rival de peso. Um croata, hexacampeão.
Falamos de Tomislav Ivic, campeão nacional na Jugoslávia (Hajduk Split-74, 75 e 79), na Holanda (Ajax-77), na Bélgica (Anderlecht-81), na Grécia (Panathinaikos-86), em Portugal (FC Porto-88) e em França (Marselha-92). Chega ao tetra aos 56 anos e desde então está sentado na cadeira. A fazer de Deus.



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