A aposta do clube da II Divisão no mercado asiático começou muito antes de a EDP cair em mãos chinesas e de Futre falar em charters
Hanoh Lee chega ao quarto e pega no computador para saber o que se passa do outro lado do mundo. O espaço é simples, tem três camas, uma secretária e um armário. Na parede por cima da mesa há mais de uma dezena de post-its cheios de palavras soltas em português. Aos pés de uma das camas, a única que é utilizada, está um projector para ligar ao computador. E ao lado ainda há uma mesa-de-cabeceira improvisada: um microondas com um candeeiro em cima.
Hanoh é sul-coreano, tem 20 anos e veio para Portugal em 2010. A porta de entrada no país foi o Mafra. É um dos muitos jogadores asiáticos que o clube da II Divisão tem trazido da China e da Coreia do Sul. Aqui os charters que Paulo Futre tornou famosos já fazem parte da rotina. Começaram a aterrar muito antes da fervorosa conferência de imprensa do antigo extremo.
“A ligação à Ásia é fruto da minha vida empresarial. Tenho negócios em quase todo o mundo. E nesses negócios, na China e na Coreia, conheci alguns empresários. Foi por aí que isto começou”, conta Antonino Florindo, presidente do Mafra, mais conhecido por José Cristo. A rota aérea já tem seis anos e representa uma parte significativa do investimento do clube no futebol.
Para começar, o Mafra paga todas as despesas relacionadas com os vistos e as viagens. “E temos uma boa relação com o SEF [Serviço de Estrangeiros e Fronteiras]”, explica Quim Zé, director desportivo. Além disso, foi criado um pequeno centro de estágio dentro das instalações da Moticristo – empresa de comércio de automóveis fundada pelo presidente. São dez quartos, todos com casa de banho, ar condicionado, televisão por cabo e internet sem fios. Mesmo ao lado, a cantina da empresa assegura as refeições dos jogadores. “Nenhum clube da II Divisão tem condições como estas”, garante Quim Zé.
A aposta nos jogadores asiáticos ficou mais à vista do país quando o Mafra jogou com o Sporting nos oitavos-de-final da Taça de Portugal. Na altura, em Janeiro de 2010, o chinês Chengdong Zhang fez um hat-trick em Alvalade. Mesmo assim o Mafra perdeu (3-4), mas o avançado conquistou os adeptos e os olheiros. No fim da época deu o salto para a I Liga, emprestado à U. Leiria. Agora está cedido ao Beira-Mar, até Junho.
A história de Zhang serve de inspiração aos que agora fazem parte do plantel do Mafra. Young-chul Kim também é sul-coreano. Chegou há mais tempo, em 2007, mas entretanto esteve dois anos e meio afastado de Portugal. Uma lesão levou-o de volta à Coreia para fazer uma artroscopia, a conselho do pai. Kim acabou retido e forçado a cumprir o serviço militar obrigatório durante dois anos. O mês passado regressou a Mafra.
Wen Shuo e Li Rui vieram da China. O primeiro é avançado e luta por um lugar nas opções do treinador. O segundo, defesa, parte para a terra natal em Março. No início da próxima época vem outra vez para Portugal.
Adaptação No balneário do Mafra fala--se português com vários tipos de açúcar. Também se distinguem o crioulo, o inglês (quase sempre mais arranhado que aperfeiçoado), o mandarim e o coreano. A mistura de sons confunde os mais distraídos, mas em campo – com maior ou menor dificuldade – todos se entendem. Os gestos do futebol são universais.
Elói Zeferino é treinador do Mafra desde Outubro e já se deixou convencer pelo empenho e pela disciplina dos jogadores asiáticos. “Ainda não estão tão habituados à intensidade do treino e ao contacto físico, mas têm vindo a evoluir e a assimilar as ideias europeias. São por norma miúdos humildes, capazes de ouvir e assimilar o que é transmitido.” A velocidade de leitura e de execução representa um dos obstáculos mais difíceis de ultrapassar. E os jogadores são os primeiros a reconhecer isso. “Aqui é tudo mais rápido: joga e toca, vai buscar a bola à frente. Na China é menos assim”, reconhece Wen Shuo.
Os treinos e os jogos são sagrados. Por isso, a vida no centro de estágio organiza-se em função desses momentos. “Quando não estou a trabalhar fico no computador, vejo televisão e estou na internet, ligado à Coreia. Às vezes vou a Lisboa passear com outros jogadores. E à noite estudo e penso no que fiz no treino”, revela Hanoh. Na mesa do quarto tem dicionários para o ajudar a melhorar o português – que já é muito razoável. E quando não sabe pergunta aos colegas.
“Eles são muito bons, muito simpáticos para mim.” O convívio também serve para aperfeiçoar a língua, mas há um preço a pagar. “Às vezes eles vêm para aqui, quando temos jogo ou à quarta-feira, que há treino de manhã e à tarde. Então eles descansam aqui. Usam o meu computador e a casa de banho. Depois fica a cheirar mal. Sempre!”
A confissão vem acompanhada de um riso inocente. A cada pergunta que lhe é feita, Hanoh começa por responder quase sempre da mesma forma: “Eu?” – sim, tu. Talvez seja por não estar habituado a ser o centro das atenções, postura comum aos outros chineses e sul- -coreanos que vão passando pelo clube. Aqui recebem um tratamento especial, outro carinho.
José Cristo já não sabe ao certo quanto dinheiro investiu nos charters de jogadores que tem importado da Ásia. “Mas penso que foi um bom investimento. Tenho andado um bocadinho à frente dos outros.” Até de Futre, acrescentamos. “É uma coisa para continuar.”



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