Oferecer brindes, vender um espaço publicitário no próprio corpo e até leiloar-se. Vale tudo para conseguir um patrocínio que os leve aos jogos
O rosto da Virgem Maria numa sandes de queijo, pepinos mutantes, o segredo da invisibilidade. Uma rápida visita ao eBay, o maior site de leilões online, pode transformar-se numa experiência muito peculiar. A estranheza dos negócios não deixa indiferentes as almas mais incrédulas e, a poucos meses dos Jogos Olímpicos de Londres, nem os patrocinadores mais afoitos. Depois de um atleta britânico se ter leiloado no eBay para manter real o sonho olímpico, agora é vez de Marketa Slukova e Kristyna Kolocova, uma dupla checa de voleibol de praia, pedir ajuda na internet para pagar os treinos e as viagens.
Se os portões olímpicos se abrissem hoje, Marketa Slukova e Kristyna Kolocova ficariam na ombreira de um sonho de infância. As duas atletas de 23 anos são actualmente as melhores jogadoras da República Checa, o que lhes assegura o passaporte para Londres. No entanto, os resultados pouco expressivos – o melhor foi uma vitória, em 2010, contra as chinesas Chen Xue e Xi Zhang, terceiras no ranking mundial – não lhes têm valido fama suficiente para pagar a preparação olímpica. Determinadas a passar da porta, Maki e Kiki decidiram rentabilizar os próprios patrocínios.
Basta aceder à página oficial das jogadoras, decidir com quanto quer contribuir e esperar pelo retorno, que tanto pode ser uma T-shirt da Adidas como uma massagem tailandesa ou um dia no ginásio. Inspiradas pelo crowdfounding (qualquer coisa como financiamento colectivo), a dupla incentiva os adeptos a contribuírem com dinheiro em troca de brindes oferecidos por pequenas empresas que as patrocinam. Os mimos, esses dependem do investimento.
OBSTÁCULO Mais difícil que conseguir os mínimos olímpicos, para muitos atletas o maior obstáculo para chegar a Londres tem sido encontrar um patrocinador que lhes permita dedicarem-se a cem por cento aos treinos. Até mesmo para aqueles que competem em casa. Cerca de 50 mil bilhetes já foram vendidos para os jogos de voleibol de praia, mas a equipa feminina da Grã-Bretanha ainda não tem patrocinador. “Há um estigma por causa dos biquínis e a modalidade não é levada a sério”, desabafava há poucas semanas uma jogadora. Os atletas profissionais recebem uma bolsa que cobre as despesas com hotéis e deslocações para participar em torneios. O resto depende da boa vontade dos patrocinadores.
No caso de Nick Symmonds não são os calções curtos que vão fazer diferença aos olhos dos investidores. A publicidade na pista de atletismo tem dado que falar por causa das inúmeras restrições da IAAF (Associação Internacional de Federações de Atletismo, em português) – os atletas são, por exemplo, obrigados a usar fita adesiva para tapar os símbolos das empresas e os nomes na roupa e nos sapatos. Desesperado por um apoio financeiro, o norte-americano lembrou-se de leiloar um espaço publicitário na própria pele.
Symmonds, quatro vezes campeão nacional nos 800 metros, defende que as actuais regras de publicidade limitam o investimento das empresas e, consequentemente, a progressão da carreira dos atletas. Por isso decidiu recorrer ao eBay para leiloar o ombro esquerdo, onde se comprometeu tatuar o twitter do maior licitador. Durante a campanha olímpica, o norte-americano vai correr com o endereço da rede social de uma empresa de marketing, ainda que continue a não poder exibir a tatuagem em encontros internacionais da IAAF. “Acho que também vou chamar a atenção pelo facto de correr com uma faixa no braço. Depois terei de explicar que não posso mostrar o nome do meu patrocinador por causa de regras antiquadas.”
Ainda se recorda do britânico do primeiro parágrafo? Bem, depois de se leiloar (todo ele) no eBay, em Dezembro, James Ellington recebeu uma licitação máxima de cerca de 39 mil euros. A identidade do futuro patrocinador demorou a ser revelada, até que o atleta percebeu que tinha sido vítima de uma brincadeira de mau gosto. A história de Ellington aterrou na imprensa e sensibilizou o fundador de uma marca de produtos de barbear. “King of Shaves correu para resgatar uma esperança olímpica”, escreveu o site da empresa. As outras esperanças continuam à espera de ser resgatadas.



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