A Argentina conseguiu a vitória necessária por 6-0 no Mundial-78. Não foi fruto do acaso, mas sim de uma ditadura desesperada
Recordemo-nos daquele dia 21 de Junho, no ano de 1978, em que as circunstâncias do Mundial de Futebol opuseram a Argentina ao Peru. Ao contrário do que é habitual, o jogo entre o Brasil e a Polónia acontece antes do Argentina-Peru – mas isso é apenas uma das coisas estranhas que se passaram nesse dia. O Brasil venceu por 3-1 e assim a Argentina sabe que ganhar não basta: tem de vencer o Peru com quatro golos de diferença. E não é que isso acontece mesmo? 6-0 e o país organizador está na final, em vez do Brasil. O título de campeã mundial foi mesmo para o anfitrião, que venceu a Holanda por 3-1 na final.
Foi sorte? Foi coincidência? Havia quem dissesse que sim, mas já na altura se falava em corrupção. Umas 14 mil toneladas de trigo enviadas da Argentina para o Peru pareciam explicar o sucedido. Agora surgem novos dados e são bem mais graves. Não podemos esquecer o contexto de tudo isto. A Argentina vivia então numa ditadura militar, liderada pelo general Videla, e ansiava por limpar a sua imagem aos olhos do mundo. Vencer o Mundial seria a oportunidade perfeita. Este 6-0 não foi gratuito; em troca, a Argentina ia sujar as mãos pelo Peru.
O ex-senador peruano Genaro Izquieta veio agora declarar que foi um dos 13 prisioneiros de guerra enviados para a Argentina pelo Peru, em troca do resultado. A operação foi realizada antes, a 25 de Maio, quando o também ditador peruano Francisco Morales Bermúdez ordenou o envio dos 13 prisioneiros num avião militar para o Noroeste da Argentina, sem documentos, roupas ou dinheiro. As duas famílias denunciaram o caso e a insistência do governo francês fez com que os prisioneiros mais tarde fossem deixados em Paris. “Assim fomos salvos do que Morales Bermúdez e Videla tinham acordado, que era o lançamento das pessoas ao mar de um avião, para que não restassem provas”, adianta Izquieta. Ou seja, os prisioneiros seriam passageiros dos chamados “voos da morte”, populares na ditadura argentina. E toda esta manobra pertenceria ao chamado Plano Condor, um acordo de cooperação entre as várias ditaduras sul-americanas para exterminar opositores. Izquieta diz que a manobra era que a Argentina os aceitasse “como prisioneiros de guerra, com a condição de o Peru permitir o triunfo da Argentina no campeonato mundial de futebol”.
O juiz argentino Norberto Oyarbide já pediu a prisão de Morales Bermúdez. O ex-ditador, agora com 90 anos, já acusou Oyarbide de querer imitar Baltasar Garzón e deixou claro que só aceitará ser julgado pela justiça do seu próprio país. Acrescentou ainda que o seu governo apenas pretendia contribuir para a transição para a democracia e que este grupo de prisioneiros “de esquerda radical começou a criar situações que dificultavam esse processo”, tendo por isso sido deportados.
Certo é que para além do 6-0 a equipa do Peru recebeu a visita de Videla no balneário antes de o jogo começar. Acompanhado de Henry Kissinger, é claro.



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