Bola de Futebol
D.R.O que pode desejar alguém que tem tudo? Comprar um clube para acabar com ele. Clive Palmer protesta: “Esqueceram-se do contexto”
Dificilmente alguém o confundirá com um desportista. Ou até mesmo com um aspirante (culpe-se o físico desleixado e o abdómen proeminente). Ainda assim, em 2008, Clive Palmer tem um sonho: transformar o maior desporto do mundo no desporto dos australianos. Clive Palmer consegue sempre o que quer, mas não desta vez. Quatro anos depois do devaneio resta-lhe um clube prestes a implodir. No detonador, a mão de um dos homens mais ricos da Austrália – a do próprio Clive Palmer.
É na costa do sol, do surf e da areia branca que Clive Palmer sonha transformar a Austrália no próximo gigante do futebol, “o jogo bonito”, como lhe chama. Em 2008, gasta milhões para comprar o Gold Coast United, clube da A-League – a principal liga de futebol da Oceânia –, com a certeza de que está a comprar o futuro da modalidade no país. Os jogadores são tratados como estrelas de rock, os aviões privados e os helicópteros impressionam os mais conservadores, mas Clive pode pagar todos os excessos. Na verdade, as despesas com o clube são insignificantes para o magnata da indústria mineira.
Nos dois primeiros anos, o Gold Coast United termina a época em terceiro e quatro lugar. Clive está cada vez mais entusiasmado – em 2009, durante um jogo, sente o coração acelerar e é levado para o hospital – mas os adeptos estão cada vez menos convencidos. Os últimos resultados também não abonam a favor da empatia. Há duas semanas, frente ao Adelaide United, estiveram apenas 1723 pessoas a assistir ao encontro. O Gold Coast United é décimo e último na tabela da A-League.
O que pode desejar um homem que tem tudo? Depois de comprar um clube de futebol, acabar com ele. “A A-League é uma palhaçada”, conta Clive Palmer no domingo ao “Sunday Mail”. “Eu nem gosto de futebol. Acho que é um desporto enervante e muito menos interessante que o râguebi.” As declarações do milionário caem como uma bomba e fazem estremecer um país pouco entusiasmado com o soccer. Poucas horas antes, o Gold Coast despedia o treinador Miron Bleiberg, que paga um preço elevado por contestar a decisão de Clive de eleger um miúdo de 17 anos para capitão da equipa.
A Federação Australiana de Futebol (FFA) condena severamente as declarações do magnata, mas decide não aplicar uma sanção. “Os adeptos australianos vão reprovar a falta de respeito inerente aos comentários feitos por Clive Palmer”, garante Ben Buckley, responsável da FFA. “Demos as boas-vindas a Clive e ficámos gratos pelo investimento que fez no futebol. Mas, independentemente de estar frustrado, estes comentários são inaceitáveis.”
Revoltado com o impacto das declarações do passado domingo, Clive agarra--se com unhas e dentes à radio, à televisão e ao Twitter, na tentativa desesperada de limpar a imagem e repor o contexto, que, garante, foi esquecido pelo “Sunday Mail”. “Acho que [o futebol] é um grande jogo. Só não estou satisfeito com o facto de os cinco principais responsáveis da FFA receberem quantias extra, quando nós tivemos de pedir mais dinheiro ao governo para apoiar a liga.”
Para serenar os ânimos, assegura que o futuro do clube só depende da A-League. “Nunca vou vender o clube. Isso não está em causa. Só queremos uma boa gestão e justiça para o futebol na Austrália e para os adeptos australianos.”



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