Carlos Xavier e Oceano
Rodrigo CabritaJogaram juntos pela primeira vez na Real Sociedad, há 20 anos. Agora recordam três épocas de vida em San Sebastián
Na televisão passa a repetição do dérbi de Manchester. Estamos no restaurante de Carlos e Pedro Xavier – o Taberna XXL, em Cascais. Oceano aparece, sentamo-nos à mesa. O gravador está ligado, mas a entrevista tarda a começar. A dupla que viajou no mesmo avião para a Real Sociedad em 1991 não tira os olhos do ecrã. “Somos gémeos”, garante Oceano. Conheceram-se no Sporting, aventuraram-se no País Basco – e juntos voltariam, três anos depois, ao clube do coração. Em San Sebastián defrontaram Maradona e Romário, viram a influência da ETA e apaixonaram-se pela gastronomia basca. Só não aprenderam a falar euskera.
A experiência na Real Sociedad não começou lá muito bem.
Oceano: Tivemos um início de campeonato atribulado, não ganhávamos a ninguém. Tivemos o azar de o Xavier se lesionar no jogo de apresentação, no torneio em que participou o Sporting. O Xavier coordenava toda a nossa manobra ofensiva e sentimos muitas dificuldades sem ele. Nos primeiros quatro, cinco jogos não conseguimos ganhar a ninguém.
Carlos Xavier: À sétima jornada, quando começo a jogar, tínhamos um ponto [eram três, falta uma vitória sobre o Valência]. O Toshack quis misturar alguma veterania, sobretudo na defesa, com os bascos, com juventude lá mais na frente, comigo e com o Oceano.
O: Pior que aquele início de época era impossível, mas as pessoas encontravam--nos na rua e diziam: “Não há problema, já vamos começar a ganhar. Falta-nos o Xavier, que vai trazer ainda mais qualidade, e vamos ser imbatíveis.”
O Carlos Xavier estreia-se com o Tenerife, faz hoje 20 anos. É a primeira vez que jogam juntos na Real.
CX: Sim, empatámos a zero. O Tenerife tinha uma grande equipa, onde jogavam o Redondo e o Pizzi. Fomos lá empatar a zero. O Redondo andou a picar o Oceano, mas quase nem tocou na bola com medo dele!
O: Foi o início da recuperação. Do último lugar fomos para terceiro.
CX: E no fim ficámos em quinto, o que deu acesso à UEFA. Foi impensável, mas eles acreditavam. Ali, independentemente dos resultados, ficam satisfeitos se virem os jogadores trabalhar. Aqui bem podem correr que se não ganharem… Lá apreciam o esforço do jogador pela equipa. Eram inexcedíveis.
Nessa época o Carlos Xavier faz um golo ao Barcelona e outro ao Real.
O: Não me digas que esse do Real é aquele golo em que o Toshack...
CX: É esse mesmo!
O: Eeeeh! O Toshack até entrou em campo para abraçar o Xavier! Foi um golo espectacular...
CX: Foi o golo do empate, estávamos a perder 2-1. Houve uma falta. O Oceano dá para trás. Eu, de fora da área, domino com a coxa e meto a bola no ângulo. Era o Buyo, o guarda-redes. Foi a primeira vez que o Toshack entrou em campo para festejar um golo! Antes, com o Barcelona, ganhámos 2-1 e também fiz golo. Quer dizer, o Zubizarreta ajudou, deu um franguinho.
Como era a rivalidade com o Athletic Bilbao, o dérbi basco?
O: Terrível! É um Sporting-Benfica.
CX: Mas diferente. Era engraçado, porque olhávamos para a bancada e havia um adepto de vermelho e um de azul, um vermelho e um azul, todos misturados, cada um a puxar pelo seu, sem aquelas guerras de claques.
O: Era um ambiente fabuloso. E jogar em San Mamés... ahhh.
E também jogam com o Futre.
CX: Só o apanhamos no primeiro ano. A ele e ao Schuster!
O: Mas também já o tínhamos defrontado aqui, quando ele estava no FC Porto. Já o conhecíamos. O Futre era sempre aquela máquina.
CX: Em casa ganham-nos 1-0 e em Madrid foi 4-1, acho eu [foi 5-1]. E ele ainda faz uma ou duas jogadas de golo.
Em 1992/93, o Oceano faz um bis no último jogo em Atocha, o estádio antigo.
O: Esse jogo tem uma história curiosa. Foi com o Tenerife, 3-1. Em termos de classificação já não alterava nada. E nós tínhamos amizades muito grandes com alguns jogadores da Real, nomeadamente com o Górriz, um central que estava lá desde que nasceu. O Toshack ia deixá-lo no banco e nós até dissemos: “Se há uma pessoa que tem de jogar é o Górriz!” Tivemos uma discussão terrível. Na altura em que o Toshack estava a dar a constituição da equipa olhei para o Górriz e era a pessoa mais triste do mundo. A minha forma de reagir foi dizer-lhe: “Não te preocupes, também estou triste por ti, mas olha… vou fazer um golo e vou dedicar-to.” Ele não acreditava. Entretanto, quando faço o golo, saio direito ao banco e o Toshack levanta--se para me abraçar. Acho que foi a primeira vez que tratei mal um treinador. Afastei o Toshack, fui direito ao Górriz e dei-lhe um abraço. Depois até lhe contei ao ouvido: “Estou desgraçado, há mais uma pessoa a quem prometi um golo.” E ele respondeu: “Mas tu mereces, vais ver que fazes.” Olha, o golo é numa tabela contigo, Xavier. Foi considerado o golo da época! Eles estão a sair para o fora-de-jogo e eu de fora da área corto a bola para o lado, de primeira. A bola vai no ar e eu já estou a festejar com a bancada. O fotógrafo conseguiu apanhar esse momento feliz.
CX: E foste duas vezes abraçar o Górriz!
Que ainda entra, aos 71 minutos, mas que depois não joga na última jornada [em Camp Nou]. Seria o jogo n.o 600 na Real Sociedad e decide o título a favor do Barcelona.
O: Foi das coisas mais tristes que senti. Era o último jogo da carreira do Górriz.
CX: E o Toshack não soube dar-lhe essa alegria.
O: Não pensou muito nisso. Ou se calhar pensava que ele ainda continuava mais uma época.
CX: O Barça é campeão, ganha-nos 1-0, à rasca [golo de Stoichkov]. E o Real perde em Tenerife, 2-0 [Oscar Dertycia e Chano, que passou pelo Benfica, de 1999 a 2001]. Bastava-lhes um empate.
Era difícil lidar com Toshack?
O: Ele já nos tinha treinado no Sporting e foi por ele que fomos para a Real. Tínhamos uma relação muito próxima. E havia muitos problemas por causa disso.
CX: Era amor-ódio.
O: O Toshack tem uma frase muito boa: “Total liberdade, mas total responsabilidade.” Quando queria alguma coisa cobrava-nos, tínhamos de estar 200% disponíveis. Dizia: “Se vocês estão cansados, eu corto um bocadinho do treino. Vocês querem uma folga, eu dou-vos. Porque é que na altura de correr sinto que esta equipa não trabalhou em pleno?”
E que língua se falava no balneário?
O: Entre eles falavam basco. Mas por respeito a nós, quando estávamos perto, era em castelhano. Entre eles era sempre em euskera. Nós não percebíamos nada, saímos de lá a falar zero da língua.
CX: Mesmo a jogar, a dizer “cuidado”, “olha a bola”, falavam em basco. Foi a única coisa que apanhámos. Uma vez íamos de viagem e puseram lá uma daquelas músicas deles, tipicamente basca, que não se ouve nem a dormir. Eu comecei a brincar um bocadinho. O capitão levantou-se logo, olhou para trás e fez um sinal qualquer, como quem diz “estás a gozar com a nossa cultura”.
O: A língua euskera é difícil porque não há conotação com outra. Éterrível. Curiosamente, os meus filhos, como já tinham amigos na escola, sabiam muitas coisas.
CX: O meu filho foi para lá com três meses. Ao fim de um ano e meio já ia para a escola: de manhã falava castelhano, à tarde euskera. Quando chegava a casa estava todo baralhado.
A relação com os bascos era boa ou eles eram avessos aos estrangeiros?
CX: Deixámos lá muitos amigos. Vamos lá e temos casa em qualquer lado: o Bittor Alkiza, o Iñaki Álaba, o Górriz – uma pessoa fantástica.
O: É difícil fazer amigos bascos, porque são um pouco fechados. Não são tão dados como em Portugal. Os bascos precisam de conhecer verdadeiramente o carácter das pessoas. A partir daí temos amigos para o resto da vida.
CX: E San Sebastián é uma cidade fantástica. Tinha coisas muito típicas:restaurantes que eram sociedades, por exemplo, onde só entram homens. As mulheres só iam lá uma vez por semana. A gente ia com um grupo de amigos à sociedade. Levava a comida e cozinhava lá. Acabava de comer, lavava a louça e jogava às cartas. Antes de virmos embora fiz lá um almoço para a malta toda, jornalistas e tudo. Foi um caril de frango. Depois eles tinham aqueles barracões enormes, onde se comia o chuletón [costeletão] e a tortilha de bacalhau. Eish, era uma coisa…
Já fez alguma coisa dessas aqui no restaurante?
CX: Não, ainda não.
O: Olha, podias começar pela costeleta de boi!
CX: Aqui faço o bacalhau à pil-pil, com molho de alho e azeite e aqueles pimentos. Eles têm produtos muito bons!
O: Em termos gastronómicos é a melhor coisa que há. Porta sim porta sim tens um bom restaurante. Acho que nunca comi mal num restaurante de lá.
Era difícil evitar exageros?
O: Pode fazer-se uma alimentação saudável. No segundo e no terceiro ano já passei muito tempo sozinho, por isso comia quase sempre fora. É preciso ter cuidado. Comes uma costeleta de boi, mas com salada. Só é preciso mais atenção às tapas.
CX: Mas a comida é saudável. E depois também se gastava isso no treino.
E a sesta?
CX: Começámos a aprender...
O: No início fiquei no quarto com o capitão. Chegamos lá, ele fecha tudo e põe-se a dormir. Pensei: “E agora, o que é que eu faço?”
CX: Depois mudou, passámos a ficar os dois no mesmo quarto.
Quem foram os melhores jogadores que defrontaram?
CX: Para mim foi o Maradona. Foi quem mais admirei.
O: O Romário, por exemplo, com aquela altura, fazia coisas, pá…
CX: A estreia dele no Barça [a 4 de Setembro de 1993, 3-0 para os catalães] acontece num jogo connosco.
O: Ele disse que ia fazer 30 golos no campeonato e marcou-nos logo três.
CX: Três chapéus! Ah, foram uns grandes três anos. Se um dia tivesse de trabalhar no futebol profissional, mais depressa ia para a Real Sociedad do que para o Sporting. Garantidamente. Lá as pessoas não esquecem. No Facebook ainda recebo mensagens de bascos!
E voltam para uma homenagem, em 1996, num Real Sociedad-Sporting.
CX: Nessa altura já não fazia parte do plantel do Sporting e deixaram-me jogar dez minutos. Gostava de ter acabado de outra forma. Se não fosse pelo Sporting tinha ficado na Real Sociedad. E se soubesse que ia acabar assim no Sporting tinha ficado em Espanha, de certeza absoluta. Não tinha saído de lá em 1994.
O: Eu tive convites de outras equipas em Espanha, mas também acabei por decidir regressar.
O Oceano volta mais tecnicista e o Carlos também vem mais maduro.
CX: Sem dúvida. Em Espanha senti-me muito mais jogador que no Sporting. Na Real Sociedad éramos tratados como ídolos. Eu jogava livre, na posição que queria. Senti-me jogador. Temos de ter outra bagagem, outro andamento.
O: Em 1984, quando cheguei ao Sporting, vinha de jogar no Almada, que era pelado, no Odivelas, que também era pelado, e só no Nacional da Madeira, onde estive um ano antes do Sporting, é que comecei a jogar em relvados. Era diferente. No Sporting tive a felicidade de jogar sempre, ou quase sempre, mas sentia que não viam essa evolução. Foi preciso estar fora e as pessoas passarem três anos sem me ver. Quando cheguei esperavam o Oceano de 1984 e viram um Oceano diferente. É como as crianças quando estão a crescer.
CX: A gente lá jogava com equipas de topo, grandes jogadores. Tínhamos de estar ao nível deles a todo o custo.
E continuaram a ir lá com frequência?
O: No meu último ano, quando estava no Toulouse, ia semana sim semana não. O Sá Pinto estava na Real Sociedad, por isso umas vezes ia lá eu outras ia ele a França.
CX: E o que a Real Sociedad fez com o Sá Pinto poucos clubes fariam. Assinou contrato com ele sabendo que não podia jogar durante um ano [pela agressão a Artur Jorge].
O País Basco tem vivido estes anos todos sob a influência e a reputação da ETA. Chegaram a ter algum problema?
O: Nada de mal. A mim aconteceu-me uma coisa engraçada. Tinha um carro com matrícula de San Sebastián – nessa altura as matrículas ainda diziam a cidade. Uma vez cheguei a Madrid e o gerente do hotel disse: “O teu carro fica na garagem a partir de hoje e só o tiras de lá quando for para saíres de Madrid.” Estava sujeito a não ter carro quando chegasse ao pé dele. De resto, sabíamos os perigos de estar numa zona da ETA. Mas nunca passei por nenhuma situação de desconforto, pelo contrário. A cultura basca é diferente. O braço armado da ETA é uma coisa que não tem nada a ver com os bascos em si, porque os bascos até são pessoas de paz.
CX: E é mais uma guerra entre a ETA e a polícia.
E nas deslocações em Espanha?
O: Houve muitos atentados que fizeram muitas vítimas enquanto nós estávamos lá. As pessoas relacionavam aquilo com o País Basco, com a Real Sociedad e misturavam as coisas.
CX: Mas a própria população de San Sebastián fazia manifestações pacíficas contra a ETA.
O: Não exactamente contra, porque o princípio da autonomia é legítimo. Mas a forma como eles queriam chegar a isso é que era complicada.
Entretanto a ETA anunciou o fim da luta armada. Mas naquela altura sentiam a presença da organização na região, no dia-a-dia?
O: Não, de forma nenhuma. Notávamos era que havia um grande respeito pela Guardia Civil. Posso dar-te um exemplo. Ainda nos primeiros tempos, saí do carro e fui direito a um guarda para pedir uma informação. De repente olho, estão umas seis ou sete armas apontadas a mim e eles a dizer “para o chão, para o chão!” Às tantas tive de dizer: “Sou o Oceano, jogador da Real Sociedad!” Estava aflito. Depois eles lá me explicaram que eram o alvo prioritário da ETA e tinham de ter cuidado com estas aproximações.
Notavam uma grande mistura entre política e futebol?
O: Nós fomos a segunda leva de estrangeiros. A primeira foi dos ingleses: o [Dalian] Atkinson, o [John] Aldrigde e o Kevin Richardson. Tive alguns problemas no início, porque o Atkinson era negro e em San Sebastián não havia nem jogadores nem muita gente negra. Só que o Atkinson passava a noite onde não devia passar...
CX: Esse só fazia borrada. Ainda por cima foi para o apartamento do Oceano.
O: Era complicado. Tive algumas surpresas, umas agradáveis, outras nem por isso. As pessoas começaram a pensar que ia ter o mesmo comportamento que ele, que ia viver na noite. Mas também foi só o primeiro mês, viram logo que era diferente. Mas ele era um jogador fabuloso. Quando queria jogar jogava mesmo.
CX: Olha, faz lembrar um bocadinho este [aponta para o ecrã], o Balotelli.



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