Ele é um antigo talento do basquetebol, agora desempregado. Iverson tem a proposta que lhe pode salvar a vida (e a carteira): jogar futebol
LeBron James, Tim Duncan e Allen Iverson. O que têm estes jogadores da NBA em comum? É certo que receberam o prémio de MVP (Most Valuable Player), mas não é a única semelhança. Os três deram nas vistas noutra modalidade antes de descobrirem o talento para o basquetebol. Agora Allen Iverson pode juntar-se a outra categoria impressionante. É a categoria dos MVP que se destacaram noutro desporto depois de terem brilhado no basquetebol, onde até agora apenas figuram Wilt Chamberlain e Michael Jordan. O primeiro aplicou-se no voleibol depois de se retirar da NBA e o jogador dos Chicago Bulls já era uma estrela quando, em 1993, decidiu dedicar-se ao basebol, numa equipa satélite dos Chicago White Sox. Não foi mau, mas em 1995 surgiu a conferência de imprensa onde disse apenas “I’m back”. E eis que Jordan voltou a brilhar na NBA, com mais três títulos conquistados nos Bulls.
Allen Iverson pode agora sonhar imitar Michael Jordan, a avaliar pela nova proposta que recebeu dos Rochester Lancers. Não é basebol; é indoor soccer, uma variante do futebol europeu mais parecida com o futsal. “O Allen Iverson é um dos melhores atletas do nosso tempo”, declarou o presidente dos Lancers. “Com o seu porte atlético e fome competitiva, acho que se pode encaixar bem na nossa equipa.” As condições são mais que apelativas: 20 mil dólares por jogo, 5 mil dólares de bónus por golo e a equipa ainda se encarrega de alojar família e amigos do jogador.
A proposta é tentadora, ainda para mais tendo em conta a situação de Iverson, falido, segundo os rumores, e com uma dívida de quase 900 mil dólares para pagar. Pode ser a saída para o atleta, que ultimamente até considerava jogar na D-League (a liga secundária da NBA) ou ir jogar para a Venezuela, de onde tinha recebido uma proposta.
Surge agora uma outra hipótese, a de simplesmente optar por outro desporto. Mas Allen Iverson terá o que é preciso para poder jogar futebol? As ligações do basquetebolista ao desporto parecem poucas. “Nunca joguei futebol na minha vida. No sítio de onde venho não se joga futebol!”, disse Iverson em 2006, depois de ter conhecido Thierry Henry. Mas ao longo da sua carreira muitos foram os que sugeriram que Allen Iverson daria um grande jogador de futebol. A sua rapidez e os seus crossovers (uma das fintas basquetebolísticas) deixavam toda a gente de cara à banda e valeram a Iverson o título de um dos melhores bases que a NBA já viu. Se juntarmos o seu equilíbrio, coordenação, resistência e a sua atitude agressiva, vemos o potencial para o futebol. Mas será que isso chega?
LeBron James jogou futebol americano, Tim Duncan foi nadador. Chamberlain e Jordan já sabemos. Aquilo que todos estes jogadores têm em comum e Iverson não tem é que participaram em modalidades populares entre os norte- -americanos e onde estavam à vontade. Não é por acaso que o futebol tem tido dificuldade em implantar-se nas terras do Tio Sam. Muitos realçam as regras “demasiado simples”, os poucos intervalos, as “fitas” dos jogadores depois de sofrerem uma falta ou o apreço dos americanos pelos desportos que eles próprios inventaram, mas a principal razão continua a ser as mãos não estarem envolvidas. Se pensarmos nos desportos americanos, depressa vemos que as mãos ocupam grande destaque e os pés geralmente cumprem apenas a função de correr. Um escritor americano recorda o seu professor de Educação Física, que em plena Guerra Fria lhe disse: “Os desportos onde não se usam as mãos são desportos jogados pelos russos, pelos polacos, pelos alemães e por outros comunas.” Assim se vê, não a força do PC, mas a dos desportos americanos tradicionais, valorizados por utilizarem todo o corpo e que abafam o futebol nos liceus do país, deixando os jovens desajeitados de pés.
A proposta dos Lancers pode ser só uma jogada para atrair atenção para o clube. Mas se Allen Iverson aceitar, vai ser uma verdadeira estreia para os norte-americanos.



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