A Académica empatou com a Oliveirense a duas bolas mas assegurou um lugar na final da Taça de Portugal. Há 43 anos que a briosa não carimbava presença no final...
Daqui a 100 dias, as capas negras pisam o Jamor pela primeira vez desde 1969, ano do maior comício contra o regime
A Académica empatou com a Oliveirense a duas bolas mas assegurou um lugar na final da Taça de Portugal. Há 43 anos que a briosa não carimbava presença no final...
Número 1, Viegas. 2, Belo. 3, Marques. 4, Vieira Nunes. 5, Rui Rodrigues. 6, Gervásio. 7, Mário Campos. 8, Vítor Campos. 9, Manuel António. 10, Nene. 11, Peres. Eis o onze da Académica na sua última final da Taça de Portugal, em 1969.
E num instante (qualquer coisa como 43 anos) tudo muda. Menos o estádio, esse continua a ser o Jamor. De resto... O adversário não é o Benfica, já ninguém joga de 1 a 11 e os tempos de contestação política são outros. Estamos a 22 de Junho de 1969. Já se adivinha uma final escaldante, mas ninguém imagina um cenário daqueles. É o maior comício contra o regime. No topo sul do Jamor, os cartazes irreverentes não são um pedido de ajuda, mas sim de mudança para um melhor ensino, menos polícias, ensino para todos e universidade livre. A Direcção-Geral da Associação Académica decide aproveitar a final para dar visibilidade às suas reivindicações. E protestar contra a repressão de que os estudantes são alvo, depois de, a 17 de Abril, terem obrigado Américo Tomás, Presidente da República, a abandonar à pressa a Universidade de Coimbra, onde fora inaugurar o departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia.
No interior do edifício, Alberto Martins, presidente da Académica, pede a palavra a Américo Tomás. “Sua Ex.a, Senhor Presidente da República, dá-me licença que use da palavra nesta cerimónia em nome dos estudantes da Universidade de Coimbra?” A palavra é-lhe negada e a cerimónia termina abruptamente. Nessa mesma noite, Alberto Martins é detido à porta da Associação Académica de Coimbra e centenas de estudantes são alvo de uma carga policial à frente da PIDE, para onde se haviam mobilizado em solidariedade com Alberto Martins. A contestação sobe de tom nos dias seguintes.
Verão Quente A 1 de Junho, por exemplo, a Académica recebe o Vitória de Guimarães para a segunda mão dos quartos-de-final da Taça de Portugal. Os jogadores da Briosa entram em campo a passo e guardam meio minuto de silêncio antes de começar o jogo, ganho sem apelo nem agravo por 5-0. Na semana seguinte, dia 8, já para as meias-finais, a Académica apresenta-se em Alvalade equipada de branco e com uma braçadeira preta. “Questão de temperatura. Com o calor que se tem feito sentir, o branco é melhor. Ninguém vai para a praia de preto, não é?”, justifica Francisco Andrade, treinador dos estudantes, vitorioso por 2-1, com golos de Peres (20’) e Nene (86’), intercalados pelo de José Morais (74’).
Na segunda mão, em Coimbra, dia 15, volta a jogar de preto mas nasce a técnica do adesivo a cruzar o emblema da Associação Académica. Um golo de Manuel António sentencia o Sporting (1-0) e alimenta o sonho da Académica. O protesto é evidente e disso dá conta José Hermano Saraiva, ministro da Educação, em carta a Marcelo Caetano, poucos dias antes da final com o Benfica. “As autoridades desportivas admitem que a equipa da AAC possa ser forçada a exibir algum sinal de luto ou, num caso extremo, a não alinhar para o jogo. Parece- -me que, na primeira hipótese, é mais sensato não reprimir, porque qualquer intervenção se repercutiria em todo o público. Para o caso, que me parece pouco provável, de uma recusa, teremos de reserva uma outra equipa – o Sporting – para que os espectadores não tenham excessivas razões de protesto.”
Boicote presidencial inédito A Académica fica-se pelo protesto, apoiado por milhares de estudantes de todo o país. Fala-se em 35 mil. À cautela, nem o Presidente da República nem o ministro da Educação, contra tudo o que é habitual, se deslocam ao Jamor. Nem o jogo é transmitido pela RTP.
Por destino, a Académica nunca mais chega a uma final da Taça de Portugal. Até... daqui a 100 dias. No dia 20 de Maio de 2012, os estudantes voltam ao Jamor pela quarta vez. Até agora só derrotas: 5-1 com Benfica em 1951; 3-2 vs. Vitória de Setúbal em 1967, após dois prolongamentos; 2-1 com Benfica em 1969, após prolongamento. A única alegria é em 1939, na primeira edição da Taça (4-3 ao Benfica), nas Salésias. Nesse 25 de Junho, a Académica levanta a Taça. A original. Que continua no museu do clube.
Livro “Académica, História do Futebol”, João Santana e João Mesquita, Almedina, 60€


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