Na sede de Carmelinda Pereira. "Só nos procuram em altura de eleições"
Publicado em 08 de Junho de 2009
Em dia de eleições, a primeira mulher líder de um partido não se preocupa com os resultados
Carmelinda Pereira é uma espécie de ouriço-cacheiro. Desaparece durante uns tempos e aparece, finalmente, com o emblema de um punho socialista, quando o sino de eleições toca à porta. É uma hibernação longa. E que ela contesta: "Somos militantes a tempo inteiro mas só nos procuram em altura das eleições?"
São 14h15 e Carmelinda pede um café na esplanada do costume de um jardim de Algés. Veste camisola cor-de-rosa, saia de ganga pelos joelhos, ténis prateados. O cabelos é louro e cinza, com as pontas onduladas, os óculos rectangulares. Em 45 minutos, ninguém a reconhece. Uma adolescente interpela-a para perguntar se não quer comprar uma rifa para ajudar os escuteiros.
"Quem é aquela senhora ali fora que estão a fotografar?", pergunta um homem de bigode, no interior do café. "É a professora Carmelinda Pereira; está a concorrer às europeias." Outro homem dá--lhe uma palmada desastrada no ombro: "Então não sabes? É aquela, do partido esquisito, do 'pus', não sei como se escreve - é com 'z', ou 's'." Nem com 'z', nem com 's'. É POUS - Partido Operário de Unidade Socialista, fundado em 1979.
Carmelinda vende as ideias trotskistas do seu partido como uma boa política. Mas não é a política típica. É a anónima. Quando vai votar à Escola Secundária de Miraflores, às 15h, ninguém a puxa pelo braço, nem pede beijinhos, nem se vê forçado a dizer: "Acredito no seu projecto" ou "Votei em si." Engana-se na sala de voto, vota na sala sete com o número 12.828 e sai sem dar nas vistas.
É a vantagem de pertencer a um pequeno partido, que não tem a imagem espalhada pelos outdoors. O cartaz existe, mas não houve orçamento para o espalhar. "Ainda outro dia recebi 100 euros de uma militante de 85 anos, que recebe de reforma pouco mais de 200. Telefonou-me a dizer: 'Tenho muito orgulho no nosso partido!'" Se houvesse outdoors, seria fácil lembrar a mulher que aparece num fundo amarelo a fazer um manguito e a reivindicar: "União Europeia. TOMA! Proibição dos despedimentos."
Antes de entrar em casa, salienta: "É uma casa de militantes, não de gente rica." É uma casa de 1976, com o rio e o mar a perder de vista, inundada de luz. O marido, Joaquim, que a trata por Quina, é militante do POUS. A filha também. O filho é que não. Naquele 7º andar respira-se POUS. "O Capital" de Karl Marx na estante do hall, por trás das vitrinas do móvel da sala, junto aos livros de Lenine, ao lado de mil berloques. Por cima da toalha de renda, ao lado da fruteira de inox com fruta de plástico, "O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo", de V. I. Zénin, com apontamentos a lápis. Recebe telefonemas da filha e de militantes: "Só tenho um saca-rolhas", responde a um. Tem os sofás forrados e as mesas da sala arranhadas pelas gatas Garfield e Tigra.
A sede do POUS é uma cave esconsa, perto da Praça da Alegria. A cor do partido é o vermelho, mas as mesas estão decoradas a azul e amarelo. Um militante não consegue sintonizar bem um único canal de televisão. São 19h15 e ainda não há projecções. Anda com a antena de um lado para o outro. Quando Carmelinda chega à sede, às 19h30, espalha beijos e sorrisos. Há sangria e pataniscas. O ambiente confunde-se com o de uma associação desportiva ou de um baile de bombeiros. Não há aplausos nem assobios. Só um desiludido: "O MEP ficou à frente do POUS. É a nova Madre Teresa de Calcutá." Nas últimas europeias conseguiram perto de cinco mil votos. Nestas, ainda não sabem. Às 21h, na sede, não há mais de 20 pessoas. Carmelinda não está preocupada: "Todos apelaram ao voto, menos o POUS. Somos um patinho feio, mas queremos ser um cisne."
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