Primeiro Plano

Como foi possível?

por Paulo Tunhas, Publicado em 21 de Julho de 2010   
O estilo de Sócrates anunciava, há muito, o que viria a seguir. Pagamos e pagaremos por uma confiança indevida
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Como se pode ver no dia-a-dia, o governo nem sequer é já "um cadáver adiado que procria". De facto, para falar cruamente, "jaz morto e apodrece". Mas, por um conjunto de razões sortidas, vamos ter de estar fechados com o cadáver no mesmo quarto por um tempo indeterminado. O que, se não faz certamente bem à saúde - até porque a cabeça, como num filme de terror, continua, arrepiante, a falar -, nos dá pelo menos a oportunidade de, nos intervalos da aflição, reflectir um pouco sobre a questão essencial: como foi possível termos chegado a isto?

Sobre a responsabilidade do primeiro-ministro e das figuras de mérito diverso que o acompanham no governo há já pouco a dizer. Sobre as trapalhadas em que o PSD andou metido estes anos todos, com algumas fases de lucidez desaproveitada, também toda a gente opinou, ocasionalmente com acerto. Mas a questão que interessa, no fundo, é outra: como é que os portugueses aguentaram, finalmente com poucos protestos, este primeiro-ministro, e, sobretudo, como é que o reelegeram ainda em Setembro passado? Porque as falhas do PSD, ou os velhos reflexos suscitados pela oposição esquerda/direita, não explicam tudo. José Sócrates foi reeleito numa altura em que a catástrofe económica estava já à vista e em que tudo na natureza do seu pensamento político transpirava a mais desesperante vacuidade, uma vacuidade a que uma longa sucessão de casos (da licenciatura ao episódio TVI) conferia um aspecto ainda mais inquietante.

A resposta evidente, ou uma parte dela, é que as pessoas acreditavam nele. E acreditavam porque a maneira de falar dele as convencia. Ora, deixem-me que diga, este é um dos mais tristes sinais da pátria que se possa imaginar. Porque se havia coisa patente no discurso de Sócrates era a pura e simples artificialidade. Dir-se-á que é assim, por necessidade de ofício, com todos os políticos. Sim, mas há graus. E o grau dele alcançava os máximos humanos no capítulo, superando-os até aqui e ali. Que as pessoas tenham depositado confiança numa linguagem toda feita de indiferença à aspereza do real e num estilo cuja marca principal era a mais poluente subjectivização egocêntrica de tudo, diz muito mal sobre o estado das almas por cá. Esta nossa responsabilidade ficará talvez como o mais compreensivo que, dentro da razoabilidade, se poderá dizer de José Sócrates.

Há algum tempo, um vago conhecido, vagamente televisivo, contava-me, entusiasmado, que no trato privado do primeiro-ministro se percebia o que ele era: alguém idêntico a todos nós. Eu diria de uma forma diferente: devia perceber-se algo que em nós não é bom, não é recomendável, e nos levou aonde levou. A um lugar cada vez mais insignificante e desesperançado.

Professor do Departamento de Filosofia da Universidade do Porto
Escreve à quarta-feira


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