Afeganistão: Uma avalanche de droga para combater o narcotráfico
Publicado em 27 de Maio de 2009
A ONU está a permitir o cultivo de ópio no Afeganistão
Centenas de soldados da Nato perderam a vida nos combates dos campos afegãos de papoilas desde que os Estados Unidos lideraram a intervenção militar, em 2001, contra o regime talibã. Uma das prioridades da força internacional de assistência e segurança da Nato no país tem sido combater a produção de papoilas, uma fonte de rendimentos dos agricultores afegãos mas também um método comum de financiamento das redes talibãs e terroristas da Al-Qaeda.
Ao fim de oito anos, a estratégia provou ser um autêntico fracasso - a exigir urgente revisão. Contrariando a sabedoria convencional, António Maria Costa, chefe do gabinete das Nações Unidas para o Controlo da Droga e Prevenção do Crime (UNDOC), propõe agora uma medida radical: inundar o mercado interno afegão de droga para que os preços desçam abruptamente e os agricultores desistam de cultivar as papoilas.
A lógica, disse António Maria da Costa ao "The Guardian" é "criar uma avalanche de drogas no Afeganistão". "Haverá tanto ópio no país que será impossível colocá-lo nos mercados internacionais, e preço terá de cair", afirma o responsável das Nações Unidas. É aí que entra a segunda parte do plano: "fechar as fronteiras do Afeganistão". A ideia parece consistente, mas se fosse possível fechar as fronteiras, sobretudo com o Paquistão, já alguém o teria feito.
O Afeganistão é uma enorme extensão de áreas desertas, praticamente desabitadas, onde toda a gente cruza as fronteiras do país com extrema facilidade.
A situação contrasta com o vizinho Irão, onde foram construídos muros e valas para controlar os problemas provocados pelo milhão de viciados em heroína que o país tem.
Numa visita ao Afeganistão durante o mês passado, António Maria Costa ouviu queixas de militares que reclamavam melhores armas para se defenderem dos contrabandistas que diariamente cruzam as fronteiras do país.
O esforço das forças internacionais foi recentemente prejudicado por um decreto do presidente Hamid Karzai. O líder decidiu encerrar os mercados de fronteira, que representavam uma importante fonte de receitas no deserto económico afegão. O governador da província de Herat, Ahmad Yusef Nuristani, já disse que, agora, os jovens nas áreas de fronteira não têm outra opção a não ser dedicar-se ao narcotráfico: "Os mercados eram zonas comerciais que mantinham as pessoas ocupadas com negócios legítimos e, por isso, elas não se sentiam tentadas pelos traficantes de droga", esclareceu Nuristani.
A nova estratégia da ONU sucede a um esforço tremendo de combate à produção de papoila no Sul do Afeganistão: apenas 3.5% dos 157 mil hectares de campos de papoilas foram destruídos. António Maria Costa diz mesmo que "a erradicação manual [da papoila] é incompetente e ineficaz."
Ao permitir o fluxo de drogas para fora do país, porém, o Afeganistão está a destruir o valor da sua principal exportação. Segundo as estimativas, a produção actual de ópio ultrapassa duas vezes a procura. E os factos são inequívocos: um quilo custa agora cinco vezes menos do que em 2001. A descida dos preços do ópio, combinada com a subida dos preços do trigo durante o ano passado, alimentaram o sonho dos homens das Nações Unidas. Mas, entretanto, o preço do trigo caiu 30%.
O chefe do UNODC no país, Jean-Luc Lemahieu, advertiu que, muito em breve, o país pode ser invadido por traficantes chineses que procuram abastecer o crescente exército de toxicodependentes da China. "Acho que temos uma janela de dois anos antes de os chineses entrarem no mercado afegão. As redes ainda não foram estabelecidas", afirmou Jean-Luc Lemahieu.
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