Fascismo

Rever a história é "saudosismo fascista"? Projecto escolar abre polémica em Aveiro

por Ana Sá Lopes, Publicado em 21 de Maio de 2010   
Alunos vestidos à mocidade portuguesa levou à revolta dos pais na escola básica de Barrocas
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As comemorações do centenário da República em Aveiro estão a criar uma estranhíssima polémica entre pais e professores - e tão estranha que até acabou por chegar ao Parlamento. Isto porque uma representação do Estado Novo, feita por alunos da escola do ensino básico das Barrocas, provocou o escândalo de alguns pais, preocupados por as crianças participarem num projecto escolar vestidos com roupas a simular as fardas da Mocidade Portuguesa. A coisa foi ao ponto do Bloco de Esquerda ter decidido interpelar o Ministério da Educação, chocado com o facto de uma professora "obrigar alunos menores de idade a serem actores num acto laudatório e acrítico de uma página negra da história de Portugal".

A escola, que vai reunir com a Associação de Pais na próxima semana, considera as críticas "caluniosas": "Uma deturpação completa do projecto que 1200 alunos estão a fazer. Isto ofende e revolta", afirma ao i a professora Joaquina da Conceição, responsável pelo projecto. A professora sustenta que "o que se pretende com o projecto é rever 100 anos da História de Portugal, desde o fim da monarquia até à actualidade". Assim, "cada escola tomou a seu cargo uma determinada época" e à escola das Barrocas coube o Estado Novo. "Aquilo que se pretende é que os meninos conheçam a história. Não se pretende defender nada! Não temos ideias fascistas!", afirma Joaquina da Conceição, indignada com o escândalo público. "Não se trata de levar meninos para a rua a defender o Estado Novo! Só quem não conhece a escola é que poderia afirmar uma coisa dessas!", insiste a professora. Apesar de ter conhecimento de mal-estar entre alguns pais, Joaquina da Conceição afirma que a maioria dos pais está a colaborar com o agrupamento de Escolas de Aveiro neste projecto, que também tem o apoio da Câmara e do Governo Civil. Para discutir o problema, já está marcado uma reunião entre o director do agrupamento, prof. Carlos Magalhães e a Associação de Pais.

Para a coordenadora do projecto, as críticas configuram "uma calúnia muito grande" e "um autêntico desconhecimento do que está a ser feito" e "uma acusação muito grave que não tem fundamento". Afinal, "o Estado Novo é uma parte da história do país que não podemos apagar" e só conhecendo o Estado Novo "podemos compreender o 25 de Abril e perceber porque é que o 25 de Abril foi necessário".

Esta semana, o deputado do Bloco de Esquerda Pedro Soares enviou uma pergunta ao Ministério da Educação onde afirma que "apesar de terem sido desenvolvidas algumas diligências e da oposição de alguns pais, a intenção da professora dessa turma em realizar este exercício de revivalismo do Estado Novo continua. Considerando que durante os 41 anos do Estado Novo não vigorou uma República mas sim uma ditadura em Portugal, o acto consiste num revisionismo inaceitável da história". Para o deputado bloquista é "inaceitável a visão revisionista da professora em causa" e o partido "repugna o culto pela Mocidade Portuguesa demonstrado". Assim, ao Ministério da Educação, o deputado pergunta "que medidas vai tomar o Ministério para garantir que a escola pública é um espaço livre de pensamento e de construção de cidadania e não um espaço de revisionismo histórico e saudosismo fascista". Para a coordenadora do projecto, toda esta linguagem é "caluniosa".


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