Entrevista

James Watson. "Não nascemos com oportunidades iguais"

Publicado em 23 de Maio de 2009   
O cientista que explicou o ADN, prémio Nobel da Medicina em 1962, em discurso directo
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As moléculas do ADN contêm as instruções genéticas que coordenam o funcionamento dos seres vivos
"Gosto de Lisboa. Há um cuidado especial, está tudo limpo." James Watson está sentado no bar da Fundação Calouste Gulbenkian. A entrevista decorre no intervalo para almoço do simpósio sobre cancro da Fundação Champalimaud, onde é presidente do conselho científico - aos 81 anos. A expressão sisuda quebra mais vezes do que se poderia supor, num sorriso fácil. Cumprimenta todos os que se aproximam. Velhos e novos. Não nega dois dedos de conversa. Tem uma aura tão grande como a carreira.

Quais são as expectativas para o novo centro de investigação da Fundação Champalimaud?

É uma grande oportunidade para Portugal, tem capacidade para passar a ser um centro mundial. Chegou finalmente o momento de juntar a investigação fundamental sobre o cancro e a vertente clínica num mesmo espaço, e é isso que vamos fazer. É o único caminho para curar o cancro.

O que falta para atingir esse objectivo?

Encontrar terapias menos tóxicos e mais baratas. É nessa direcção que estamos a caminhar.

A genética é a resposta final para o que somos?

Sim. Está lá tudo. É pura informação, e quando é lida dá-nos essa resposta. Não podemos ignorá-la, somos o que ela nos diz.

Foi a segunda pessoa a conhecer o seu genoma. O que é que ele diz de si?

Na realidade fui o primeiro, o estudo é que só saiu depois [John Graig Venter iniciou uma experiência paralela ao Projecto do Genoma Humano e publicou quase ao mesmo tempo os resultados do seu próprio ADN]. Diz que tenho de ter cuidado com o leite que bebo - não o digiro bem. Diz que a minha pressão sanguínea é instável. Acabou por ser bastante útil em termos médicos.

Mas não quis saber se poderia vir a ter Alzheimer?

Não se pode fazer nada para prevenir, porque é que havia de querer saber? De resto, quis saber tudo.

O que recorda da publicação do modelo da dupla hélice do ADN na "Nature", em 1953?

Acabo por estar sempre a recordá-la, pois há muita gente que continua a trazer-me cópias para eu assinar (risos). É o sonho de qualquer jovem cientista: fazer uma descoberta. Não esperávamos que fosse tão grande, mas abriu caminho a muitas outras. Agora que podemos ler o ADN humano, basta olhar para ele - está lá o que descobrimos.

Como explicaria o ADN a uma criança?

É uma língua. Para a biologia, é a língua que nos dá a estrutura da vida. Está escrita em frases, com apenas quatro letras. Às vezes as palavras são muito compridas e é difícil compreendê-las: há cerca de 30 mil palavras diferentes.

Defende a manipulação genética?

Claro. Modificar plantas produz plantas melhores. Pela mesma razão seria a favor de produzir melhores seres humanos, mas ainda não o podemos fazer.

Contrariar esse processo é ter medo da evolução?

Algumas pessoas têm reticências, por exemplo as que acreditam em Deus. Diria que sim, que têm medo. Perguntam-se o que está para lá de nós. A mim isso não me passa pela cabeça.

O que é que gostava de ver explicado pela ciência?

O cérebro! Não sabemos quase nada, a nossa memória é um mistério. Sabemos que há informação guardada nos genes, mas não conhecemos o sistema.

Disse uma vez que ciência e controvérsia andam de mãos dadas. Alguma sentiu a pressão de negar o conhecimento?

Não. Há coisas que nos metem em sarilhos por as dizermos, mas se acredito nelas digo-as. É melhor viver com a verdade do que ignorá-la, isso só nos traz problemas.

Em 2007 foi acusado de discriminação ao descrever a raça africana como menos inteligente...

Não foi isso que quis dizer, mas foi isso que se percebeu e pedi desculpa. Não gostei da forma como a coisa se desenrolou, mas no fim ficou tudo bem. Contudo, há um problema de fundo: a sociedade gosta de acreditar que toda a gente tem oportunidades iguais. Eu sei que nunca teria sido um grande pianista. O conceito de termos nascido todos iguais é bom, as pessoas vivem à vontade com ele.

Mas não é verdade?

Não, mas é assim que queremos que as coisas sejam. Quando o nosso conhecimento das coisas evolui, há pessoas que o entendem melhor que outras.

O que é que o mantém entusiasmado?

A cura do cancro é o meu grande objectivo. E acho que estamos muito perto. Se continuarmos a aprofundar as causas genéticas da doença, teremos mais apoios.

Continua a jogar ténis?

Sim, o mês passado recebi uma cópia de uma raquete de um jogador famoso, estou a tentar jogar como ele (risos).

Qual foi a lição mais preciosa da sua carreira?

O valor da verdade. Na ciência, por exemplo, às vezes gostamos dela, outras não gostamos. Mas temos de a aceitar. Às vezes temos de aceitar que alguém nos passou à frente, que teve a ideia antes de nós. Os factos são a única coisa que nos leva para a frente. Acho que é importante mantermos o nosso cérebro bem abastecido. Estou a sempre a ler e isso dá-me muita vida. Ainda tenho a cabeça cheia.

Acredita também que "evitar pessoas aborrecidas", como diz um livro seu, é uma boa estratégia...

Só gosto de pessoas que digam coisas interessantes. Gosto de ideias!

O que é que o surpreendeu mais nos últimos anos?

Oh, tantas coisas... A vida é muito mais animada hoje do que era nos anos 40. Todos os dias há novas descobertas.

As pessoas deviam estar mais ligadas à ciência?

Sim, sem dúvida. É que passam a ter mais consciência da sua vida... Como podem falar com os médicos, saber como estão a ser tratadas, sem saberem, por exemplo, o que é o ADN? É obrigatório saber um bocadinho de ciência, nem que seja para podermos usá-la a nosso favor.


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