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Ministério Público interroga direcção da escola de Leandro
por Kátia Catulo e Aida Sofia Lima, Publicado em 05 de Março de 2010
Sindicatos acusam escolas de ignorar casos de bullying e especialistas alertam para os professores estarem atentos
Os olhos estão postos na Escola Básica Luciano Cordeiro. A Comissão de Protecção de Menores e Crianças em Risco ouviu ontem o conselho executivo do estabelecimento de ensino de Mirandela e o Ministério Público abriu um processo de inquérito que se vai juntar às averiguações iniciadas quarta-feira pelo Ministério de Educação. São os primeiros passos para se descobrir o que terá acontecido com Leandro Pires, a criança de 12 anos que, alegadamente, se atirou ao rio Tua na terça-feira, após mais uma briga com os colegas.
Depois de ouvir a direcção e a associação de pais da Escola Luciano Cordeiro, ontem, nos próximos dias o Ministério Público vai recolher testemunhos de familiares e de todas as partes envolvidas neste caso. Por enquanto, o silêncio permanece como medida de precaução. A família denuncia que o aluno foi vítima de violência escolar, mas ainda ninguém arrisca confirmar se estamos perante o primeiro caso de suicídio relacionado com bullying de que há registo no país.
Episódios deste género são desconhecidos em Portugal, mas comuns no resto da Europa e nos EUA. "Trata-se de uma situação extrema que acontece com alguma frequência lá fora", alerta Tânia Paias, psicóloga clínica e investigadora na área do bullying. Até porque uma das consequências das agressões em meio escolar é o suicídio. Basta para isso que a violência aconteça com frequência e de forma continuada ao longo do tempo.
A confirmarem-se as versões dos pais e de outros familiares, Leandro Pires seria vítima de agressões há mais de um ano. O que será suficiente para provocar "sérios danos" na estabilidade emocional do rapaz. "Quanto mais tempo a criança estiver sujeita a violência, menor será a sua capacidade para reagir."
Fazer tudo para ignorar a situação poderá ser a primeira reacção da vítima, mas a estratégia é pouco eficaz, esclarece a psicóloga que é também especialista em saúde escolar. "Uma das características do bullying é o desnível de poder que existe entre os adolescentes envolvidos." Há o miúdo que agride e o miúdo que sofre as agressões em silêncio porque tem medo e vergonha. "Se essa dinâmica persistir durante muito tempo, irá criar na vítima distorções cognitivas e destruir a sua auto-estima", explica Tânia Paias. Significa isto que o adolescente pode chegar ao ponto de julgar estar num beco sem saída "e concluir que não há nada que possa fazer para acabar o sofrimento". O suicídio pode ser o passo seguinte.
São situações extremas que poderão ser evitadas se pais e professores estiverem atentos. A confirmar-se que Leandro foi vítima de bullying, coloca-se também a questão de perceber por que razão o estabelecimento de ensino não conseguiu detectar o caso a tempo. As escolas "não actuam devidamente" perante suspeitas de bullying e, muitas vezes, ignoram estes casos. A denúncia é dos sindicatos de professores que falam na falta de condições para combater o fenómeno e admitem existir uma tendência para minimizar a sua gravidade. "Há casos aparentemente pouco relevantes e nas escolas tenta-se ver se as coisas passam e, quando dão conta, já aconteceu algo pior", diz Mário Nogueira, dirigente da Federação Nacional dos Professores.
Tânia Paias também está convencida de que os docentes têm dificuldade em identificar situações de bullying porque os episódios acontecem, por regra, longe da supervisão dos adultos. "Geralmente, as agressões têm lugar no recreio ou então fora do recinto escolar." E haverá sempre o risco de os professores minimizarem as brigas entre os alunos. "Os adultos têm tendência para encarar os conflitos como algo normal entre os adolescentes; julgam estar perante brincadeiras, mas há que averiguar se o caso deve ser encarado com seriedade."
Muitas vezes, os professores têm dúvidas e dificuldades em distinguir se estão perante um caso de bullying: "É por isso que é preciso promover uma maior cultura de diálogo entre os professores, que podem tirar dúvidas e aconselhar-se com outros colegas", diz a psicóloga.
Prevenir é, no entanto, o melhor caminho para evitar o pior. Alertar os alunos para o fenómeno do bullying é o primeiro passo para combater um fenómeno que atinge uma em cada quatro crianças em Portugal de acordo com os dados da OCDE. "Envolver os adolescentes nas iniciativas de sensibilização é a melhor forma de fazer com que se sintam intervenientes neste processo e mais facilmente serem educadas", explica Tânia Paias.
Por enquanto, a morte de Leandro ainda é um mistério. Como é também desconhecido o paradeiro do seu corpo. As buscas foram ontem alargadas até à foz do rio Tua e interrompidas às 18 horas sem sinal do cadáver: 130 homens da Protecção Civil, PSP e GNR e ainda cães treinados procuraram sem sucesso por Leandro. A buscas são hoje retomadas.
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