Entrevista a Paulo Rangel
Paulo Rangel: "A Igreja deveria abrir mais na questão homossexual"
Publicado em 19 de Maio de 2009
Não sabe se chegou a ser militante do CDS. Não se lembra se assinou o cartão
O católico progressista fã de heavy-metal é a revelação da campanha para as europeias. Mandaram-no comer papa Maisena: adorou. Acha que a fúria repentina dos adversários em tratá-lo como um benjamim lhe vai dar sorte. Paulo Rangel recebe o i no seu gabinete de líder parlamentar do PSD onde não aqueceu o lugar. Entrou no PSD em 2005, esteve próximo do CDS, mas não se lembra se chegou a ser militante. Começámos na hard european politics mas acabámos na moral católica. Para Paulo Rangel, a igreja tem de mudar o discurso sobre a ordenação das mulheres, o casamento dos padres, os homossexuais, os anticoncepcionais e o divórcio.
É difícil assumir-se como federalista num partido como o seu, dividido sobre isto?
O conceito de federalista é um conceito perigoso por ser equívoco. A expressão é equívoca e precisa de ser trabalhada para se perceber o que se quer dizer. Aquilo que eu digo, e isso julgo que é consensual no PSD, é que é preferível uma solução política ou institucional em que sejam claras as competências do poder central e a de cada estado-membro. A situação em que estamos é que é híbrida. Há coisas em há um hipercentralismo e outras em que há a velha ordem em que cada estado é soberano. Nunca sabemos bem até onde pode ir a união ou não. Seria preferível uma repartição de competências muito clara. E isso é o federalismo. Mas isso obrigaria a uma operação institucional muito grande, que não está no horizonte.
O PSD já teve como cabeça-de-lista um antifederalista primário, Pacheco Pereira. Não há esta contradição insanável no PSD?
A posição do Pacheco Pereira é particular, não é dominante no PSD. Mas eu nem acho que estejamos tão longe um do outro como parece. Há o problema do tráfico da palavra federalismo. Durão Barroso costumava dizer, até antes de ser eleito primeiro-ministro, que não se devia usar a palavra federalista, porque às vezes as pessoas estavam de acordo mas, como disputavam ideologicamente a palavra, punham-se em desacordo quando estavam de acordo. Eu não tenho medo da palavra, luto pela sua pureza. Se não for usada na sua pureza, é fonte de grandes contradições. Eu não me revejo em muitas das posições de Pacheco Pereira sobre a matéria. Ele olha muito para a União Europeia com os olhos de Inglaterra. Eu tenho uma fé e uma esperança.
Pretende mesmo que se crie um modelo em que haja um órgão com poder eleito por sufrágio directo e universal?
Sim. Não falo disso com mais entusiasmo porque acho que estamos muito longe disso. Uma coisa é o que eu defendo para a Europa como projecto e outra o realismo com que olho a questão europeia.
Ninguém deu aos europeus a hipótese de referendar o tratado?
Fui sempre bastante aberto ao referendo ao tratado constitucional. O Tratado de Lisboa é diferente: encontrávamo-nos numa situação na Europa que justificava o avanço mais intergovernamental do que popular. Mas sou aberto a um referendo europeu. O que não compreendo é porque é que os apóstolos da falta do referendo europeu nunca defenderam para Portugal um referendo constitucional. Não podemos achar que para as questões europeias os portugueses devem poder pronunciar-se, mas para as questões nacionais não. Eu, que defendo que a Constituição pode e deve ser referendada, não tenho problema nenhum em admitir um referendo europeu. Mas não compreendo que pessoas que dizem que é absolutamente essencial o referendo europeu não achem essencial, nem queiram, um referendo à Constituição portuguesa. Ninguém levanta a questão cá e isso é uma questão estruturante.
Filiou-se no PSD há pouco tempo, em 2005? porque não chegou antes?
Sempre fui PSD, enquanto criança e adolescente. Depois tive ali um período de algum afastamento no fim do consulado de Cavaco Silva. Foi um divórcio com uma certa forma de estar, que não tinha a ver com Cavaco Silva, tinha a ver com um certo aparelhismo. Entre 93 e 97 estive mais perto do CDS.
Chegou a fazer parte do CDS?
Sim, participei nuns conselhos?
Mas foi mesmo militante?
Isso é que eu também não sei? Eu tenho um problema com as militâncias (risos).
Mas assinou um cartãozinho?
Não sei se assinei. Não me lembro bem. Estou a dizer a verdade?
A sério que não se lembra?
Não me lembro! Aliás, também tive esse problema com o PSD. Inscrevi-me como militante e depois não estava lá.
No CDS participava num conselho?
Participei num conselho de opinião para apoiar uma candidatura de Lobo Xavier. Ganhou Manuel Monteiro e eu afastei-me. E depois fui "recuperado" por Paulo Portas, quando ele entrou na liderança e rompeu com o monteirismo. Quando houve a ruptura da AD, com Marcelo Rebelo de Sousa, abandonei.
Regressa ao PSD?
Quando há a ruptura Marcelo-Portas, aí deu-se a reconciliação com o PSD
Mesmo assim não se tornou militante?
Não gostava muito das estruturas, desta lógica da vida partidária, ter de ir às reuniões? Agora que experimentei até acho que não é assim tão difícil. Na altura parecia. Mas aproximei-me do PSD e em 2001 Rui Rio convida-me para redigir o programa para a candidatura à Câmara do Porto. Aí conheci também Aguiar-Branco, menos bem. Só o conheci melhor quando fui secretário de Estado dele. Entro para o governo em Julho de 2004, era independente.
Ficou magoado por Rio e Aguiar Branco terem preferido outro candidato?
Não! Nem sei se foi exactamente assim, não estive na reunião. Mas uma preferência não significa a recusa de outros candidatos. Não vejo aí problema.
Porque é melhor candidato que Marques Mendes?
Não sou eu que vou dizer. Agora só aceitei porque acho que tenho condições para fazer bem. Tenho muita confiança na minha disponibilidade para a candidatura. É sinal de que estou convencido de que serei um bom candidato e não estou "desconvencido" de que não serei o melhor dos candidatos que o PSD teria. Tinha de estar convencido disto para aceitar.
Quando José Miguel Júdice escreveu que o senhor seria o futuro líder do PSD pensou o quê? "O homem está maluco?"
Pensei que há elogios que são perigosos. Há um carácter provocatório em José Miguel Júdice que eu conheço há muitos anos. É uma provocação que não é feita a mim, é feita a outros.
Mas sentiu-se orgulhoso?
Não! É uma análise política que tem os seus contras, não é tão positiva como parece.
Andam a mandá-lo comer papa maizena, acusam-no de excitação juvenil. Sente-se assim tão novo?
Tenho 41 anos, não me sinto nada novo! Acho é que os outros não se sentem novos, essa é que deve ser a razão. É que eu nem imagem de novo tenho! Há pessoas que parecem mais novas, eu pareço mais velho. Não percebo a que se deve isso. Mas em todo o caso acho que é bom.
Então achou simpática a cena da papa maizena?
Achei um sinal positivo transmitir uma imagem de novidade.
Conhecia o programa Inov Contacto?
Conhecia. O Inov Contacto é um programa português, o que propomos é um programa de mobilidade europeia. Não são estágios, é primeiro emprego para jovens com qualquer qualificação.
E a vossa proposta de rede autarquias Europa não se sobrepõe ao comité das regiões?
Teremos um programa de contactos com presidentes de câmara. Os eurodeputados comprometem-se a ter um relatório para cada um daqueles municípios. Há um défice de prestação de contas dos eurodeputados, e isso vale para todos os partidos. Muitas vezes até se empenham e depois aqui ninguém sabe o que fazem. As autarquias são os aliados naturais da União Europeia: todos querem diminuir o poder dos estados nacionais. São aliadas estratégicos. Mas temos outras ideias: esta semana vamos propor um programa integrado de requalificação de cidades, com prioridade para centros históricos e para aquela malha suburbana onde surgem problemas como os que vimos na Grécia e agora aqui também em Portugal. Na Bela Vista houve uns ameaços. A União Europeia não tem um programa de requalificação de cidades.
Mas há o Polis?
Aqui queremos associar três níveis: o nível energético, ambiental, recuperação urbanística e social: reconstrução de lares de terceira idade, por exemplo. Integrar as políticas europeias que estão desarticuladas e fazer disto um programa de relançamento contra a crise.
Quem é o Paulo Rangel fora da instituição? Por exemplo, que anda a ler? Algum romance?
O que andei a ler até agora, por estranho que pareça, são biografias de São Paulo, porque era o ano paulino, e porque eu me chamo Paulo. Não ando a ler nenhum romance.
É um católico mesmo praticante? Vai à missa?
Sim, mas sou um progressista, não me revejo na moral de costumes da Igreja Católica, na não ordenação das mulheres, no não casamento dos padres.
Defende o casamento dos padres?
Em primeiro lugar defendo a ordenação das mulheres. Não compreendo que hoje, 2009, a Igreja tenha esta restrição. Olhe, o São Paulo, que tem aura de ser um autor sexista, em grande parte das igrejas que fundou as chefes eram mulheres. O que revela bem que o estatuto da mulher não era assim tão subalterno quanto pode parecer da leitura de alguns textos.
Na Igreja é.
Na igreja institucional, sim. Mas com Jesus Cristo não. Tudo o que se conhece até aponta para um certo escândalo por ele ter mulheres apóstolas. E São Paulo também, curiosamente.
Concordou com a despenalização do aborto?
Eu estou de acordo com a posição da Igreja quanto ao aborto e à eutanásia. No resto não. Nos anticonceptivos sou um radical activista contra as posições da Igreja. Na moral sexual em geral sou contra: casamento, divórcio, a questão dos homossexuais.
Defende o casamento gay?
Não é uma coisa que eu defenda hoje. Defendo uma instituição à parte.
A solução inglesa?
Um instituto análogo ao casamento. Para a sociedade portuguesa seria a melhor solução agora. Não porque eu não reconheça o direito? Eu percebo muito bem as reivindicações dos activistas e das activistas dos movimentos gay, mas acho que sociologicamente também temos que respeitar as convicções da maioria da população portuguesa, que é muito conservadora nesta matéria. Temos de encontrar um equilíbrio. A terceira via é um bom equilíbrio. Aliás, nas associações activistas há uma certa contradição. Elas dizem: agora falamos em casamento e mais tarde na adopção, é preciso um primeiro passo. Mas eu acho que é preciso um primeiro passo antes do casamento. Se aceitássemos a teoria gradualista, criavam- -se menos fracturas.
Primeiro a união civil, depois o casamento, a seguir a adopção? Também defende a adopção?
É uma questão muito problemática.
Mas um homossexual é menos bom pai que...
Não, não é menos. Não é menos. Não é menos.
Então?
Mas eu percebo que há aqui questões sociológicas, de respeito pelas convicções dominantes na sociedade. E também têm de ser tidas em conta, não há aqui só direitos de uns. Prefiro uma engenharia social gradual. Mas acho que é aqui, na relação com os homossexuais, que a Igreja deveria abrir mais. Em toda a moral sexual é preciso uma grande renovação na Igreja. E há coisas que não compreendo de maneira nenhuma: a ordenação das mulheres, o casamento dos padres, a questão dos anticonceptivos, não percebo como é que se consegue continuar com este discurso.
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Artigo: Paulo Rangel: "A Igreja deveria abrir mais na questão homossexual"
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