Entrevista

Pedro Norton: A relação de Sócrates com os media "é infeliz"

por Adriano Nobre, Publicado em 02 de Março de 2010   
Na véspera da audição de Francisco Balsemão na comissão de Ética, número dois da Impresa critica "arrastamento do clima de suspeição" em torno do governo
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Pedro Norton, vice-presidente da comissão executiva da Impresa
O vice-presidente da comissão executiva da Impresa, Pedro Norton, recusa dar por garantida a existência de um "plano" do governo para controlar os media. Mas admite existirem "razões para estarmos preocupados". E assegura que no grupo proprietário da SIC, "Expresso" e "Visão", entre outros meios, as pressões não resultam: "Temos uma cultura corporativa, personificada no dr. Balsemão, que nos torna muito imunes a esse tipo de estratégias."

Há motivos para preocupação em relação ao condicionamento dos media ?

A questão tem sido um pouco mal colocada. Quando perguntamos se há liberdade de imprensa em Portugal, objectivamente a pergunta é estúpida. Enquanto constatação de facto, não é honesto dizer que não existe liberdade de imprensa. O que acho importante perceber é se existem tentativas de diminuí-la e condicioná-la. Não tenho elementos muito mais pertinentes do que a maior parte dos cidadãos, mas estou preocupado: pelo que tem vindo a ser noticiado, há razões para pelo menos estarmos atentos.

Mas acredita na teoria de um plano do governo para controlar a imprensa?

Tenho sempre reservas em relação a teorias da conspiração. Mas não tenho muitas dúvidas de que qualquer governo, de qualquer cor política, se tiver à sua mão instrumentos de condicionamento da comunicação social usa-os. É uma tentação inevitável. O que importa fazer é impedir que esses instrumentos estejam à disposição do poder. Depois há também uma parte que cabe aos jornalistas e aos gestores de imprensa: saber resistir, desligar um telefone na cara e, se for preciso, dizer um palavrão ao telefone.

E quando a tentativa de controlo passa por operações financeiras de empresas, accionistas e banca? Isto não pode revelar um plano mais arquitectado?

Por isso é que digo que há razões para estarmos preocupados. Se existe esse plano ou não, não tenho dados para o dizer taxativamente. Mas os elementos que existem são suficientemente graves para que se investigue até ao fim. E é fundamental que isso seja rápido, até por razões políticas. O arrastamento do clima de suspeição sobre este governo é mau para o país. É preciso tomar medidas no país e Portugal não suporta passar muito tempo sem que se combata a crise económica e financeira que atravessa.

O director do "Expresso" acusou José Sócrates de lhe ter telefonado para tentar impedir a publicação de uma notícia. Como é que vê a forma como o primeiro-ministro lida com os media?

No mínimo é muito infeliz e desadequada. Houve outros casos que foram públicos e nunca foram desmentidos. O caso do "Expresso" tenho a certeza absoluta de que é verdade. E é no mínimo infeliz.

Essas pressões nunca chegaram aos gabinetes dos gestores da Impresa?

Todos recebemos pressões do poder político ou económico, directa ou indirectamente. Faz parte da nossa actividade. Mas o mais relevante não é saber se as pressões existem: é saber se resistimos a elas. No meu caso, sei desligar o telefone quando é preciso. As pessoas percebem com quem estão a lidar e sabem que há grupos mais frágeis com que vale a pena ensaiar pressões e outros em que não vale a pena insistir.

Quem são esses grupos mais frágeis?

Não posso falar pelos outros. Sei é que na Impresa temos uma cultura corporativa personificada no dr. Balsemão que nos torna muito imunes a esse tipo de estratégias. Qualquer jornalista ou gestor do grupo Impresa sente-se à vontade para mandar à fava quem quer que seja que lhe faça uma pressão ilegítima. Mas não me fica bem dizer se no grupo A ou B é diferente. Genericamente, é óbvio que quanto mais frágil é a situação de um grupo empresarial ou quanto mais os cruzamentos accionistas são esquisitos, mais essas situações se podem colocar.

Quando José Sócrates alegadamente andaria empenhado em encontrar soluções para os meios que considerava um problema, foi proposto algum negócio à Impresa? Constou que estariam interessados no "Público"...

A ser verdade só poderia ser por razões de negócio e não por outras razões... Conversámos com o "Público" numa lógica puramente empresarial, mas não fez sentido que sequer se aprofundasse o assunto. Isso aconteceu porque nós, na Impresa, não podemos de deixar de olhar para o mercado, numa lógica empresarial, para ver as oportunidades que existem.

À luz do que se tem lido no "Sol", com escutas a conversas entre o patrão da Controlinveste e pessoas próximas a Sócrates, acha que a crónica de Mário Crespo foi censurada pelo "JN" ?

Eu não sou jornalista, mas conheço o suficiente do meio para dizer-lhe o seguinte: se estivesse no lugar do director do "JN", publicava aquela crónica. Mas não posso tirar mais ilações porque não sei as razões da não publicação.

Há quem diga que a palavra "censura" é demasiado forte para esse episódio.

Se a não publicação tiver sido inspirada por uma preocupação de defesa do primeiro-ministro, não é exagerada.

Sente que é preciso tornar o ar mais respirável na comunicação social?

Penso que sim. E na Impresa trabalhamos diariamente para isso.

A saída de José Sócrates de primeiro-ministro seria uma ajuda?

É bom não misturar as coisas. Não ganhamos nada em fulanizar a questão. É importante ter uma comunicação social livre, independente, forte e para isso é preciso que ela seja economicamente sustentável. E isso passa por não ter os grupos de comunicação social muito dependentes do Estado ou de empresas ligadas ao sector empresarial do Estado. Saber quem é o protagonista em cada caso é indiferente. Nisso já deixei de acreditar no Pai Natal.

Como gestor do "Expresso", como vê o sucesso do "Sol", a esgotar tiragens com a publicação das escutas?

O "Sol" fez muito bem o seu trabalho. É uma cacha magnífica.

É favorável à divulgação de escutas?

Partindo do princípio de que não há descontextualização do que foi publicado, se estivesse na posição do "Sol", teria tomado a mesma opção. A invocação de interesse público serve para tudo, mas objectivamente, como mero cidadão e consumidor de jornais, acho que o que o "Sol" publicou não são notícias da vida privada dos intervenientes. O que está em causa é de tal forma relevante que, mesmo havendo colisão de direitos, faz sentido que tenham tomado a opção de publicar.

E o concorrente directo desse semanário, fica preocupado com este sucesso?

Não. O "Expresso" olha com respeito e preocupação para toda a concorrência. Isto tem de funcionar como mais um estímulo para o "Expresso". Só faz sentido olhar-se para o sucesso da concorrência pensando que isso tem de traduzir-se na vontade de fazermos cada vez melhor.

Já que falámos de Mário Crespo, permita-me que o cite: o que é a Ongoing?

Essa pergunta é para mim? Devia ser para o dr. Nuno Vasconcellos... A Ongoing neste momento é um accionista minoritário da Impresa e que, como é público, vai deixar de ser. É um grupo que quer afirmar-se nos media, que entrou minoritariamente num conjunto de empresas, com excepção do "Diário Económico", mas não sei mais do que aquilo que é público.

Mas houve uma relação conturbada entre a Impresa e a Ongoing.

Do ponto de vista institucional, a Impresa foi colocada perante um conflito de interesses óbvio. Mas foi a Ongoing que se colocou nessa posição quando quis entrar na TVI. Isso gerou alguma fricção, até por força das decisões da ERC. Mas é uma situação que está para ser resolvida.

E antes, quando a Ongoing quis assumir o controlo da Impresa através de um aumento de capital? Não houve?

Essa questão diz respeito ao accionista maioritário, que é o dr. Balsemão. Foi a ele que coube decidir se aceitava, ou não, a proposta da Ongoing. O que posso dizer em relação a isso é que o facto de a Impresa ter um núcleo accionista sólido, estável e forte, que personifica a cultura de liberdade na gestão de imprensa, é uma mais-valia. Fico muito contente que o dr. Balsemão tenha decidido manter o controlo da empresa nas suas mãos.

Henrique Monteiro acusou a Ongoing de tentar "descaracterizar a Impresa e o Expresso". Concorda?

Estamos a trabalhar em cenários: a Ongoing só poderia fazê-lo se assumisse o controlo da Impresa e nunca o assumiu. Portanto não descaracterizou nada.

E não causou desconforto à Impresa o alegado envolvimento de um accionista com 23% do grupo nestas polémicas do "plano" do governo para os media?

Deve causar desconforto é à Ongoing.

A confirmar-se a saída da Ongoing para entrar na TVI, é indiferente para a Impresa o futuro accionista?

Indiferente não é. Mas o essencial é que a existência de um núcleo accionista forte e estável é um património do grupo. Como isso não está em causa, a questão vale o que vale. Dito isto, a minha opinião é que vejo com bons olhos tudo o que seja um accionista profissional.

Um parceiro como a PT faria sentido?

Quem tem de negociar a participação é a Ongoing e não vou estar a comentar rumores. Nós não estamos a promover a entrada de nenhum accionista em particular. De qualquer forma, e independentemente do que achássemos, na actual conjuntura política é impensável que a PT se venha a meter na indústria dos conteúdos nos tempos mais próximos.

É cedo para dizer que a crise do mercado de media já passou?

A crise não, mas o momento mais agudo já passou. Estamos a falar de um mercado em que a publicidade caiu 15% a 16% em 2009. Não acredito que em 2010 não exista no mínimo uma estabilização. Em relação ao grupo Impresa, vamos apresentar resultados na próxima semana e vai ficar patente que no ano mais difícil para o sector desde o PREC, fizemos o turnaround de prejuízos de 27 milhões de euros em 2008 e no terceiro trimestre de 2009 já tínhamos cumprido o objectivo de regressar aos lucros.

Por via do corte nos custos?

Obviamente. Nos resultados que vamos apresentar aumentamos significativamente todos os índices de rentabilidade e isso foi feito com um esforço brutal de reorganização e de contenção de custos, que não poupou ninguém. Vamos apresentar contas muito satisfatórias e reduzir o endividamento, mesmo depois de termos feito investimentos importantes como a compra da totalidade da SIC Notícias ou a construção de um novo parque de estúdios ao lado da SIC. Ou seja, não achando que a crise passou, estamos com uma estrutura de custos, uma gestão e uma organização que nos permite olhar para o futuro sem grandes angústias.

E olha para esse futuro como possível presidente da Impresa?

Essa questão não está em cima da mesa. E não o digo por retórica.

Acredita que Balsemão vai manter-se em funções por muitos mais anos?

Tenho a certeza e acho que é importante que assim seja. O dr. Balsemão tem vontade, é uma referência importantíssima e a Impresa beneficiará durante longos anos dessa sua vontade.

E como é que reage quando o apontam como sucessor de Balsemão?

Não tenho de reagir. Sinto-me bem a desempenhar as funções que desempenho. É um privilégio trabalhar com ele e não perco muito tempo a pensar em questões que não estão em cima da mesa.


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