Ferreira Leite vende Portugal aos investidores entre alertas
Publicado em 26 de Fevereiro de 2010
A líder do PSD comparou Portugal com a Grécia perante uma sala cheia de empresários franceses
Há um ano, os franceses dispararam o investimento em Portugal - mais 200% em relação a 2008 - e tornaram-se o principal investidor estrangeiro do país. Na terça-feira, a líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, alertou para a possibilidade de Portugal, à semelhança da Grécia, não vir a ter capacidade para saldar as suas dívidas no exterior... perante representantes de empresas francesas. "É bom nós estarmos todos conscientes de que a forma como se olha a Grécia é a mesma forma como que se olha Portugal", disse a líder do PSD.
Na plateia do Hotel Corínthia, onde decorreu o almoço-debate organizado pela Câmara do Comércio Luso Francesa, estavam 45 empresários, cinco em representação de empresas francesas: a Groupama, a Altran, a bioMérieux, o banco privado Edmond de Rothschild e ainda a Legrand, que foi notícia no início do mês pelo facto de os sindicatos temerem que planeasse o encerramento da sua fábrica de Cascais.
Perante estes investidores, a antiga ministra das Finanças quis alertar o governo para o que teme vir a ser o futuro do país e ontem, debaixo da chuva de críticas do executivo, recusou retractar-se, esclarecendo que, ao comparar as situações económicas dos dois países queria, apenas ajudar o governo.
"Aquilo que eu disse, do meu ponto de vista, foi uma ajuda, e é pena que o governo não o entenda", defendeu para depois reafirmar a sua posição: "O que disse sobre a Grécia foi uma verdade. Que estaríamos num caminho semelhante e que, se não fosse travado, chegaríamos exactamente ao mesmo ponto."
Mira Amaral, presidente do banco BIC, concorda com a líder do seu partido "em termos objectivos". "Se nada se fizer, em dois, três anos, Portugal estará na situação aflitiva da Grécia", acredita o antigo ministro da Indústria. Mas discorda do timing: "Essas coisas dizem- -se em casa. A líder do principal partido da oposição não pode ir para uma câmara do comércio dizer isso." Como tal, conclui: "Foi perfeitamente infeliz o que a senhora disse."
Para os socialistas, Ferreira Leite "comprometeu o interesse nacional" e "prejudicou a credibilidade externa do país" por vir alertar os investidores franceses para os problemas do país. Aliás, a comparação entre as situações económicas da Grécia e de Portugal, foi afastada pelo Presidente da República no início do mês.
"Peço aos analistas externos que analisem com imparcialidade e com rigor os indicadores relativos a Portugal e concluirão, sem fazer qualquer esforço, que não há qualquer comparação entre Portugal e a Grécia", defendeu Cavaco Silva, que escolheu Ferreira Leite como sua ministra das Finanças quando foi primeiro-ministro.
Do lado dos três candidatos à liderança do PSD, houve silêncio. Pedro Passos Coelho preferiu por isso criticar o tom do discurso da Ferreira Leite. "Acho que é mais importante explicar que a situação é delicada, mas que não devemos olhar para ela de uma forma sombria", disse. Nos mesmos termos, o ministro Silva Pereira lembrou a ainda líder de que já está no final do mandato. "O que parece que já não tem cura é a liderança do PSD". E ironizou: "Mas parece que ela está já nos últimos dias."
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