Energia
A bomba-relógio do petróleo continua activa
Publicado em 09 de Fevereiro de 2010
Relatório no Reino Unido alerta para crise petrolífera nos próximos cinco anos e pede acção a governos e empresas
No meio da actual turbulência dos mercados financeiros e com a economia mundial a tentar recuperar da maior crise financeira em oito décadas, o problema da escassez de petróleo parece ter perdido importância - o preço varia com as pequenas perturbações do dia-a-dia e o mercado parece estar confortável com o preço médio de 75 dólares por barril, quase metade do máximo, atingido em Julho de 2008. Contudo, a bomba-relógio de uma crise petrolífera continua bem activa e a explosão, algures nos próximos cinco anos, terá um impacto comparável com o da crise financeira do subprime (mercado hipotecário de alto risco), avisa um relatório pedido por um grupo de empresários britânicos, liderado por Richard Branson, fundador do grupo Virgin.
"Nos próximos cinco anos seremos confrontados com outro esmagamento: o do petróleo. Desta vez temos a possibilidade de nos prepararmos - o desafio é usar bem esse tempo", aponta o relatório, citado pelo jornal "The Guardian", que será apresentado amanhã ao governo do Reino Unido. O documento foi compilado por um centro de pesquisa - o Industry Taskforce for Peak Oil and Energy Security - financiado por um grupo de empresas, onde além da Virgin (preocupada com o seu negócio de aviação), se inclui a transportadora rodoviária Stagecoach e a consultora de engenharia Arup. "A nossa mensagem para governos e empresas é clara: ajam. Não deixemos que o problema nos apanhe."
Depois de uma recuperação gradual em 2009, o mercado está relativamente estável e a evolução do preço a curto prazo estará dependente de duas forças opostas: a China e uma eventual mudança nos padrões de consumo no Ocidente. "Os próximos meses vão dizer-nos se houve uma mudança estrutural no consumo de petróleo, com ênfase na conservação e nas energias alternativas", indica uma nota publicada ontem pela "Petroleum Economist", uma empresa de publicações sobre energia. Esta mudança pressionaria o preço para descer - a não ser que haja "um salto na procura, devido à China, que surpreenda o mercado".
Esta análise, no entanto, é para os próximos meses: a longo prazo, de que fala Branson, a subida para valores bem acima dos 100 dólares é inevitável. "Não foram feitos investimentos indispensáveis no sector", explica José Caleia Rodrigues, especialista em questões energéticas. "Há taxas de esgotamento muito altas e andamos todos distraídos com as questões financeiras: assim não haverá maneira de evitar a subida grande no preço."
As insuficiências existem a todos os níveis. A matéria-prima é cada vez mais difícil e cara de extrair - "estão ser feitos furos offshore [no mar], entre dez a 12 mil metros de profundidade" - e de refinar. As refinarias perderam nos últimos cinco anos a folga de cerca de 20% na capacidade instalada que traziam do início da década passada, agravando o risco de estrangulamento nos produtos refinados. "Não tem havido construção devido sobretudo a entraves ambientais", explica Caleia Rodrigues, numa prova de que o debate ambiental tem implicações vastas.
A maior dificuldade em encontrar o ouro negro envolve também os riscos de gestão assumidos pelas pessoas que gerem as petrolíferas. "Fura-se a dez ou 12 mil metros de profundidade, os testes custam milhões e não têm garantia de resultado", explica ao i um especialista, que preferiu o anonimato. "Há gestores que põem a cabeça nisto e que podem ver pouco incentivo para correr o risco - não podemos esquecer que um negócio envolve sempre pessoas."
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