É um trabalho de filigrana. Exige uma precisão de relojoeiro. Mas a matéria-prima é mais simples do que se imagina. É o estuque, durante muito tempo material de referência na construção civil e decoração, mas que foi caindo em desuso. Daí que a palavra de ordem actual nesta área seja restaurar, dar vida nova a obras de arte que, com o correr dos tempos, foram sucumbindo ao tempo e ao desleixo.
A CRERE Portugal, no Porto, posicionou-se nesse nicho de mercado e faz da conservação e restauro de bens culturais o seu core business. Miguel Figueiredo, um dos responsáveis da empresa, lembra ao i que as intervenções em locais emblemáticos como o Teatro Nacional S. João, o Palácio do Freixo, o Cine-Teatro de Lamego, ou a Câmara de Lisboa deram um lastro de conhecimento tal que a Associação Comercial do Porto não hesitou em escolher a CRERE como responsável pelo restauro do faustoso e delirante Salão Árabe do Palácio da Bolsa. Trata-se de uma intervenção de fundo num espaço que, ao longo de mais de um século, apenas conheceu trabalhos de manutenção, sem grande especificidade. Miguel Figueiredo lembra que também não havia grande tradição de restauro em Portugal, o que deixou marcas visíveis num salão destinado a eventos. Até há relativamente pouco tempo era até permitido fumar por ali. Daí que o trabalho tenha começado quase do zero. "Fizemos prospecções e sondagens para identificar as patologias e definir as intervenções, não só ao nível do estuque mas também no que diz respeito a todas as pinturas, douramentos, madeiras e vitrais", diz Miguel Figueiredo, ainda e sempre esmagado por algo tão ostensivo, elaborado e confuso como o Salão Árabe. E se à primeira vista o espaço até parecia bem conservado, um olhar mais atento deixou a nu uma série de problemas. Estuques apodrecidos, entradas directas de água, humidade ou madeiras em muito mau estado foram algumas das maleitas identificadas e tomadas a peito por um grupo de técnicos superiores na área da conservação e restauro.
E é aqui que começa o tal trabalho de filigrana. Ponto por ponto, ornato por ornato, lambril por lambril, tudo avança em passos curtos, mas seguros. A intervenção, prevista para durar doze meses, é, para Miguel Figueiredo, um desafio "assustador". É que todo o planeamento do trabalho está sempre condicionado ao funcionamento do Palácio da Bolsa, o que aumenta a responsabilidade da intervenção. Durante a reportagem do i, por exemplo, um grupo de turistas japoneses "invadiu" o Salão Árabe.
Colecção Baganha
Mas a actividade da CRERE no campo da conservação e restauro de estuques não se esgota no trabalho de campo. A empresa é a fiel depositária da colecção da Oficina Baganha, rosto de uma grande família de estucadores desde meados do século XIX e que mantiveram uma colaboração muito próxima com alguns arquitectos que marcaram a cidade do Porto. Marques da Silva, autor de obras como o Teatro S. João ou a Estação de S. Bento, é um deles. De acordo com Miguel Figueiredo, trata-se de uma colecção "que retém a imagem de uma sociedade e de uma época" e que guarda alguns tesouros. Há, por exemplo, uma Flor Agreste, uma das mais emblemáticas obras de Soares dos Reis, modelada com data anterior à que agora está no museu, há peças de Teixeira Lopes, livros únicos sobre a arte. Um desfiar de memórias cuja conservação se pode enquadrar num autêntico serviço público. Uma ou outra peça desta monumental colecção, com mais de quatro mil elementos, pode ser admirada na loja da CRERE na Rua Miguel Bombarda, mas importante mesmo é assegurar um núcleo museológico para este acervo. A ideia passa pela execução de um projecto dinâmico, com rotas dentro da cidade, um centro interpretativo, merchandising, enfim, o tal turismo cultural que projecta e dá visibilidade a uma cidade.




Rating: 0.0
Comentários