Nova modalidade olímpica: a primeira casa gay dos Jogos

por John Branch, Publicado em 09 de Fevereiro de 2010   
Os Jogos Olímpicos de Inverno começam sexta-feira, em Vancouver, e a Pride House abre as portas ao todos os atletas gays e lésbicas
A Pride House fica no piso térreo do Pan Pacific Hotel, em Whistler (a duas horas de Vancouver)
Dean Nelson tem uma imaginação fértil. É capaz de estar na sala de conferências de um hotel, decorada para uma reunião de negócios, e projectar uma festa provocadora e animada naquele espaço. Acima de tudo, Nelson é capaz de imaginar uma casa confortável e hospitaleira para os atletas gays que, a partir de sexta-feira, vão estar a competir nos Jogos Olímpicos de Inverno em Vancouver, no Canadá. A Pride House começou a ser projectada há um ano. "Prevemos que anime os Jogos Olímpicos", diz Nelson, orgulhoso da obra feita.

Todas as aldeias olímpicas têm espaços onde atletas e funcionários podem socializar - uma Casa dos Estados Unidos, um Pavilhão Canadiano, uma Casa da Rússia, por exemplo. A Casa da Holanda, patrocinada pela Heineken, é normalmente a maior e a que atrai mais gente. Mas uma Pride House (que podemos traduzir como Casa do Orgulho), destinada a gays e lésbicas, é provavelmente a primeira vez. "Isto nunca foi feito", diz Nelson. "É uma espécie de assunto tabu.'"

Como director executivo de uma empresa promocional chamada GayWhistler, que está a organizar a Pride House, Nelson supervisiona o festival anual Winter Pride, que levou a Whistler (a duas horas de Vancouver) 2800 pessoas. Em relação à Pride House, diz que não é preciso ser-se gay para lá entrar.

"O nosso espaço é muito inclusivo", garante. O que Nelson ainda não sabe é se os atletas olímpicos, homossexuais ou não, visitarão a Pride House. Nem sabe se algum dos atletas é assumidamente homossexual. "Prevejo, por causa do estigma que ainda existe, que as presenças sejam modestas", diz Greg Laroc, presidente da Associação Internacional Desportiva Gay e Lésbica - América do Norte, que está a apoiar a Pride House. "O que conta é o facto de existir. Daqui a três Jogos Olímpicos, quem sabe como será a Pride House?"

O desporto, frequentemente citado por quebrar barreiras para as causas dos direitos civis, não se tem envolvido no movimento pelos direitos dos gays. Temendo reacções negativas por parte de colegas de equipa, fãs ou patrocinadores, poucos atletas anunciaram voluntariamente que eram homossexuais durante as suas carreiras. "Incluindo eu", diz Mark Tewksbury, nadador olímpico canadiano que ganhou uma medalha de ouro em 1992 e assumiu a sua homossexualidade em 1998. Se, em 1992, tivesse existido uma Pride House, conta Tewksbury, "provavelmente, teria sido uma das pessoas que andavam ali à volta a ver quem entrava e saía". Desta vez, não tem dúvidas: vai entrar. "E levarei alguns dos grandes nomes olímpicos que são meus amigos", acrescenta. Mas Tewksbury duvida que os atletas visitem a Pride House antes de competir, devido aos rigorosos horários dos treinos. E mesmo depois da competição, não quererão chamar a atenção da opinião pública para a sua sexualidade.

Os organizadores da Pride House esperam, pelo menos, chamar a atenção do mundo. "O valor, internacionalmente, é que jovens líderes atletas e treinadores vejam um paradigma diferente", diz Larocque. Dean Nelson acrescenta que a Pride House estará preparada para ajudar quaisquer atletas homossexuais que procurem asilo dos seus países.

A Pride House fica no piso térreo do Pan Pacific Hotel em Whistler Village. Nelson, antigo director de vendas do hotel, diz ter encontrado no Pan Pacific, empresa sedeada em Singapura, um parceiro interessado. "Sentimo-nos honrados por podermos receber os Jogos", diz Dave Wilkin, director de operações dos dois hotéis Pan Pacific em Whistler. "É uma ocasião histórica."

Não houve qualquer hesitação em colaborar com a Pride House, diz Wilkin, e ninguém o aconselhou a fazer o contrário.

Nelson tem ideias sobre a maneira de decorar a sala em forma de L, que tem capacidade para cerca de 100 pessoas e uma entrada pelo exterior perto do lobby do hotel. Foi feita uma experiência durante o Festival de Cinema de Whistler, em Dezembro, quando Nelson usou o mesmo espaço para criar um clube para gays.

Agora, nas olimpíadas, Nelson espera que "alguns atletas se assumam e celebrem aqui o seu eu autêntico e verdadeiro". Não termina a entrevista sem antes soltar um pouco mais a imaginação: o que gostava era de ver alguém a celebrar a vitória na Pride House. "'Sou gay e ganhei o ouro.' Isso enviaria uma mensagem bastante poderosa."


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