O Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, comentou hoje o alegado plano do Governo para controlar os media, denunciado sexta feira pelo jornal Sol, considerando que as personalidades públicas têm responsabilidades acrescidas de se justificar publicamente.
“A minha opinião é que quem tem responsabilidades acrescidas, porque é uma personalidade pública, tem obrigações maiores de coerência. Isso é um grande encargo, seja para este primeiro ministro, seja para qualquer outra pessoa. A maneira como se gere esse encargo… isso não posso responder por ninguém. Agora, que quem tem responsabilidades públicas tem um encargo reforçado de justificação, ai isso tem”, frisou o bispo do Porto.
D. Manuel Clemente ressalva, no entanto, que o momento de prestar os esclarecimentos “se trata de uma decisão pessoal”.
“Era preciso que eu estivesse no lugar dele [do primeiro-ministro] e soubesse medir as circunstâncias, porque depois há procedimentos e timings, que têm a ver com a circunstância que quem lá está é que pode gerir. Isso é uma responsabilidade pessoal, é isso mesmo, é pessoal e intransmissível”, observou o bispo do Porto.
D. Manuel Clemente respondia assim aos jornalistas, à margem das Jornadas de Teologia que decorrem na Universidade Católica, Porto, depois de questionado sobre se José Sócrates devia prestar esclarecimentos sobre o alegado plano do Governo para controlar os media.
A edição de sexta feira do semanário Sol transcreve extratos do despacho do juiz de Aveiro responsável pelo caso Face Oculta em que este considera haver "indícios muito fortes da existência de um plano", envolvendo o primeiro ministro, José Sócrates, para controlar a estação de televisão TVI e para afastar Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz.
Quanto ao facto de o Governo e José Sócrates estarem com uma imagem fragilizada, D. Manuel Clemente alertou para as cautelas que é preciso ter para diferenciar opinião pública da opinião publicada.
“A opinião pública e a opinião publicada nem sempre coincidem. Ainda agora, na sua intervenção, o professor Adriano Moreira chamava a atenção para a origem das notícias que se publicam: elas realmente espelham o que é o sentimento público ou aquilo que algumas fontes noticiosas querem induzir ao sentimento público? De maneira que aqui também temos de ser muito cautelosos”, notou.
O processo Face Oculta investiga alegados casos de corrupção e outros crimes económicos relacionados com empresas do sector empresarial do Estado e empresas privadas.
No âmbito deste processo, foram constituídos 18 arguidos, incluindo Armando Vara, ex-ministro socialista e vice-presidente do BCP, que suspendeu as funções, José Penedos, presidente da REN - Redes Elétricas Nacionais, suspenso de funções pelo tribunal, e o seu filho Paulo Penedos, advogado da empresa SCI-Sociedade Comercial e Industrial de Metalomecânica SA.
Esta é a empresa que está no centro da investigação e o seu proprietário, Manuel Godinho, é o único dos 18 arguidos do processo que está em prisão preventiva.
Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico




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