Editorial

O país dos condenados

por André Macedo, Publicado em 07 de Fevereiro de 2010   
Escutas, pressões, manipulação, política e dinheiro. Portugal tornou-se um episódio dos Ficheiros Secretos. Não dá para rir: é grave
Winston Churchill ameaçou fechar o “Daily Mirror”. Harold Wilson, primeiro-ministro britânico entre 1974 e 1976, ameaçou dar um murro a um repórter. Cavaco Silva dizia que não lia jornais, mas rangia os dentes de raiva. John Major uma vez ligou ao director do “The Sun” para desmentir que pintava o cabelo. Gerhard Schroeder fez o mesmo na Alemanha. José Sócrates telefona para os jornais e televisões a reclamar, desabafa em voz alta nos restaurantes e processa colunistas.
Para que conste, as más relações entre a comunicação social e o poder não são um exclusivo nacional. É assim em todo o lado. Até no Vaticano há histórias recentes de pressões para matar notícias ou pôr outras a sorrir. A relação entre o poder e os media não é muito católica. É a vida: ninguém disse que dar notícias era a melhor forma de fazer amigos. No entanto, uma coisa é o primeiro-ministro reclamar e perder as estribeiras, outra é alimentar um polvo para controlar a informação. Se é disto que se trata, é isto que tem de ser investigado. Mas quem deve tirar a limpo um caso desta magnitude? Os jornalistas, os tribunais, os deputados através de uma ruidosa comissão de inquérito?
Em princípio, todos – mas o sórdido desta história é que salpica lama para todos os lados. Ninguém ficará ileso porque todos os poderes estão envolvidos.
Não é apenas Sócrates, e quem lhe está obedientemente à volta, que vive sob suspeita. O Procurador-Geral da República, que considerou não existirem indícios nas escutas apanhadas no âmbito do Processo Face Oculta, também está de novo em causa devido a essa decisão – e com ele o aparelho judiciário. Ou seja, o país converteu-se num campo minado em que não é possível dar um passo sem levantar uma lebre, um rumor, um processo. Poder político, poder judicial, poder económico e poder mediático estão, por isso, em xeque. No final, poucos sairão bem da fotografia, apesar de nem todos poderem ser enfiados no mesmo saco.
Cavaco Silva é dos que tem de manter a frieza. Se já é claro que o governo e a oposição perderam o bom senso, resta o Presidente para manter alguma ordem. Todos os olhos vão estar sobre o que disser e fizer. Não pode falhar uma palavra ou arriscar um desabafo. Compete-lhe estar mais vigilante, sóbrio e contido do que nunca.
Resguardar-se na necessidade de ver o Orçamento do Estado aprovado e o Plano de Estabilidade e Crescimento é um bom caminho. Estes dois documentos não salvam nada, mas ajudam a manter as aparências e evitam que o céu – as agências de rating – caiam em cima do país mais cedo do que inevitavelmente vai acontecer. Não ter pressa e evitar julgamentos precipitados é, por isso, a única saída possível. O primeiro-ministro está fragilizado, o que é diferente de acusado e também é diferente de condenado. Condenado está o país se continuar assim.


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