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Manuel Fernandes: os sete passos para enganar Jorge Jesus

Publicado em 08 de Fevereiro de 2010   
Em Leiria, o treinador do Vitória de Setúbal já tinha tentado fintar o Benfica. Agora Cardozo distraiu-se e o seu plano deu um empate com sabor a vitória
Manuel Fernandes
Para um sportinguista marcado pela derrota com a Académica, em Lisboa, o momento mais feliz do último sábado foi aquele em que Cardozo falhou o penálti em Setúbal. Isto não se escreve, é conversa de café, a não ser que se fale de Manuel Fernandes. É certo, aquela bola na trave deu-lhe um empate e qualquer coisa de vitória. Sim, porque isto de mostrar que o Benfica nem sempre é um papão, mas também uma equipa que perde pontos com um dos clubes mais remendados da Liga, satisfaz muita gente, desde o treinador modesto ao adepto desiludido. Lá está, só mesmo o leão Manuel Fernandes pode viver as duas situações, mesmo que na hora de falar de Alvalade a conversa vá parar ao politicamente correcto. "Pois é, aquele resultado em Alvalade não deu jeito nenhum... é que a Académica é do nosso campeonato!"

Muito bem. Apanhado no meio de um domingo chuvoso, depois de ter ido a Peniche ver o filho Tiago marcar pelo Alcochetense - "também é avançado, está a fazer uns golos" -, o treinador do Vitória explica como conseguiu enganar Jorge Jesus. A partir de agora, o antigo futebolista que marcou doze golos ao Benfica só fala de futebol puro.

1. Tristezas não pagam dívidas "Digo sempre a verdade aos meus jogadores e a mensagem que lhes tenho passado é que esta equipa não tem nada a ver com a da primeira volta. O Vitória de Setúbal está melhor e a crescer, é preciso acreditar nisso. Ao longo da semana não percebi os jogadores muito afectados com a goleada de 8-1 sofrida no Estádio da Luz e, ao Mário Felgueiras, o guarda-redes que sofreu os oito golos, disse-lhe apenas uma coisa: 'Esquece.' Tínhamos de acreditar nas nossas capacidades, isso é meio caminho andado para se conseguir alguma coisa."

2. Cardozo não pode ter livres directos "Foi uma das preocupações ao longo da semana: não entrar a matar à frente da área, não podíamos cometer muitas faltas naquela zona porque o Benfica resolve jogos a partir dali, especialmente com os livres do Cardozo. Estivemos bem nesse aspecto.

3. A manha dos bloqueios "Também toda a gente sabe que o Benfica faz muitos golos de bola parada, são conhecidos os bloqueios feitos por jogadores como Luisão e Javi García, nos cantos, para libertarem um terceiro elemento que muitas vezes é o David Luiz. Estávamos avisados para isso mas falhámos, no lance do golo que sofremos, não fomos suficientemente rápidos na marcação ao David Luiz. Estivemos geralmente bem mas aquele lance também podia ter sido evitado."

4. Proibido romper "O problema do Saviola - a facilidade com que ele sai da marcação para ir receber a bola à linha lateral - tentámos resolvê-lo com a utilização de três centrais. Assim, se o Saviola fosse embora, a marcação era dividida entre o central e o lateral, mas sempre com a preocupação de nunca abrir um buraco no meio. O Benfica, por outro lado, rompe o jogo muito à base de três jogadores (ou quatro, quando está o Fábio Coentrão). Não podíamos deixar o Saviola, o Aimar e o Di María pegarem na bola e avançarem em velocidade; aceleram a equipa, tornam-se perigosos; aquelas zonas do campo tinham de estar tapadas."

5. Neca e Barbosa fora do sítio "O Neca é um número 10 mas quisemos desviá-lo sempre do centro do terreno, para não ter de levar com a marcação do Javi García e estar à vontade assim que pegasse na bola. Ao mesmo tempo, o Hélder Barbosa sabia que devia cair sempre nas costas do defesa lateral do Benfica que subisse, aproveitando esse espaço vazio concedido pelo adversário. Se o conseguisse fazer, receberia a bola e iria arrastar um central do Benfica com ele, desequilibrando a defesa. Isto é normal, no fundo é um pouco o que o Saviola também faz muito bem no ataque do Benfica."

6. Espaço: o que o Benfica oferece "Queríamos uma defesa compacta mas o Neca, o Hélder Barbosa e o Keita tinham de estar na frente, prontos para aproveitar aquilo que o Benfica oferece: o facto de pôr muitos jogadores no ataque e conceder algum espaço. Foram sempre incómodos."

7. Regula a saltar do banco "Não estou nada de acordo com algumas crónicas, especialmente aquelas que dizem que o Benfica empatou porque jogou mal; empataram também por mérito nosso. O ascendente que o Benfica teve nos últimos 15 minutos deveu-se muito à quebra física da nossa equipa. Aí, soubemos sofrer mas também conseguimos recuperar algum equilíbrio com a entrada do Regula - substituiu o Neca, que estava muito cansado e foi importante para continuarmos a ter a bola no lado direito do ataque."

E assim Manuel Fernandes enganou Jorge Jesus. "Também tive a vantagem de já ter jogado esta época contra o Benfica, pela União de Leiria. Tentei pedir mais ou menos o mesmo", disse. O jogo até foi parecido - David Luiz voltou a fazer um autogolo; a grande diferença é que desta vez Cardozo não resolveu.


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