Trabalho
Coworking: alugam-se secretárias e oferece-se café
por Clara Silva, Publicado em 08 de Fevereiro de 2010
Farto de trabalhar em casa? Pague a mensalidade, escolha uma mesa e mãos à obra. O coworking tem cada vez mais adeptos
É o primeiro dia de trabalho de Pedro Marques na LX Factory, em Lisboa, e não há problema se chegar atrasado. Ao meio-dia, o designer entra com um ar ensonado no novo escritório, que já foi uma fábrica. Não tem patrão, nem horários para cumprir e pode escolher a mesa onde vai trabalhar durante os próximos meses. De portátil numa mão e monitor novo na outra, dirige-se para a melhor secretária, ao fundo da sala, onde quase consegue ver o que se passa na outra margem do Tejo. "Aqui tenho uma vista geral sobre tudo, mas posso ficar isolado a trabalhar se me apetecer", explica atarefado enquanto instala o ecrã ao pé de uma janela. Na semana passada trabalhava "no meio de uma sala muito grande" numa empresa. Agora está por conta própria no CoworkLisboa, um espaço inaugurado a 1 de Fevereiro onde se alugam mesas a partir de 144 euros por mês. "A ideia é poder trabalhar num sítio mais agradável e não estar o dia todo de pijama no sofá", resume Fernando Mendes, mentor do projecto que já atraiu mais de 30 freelancers, entre designers, arquitectos, jornalistas, fotógrafos ou consultores acústicos.
No quarto piso do edifício em Alcântara ouve-se o barulho de obras e cheira a tinta fresca. As paredes do corredor estão cobertas de grafittis e, entre um cabeleireiro e os show-rooms de duas marcas de roupa, ninguém fica indiferente à pergunta na porta do CoworkLisboa: "Farto de trabalhar em casa?" Isabel Remelgado estava. Sentada à secretária na sala de 300 m2 da LX Factory, Isabel faz o mesmo que fazia no escritório de sua casa: traduções. "Conheci este espaço através do Facebook e achei que era a opção ideal porque já trabalhava em casa há um ano e meio", conta. "Às vezes, havia a tentação de fazer coisas da casa durante o trabalho." Isabel está de costas para o namorado, que também é tradutor. "Escolhemos mesas diferentes para criar uma nova dimensão. Em casa também trabalhávamos juntos", justifica.
Já Nuno Martinho, de 41 anos, e a sua companheira preferem partilhar a mesma mesa, mas em horários diferentes. "Somos freelancers, eu fotógrafo e ela jornalista. Ela é mais um bicho da tarde, por isso sou eu quem vem de manhã", conta. "Em casa dispersava-me muito e este espaço pode ser bom para criar contactos e até arranjar trabalhos."
No CoworkLisboa, todos têm direito a uma mesa, um cacifo de arrumação, acesso a uma sala de reuniões e internet wireless. "Também oferecemos uma caneca e café gratuito", acrescenta o responsável, Fernando Mendes, sentado ao balcão da zona lounge que brevemente terá microondas. Numa das cadeiras já gastas alguém escreveu "We hate Leeds". "São cadeiras recicladas de bares de má fama em Alcântara", explica Fernando que também vai ali trabalhar. "Sou designer, mas prefiro trabalhar aqui ao balcão." Nos próximos dias, as mesas por estrear serão ocupadas. "Ainda há cerca de 20 lugares disponíveis. Temos capacidade para 50 pessoas", esclarece Fernando.
Liberdade 229
No segundo andar do número 229 da Avenida da Liberdade, Leonardo Xavier criou, em Julho, uma pequena comunidade de coworkers da área da tecnologia, a "Liberdade 229". Nas sete assoalhadas espaçosas do piso estão várias empresas de programação web, entre elas a Quodis, criada por Leonardo há 8 anos, e uma sala de estar com mesa de pingue-pongue e uma consola Wii, muito concorrida à hora de almoço. A casa é de sonho, mas a renda é, segundo Leonardo, insuportável. "Quando a empresa que aqui estava decidiu sair, ficámos só seis pessoas e não conseguíamos pagar a renda sozinhos", explica Leo, como gosta de ser chamado. Como não queria perder o espaço fantástico, decidiu alugar as várias salas a outras empresas e quatro secretárias a freelancers.
"Apareceram só pessoas da área da web, mas não foi porque tivéssemos forçado", explica. "Provavelmente um advogado ou um tradutor não se iam sentir bem ao pé de pessoas que só falam de tecnologia", ri-se. No andar, as portas das salas estão sempre abertas e, "como todos os trabalhadores são da mesma área", trocam-se ideias e até clientes. Este mês duas salas ficaram vazias e, por 170 euros, alugam-se postos de trabalho numa das oito secretárias de madeira disponíveis.
HUB Porto
No Porto, Luís Cochofel, 53 anos, substituiu o escritório de casa pelo Hub, uma antiga escola primária convertida em espaço de coworking. "Já utilizei o espaço para a avaliação de candidatos ao programa INOV Contacto", conta. "Passaram por lá cerca de 800 licenciados." Em casa seria impossível receber tanta gente, mas essa não é a única vantagem do Hub. "É muito mais produtivo do que um dia numa empresa. E nem sabemos quem vai lá estar, ou com quem vamos fumar um cigarro nos momentos de pausa", diz o consultor de desenvolvimento de pessoas e empresas. Criado em Setembro do ano passado por Miguel Seabra, que na altura era presidente da Junta de Freguesia de Paranhos, o Hub Porto faz parte de uma rede mundial, a Hub World, com 20 espaços de trabalho em todo o mundo. Por 120 euros por mês, qualquer pessoa pode ter acesso ilimitado ao Hub. Há quem pague apenas 8 euros para lá trabalhar cinco horas por mês. E vale a pena, nem que seja para participar no "Wine Time" às sextas--feiras, provas de vinho ao fim da tarde organizadas por Rui Correia, um dos coworkers do Hub.
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