Especialista crianças

Caixotes do lixo

por Inês Teotónio Pereira, Publicado em 30 de Janeiro de 2010   
Existe uma espécie de ditadura ambiental infantil entranhada na nossa sociedade, em todas as escolas e em cada família. É um fenómeno que tem vindo a alastrar e a consolidar, que faz com que nós - os pais que crescemos numa época em que se podia fumar sem se ser preso - vivamos numa ordem ambientalista, em que os nossos filhos são uma espécie de bufos naturalistas.

Parece que hoje em dia as crianças nascem com um chip integrado que as formata em ambientalistas radicalmente chatos. São elas contra nós, os adultos poluidores. Soubessem os meninos tanto de matemática ou de gramática como sabem de reciclagem das tampas das garrafas de água e Portugal estaria em primeiro lugar nos rankings da OCDE. Mas não é o caso.

E isso é muito irritante. Apesar de ser óptimo para o planeta e de poder evitar que a espécie humana se extinga e desapareça numa mancha de fumo tóxico, é profundamente irritante.

Não há mãe ou pai que consigam deitar um pacote de leite vazio para um simples caixote de lixo sem se sujeitarem a ser acusados pelo filho de assassínio premeditado de uma espécie qualquer de animais em extinção do Norte da Malásia, por exemplo. Como se o pacote de leite fosse uma bomba atómica.

Pergunto: e se os meninos fossem chatear os chineses pelas emissões de CO2, ou os árabes pelo preço do petróleo, ou os governos pelos desastres urbanísticos, em vez de me chatearem a mim que não há meio de conseguir decorar as cores dos caixotes do lixo?

Jornalista, escreve ao sábado


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