Educação
Insucesso escolar. A culpa é do professor - vídeo
Publicado em 30 de Janeiro de 2010
As reformas nas escolas no Estado do Luisiana dividem os especialistas na área do ensino
Se o aluno chumba o ano, a culpa é do professor; se o aluno desiste de estudar, a culpa também é do professor; e se o aluno falta às aulas, a culpa é outra vez do professor. O sucesso escolar de uma criança está sempre nas mãos do professor. Nem as origens socioeconómicas nem o contexto familiar servem de justificação - a culpa é sempre da escola, que não soube encontrar as estratégias certas para ensinar os seus alunos.
Esta é a convicção de Paul Pastorek, superintendente para a Educação no estado de Luisiana nos EUA. Mais do que uma crença é uma teoria que o responsável máximo pela educação em Luisiana diz poder comprovar com dados estatísticos (ver caixa).
Paul Pastorek, que esteve ontem na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a convite do Fórum para a Liberdade de Educação, usou os resultados do projecto-piloto no estado de Luisiana para demonstrar que o "problema" do insucesso escolar não está no aluno, mas sim no professor: "O que descobrimos com este projecto é que, se medirmos o desempenho de um professor que ensina alunos pobres e comparamos esse resultado com o desempenho de outro professor que também ensina alunos pobres, concluímos que alguns deles obtêm sucesso, logo, se há alguns professores que são bem-sucedidos é porque a resposta está nas estratégias pedagógicas de ensino e não no contexto de onde as crianças são educadas", explica ao i o superintendente, defendendo que o modelo de Luisiana pode ser aplicado em qualquer parte do mundo.
É uma teoria "arrepiante" a fazer lembrar os velhos tempos da ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues, avisa Jaime Pinho, coordenador do Movimento Escola Pública: "São conclusões perigosas que só servem para perseguir os professores a quem muitas vezes se pede para fazerem milagres." Até porque os modelos dos países nórdicos já demonstraram que a grande fatia do investimento público deve recair na rede pré-escolar e não no ensino básico e secundário: "Cerca de 30% a 40% das crianças entre os quatro e os cinco anos revelam carências óbvias no domínio da aprendizagem e uma aposta no pré-escolar é a estratégia mais eficaz para se conseguir turmas homogéneas a partir do primeiro ciclo."
José Veiga Simão, ex-ministro da Educação na década de 70, também defende que o sucesso escolar está dependente de uma "boa rede" de ensino pré-escolar: "A escolaridade deveria ser obrigatória a partir dos três anos de idade porque é nessa fase que é possível combater as desigualdades no plano da aprendizagem", explica professor catedrático da Universidade de Coimbra, que critica o pedagogo de Luisiana por excluir do seu projecto-piloto o contexto familiar e social dos alunos. "Não podemos abandonar esse grande desafio que passa por envolver e responsabilizar os pais pela educação escolar das crianças."
A falta de preparação dos professores é um obstáculo à aprendizagem dos alunos, reconhece Veiga Simão, sobretudo porque, em muitos domínios, os adolescentes superam o conhecimento dos adultos: "Cerca de dois terços da aprendizagem dos jovens é feita fora da escola e os professores ainda não têm formação para lidar com essa realidade, que passa pela televisão, internet e novas tecnologias", conta o ex-ministro, advertindo que essa barreira afasta os alunos do ensino.
No meio de tantas críticas ao projecto-piloto do superintendente de Luisiana, Paulo Guinote surge como uma das poucas vozes em sintonia com as suas reformas educativas: "Globalmente estou de acordo, mas não vejo como aplicar esse sistema em Portugal", defende o professor do ensino básico e autor do bloque "a Educação do Meu Umbigo".
O desenvolvimento social e económico que separa Portugal e os Estados Unidos é o principal obstáculo: "Uma reforma dessa natureza exigiria que tivéssemos os instrumentos e os meios que os americanos têm." Recursos para elaborar provas credíveis e padronizadas para todo o ensino, capacidade para sujeitar os alunos e os professores a uma avaliação periódica no início e no fim de cada ciclo lectivo é aquilo que falta ao ensino público português, alerta Paulo Guinote. "O modelo de Luisiana só resultou porque nos EUA é possível lançar programas que são estáveis e rigorosos nos seus princípios e não variam consoante a cor do partido que está no governo", critica o professor, recordando que as reformas educacionais lideradas por Pastorek levaram dez anos a produzir os seus primeiros efeitos.
António Couto dos Santos, ex-ministro da Educação do governo de Cavaco Silva, defende a avaliação dos professores com base no desempenho dos alunos, mas não acredita que isso possa acontecer em Portugal: "Para termos um modelo tão eficaz como o de Luisiana parece ser, teríamos primeiro de dar autonomia às escolas para adoptarem as práticas pedagógicas mais adequadas aos contextos dos seus alunos." Tarefa que só seria possível no caso de se eliminar dois obstáculos: "O corporativismo sindicalista e o centralismo do Ministério da Educação são os grandes impedimentos às reformas educativas", remata.
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