Comissão de Inquérito à Guerra do Iraque
Acção militar contra o irão pode ser necessária, sugere Blair
por Gonçalo Venâncio e Joana Azevedo Viana, Publicado em 30 de Janeiro de 2010
Tony Blair garante que não se arrepende de ter enviado soldados britânicos para o Iraque: "Tomaria a mesma decisão"
Há alguma semelhança entre o Iraque de 2003 e o Irão de 2010? Oferecem o mesmo dilema de segurança a muitos líderes internacionais. Resta saber se Teerão terá a mesma resposta que o provocador regime de Saddam Hussein em 2003. "Na minha opinião - e é aos líderes actuais que cabe formular o seu julgamento - é que não devemos correr nenhuns riscos nesta questão." A questão em causa é o programa nuclear iraniano e o "julgamento" é de Tony Blair, actual enviado especial do Quarteto [Rússia, Nações Unidas, União Europeia e Estados Unidos] para o Médio Oriente. Os riscos, esses, são os mesmos que Blair, enquanto primeiro-ministro britânico, foi obrigado a avaliar para sustentar a participação do Reino Unido na segunda Guerra do Iraque.
"Na altura o meu medo era - e devo dizer que hoje, como então, continuo com este receio graças ao que o Irão está a fazer - que em estados altamente repressivos ou falhados, o perigo de ligação a armas de destruição maciça surge quando se tornam porosos e estabelecem alianças com todos os tipos de pessoas", avançou ontem Blair, referindo-se a terroristas. Para o antigo líder do governo britânico, "grande parte da instabilidade no Médio Oriente vem do Irão", um "tópico", advogou, que ficará "para outro dia." Ontem o dia era mesmo do Iraque.
Eram 07h30 quando Tony Blair chegou ao Centro de Congressos Rainha Isabel II, bem perto do parlamento britânico, para contar a sua versão da história sobre a invasão do Iraque perante a comissão de inquérito à guerra. Blair chegou duas horas antes do início da sessão e assim escapou ao folclore que tomou conta das imediações de Westminster. "Blair mentiu, milhares morreram" ou "Blair prá cadeia" eram os slogans mais vistos nos cartazes dos manifestantes, desejosos de ver Blair no banco dos réus a responder por "crimes de guerra".
Em grande forma, o ex-governante teve sempre respostas assertivas para as mais de cinco horas de questões postas por painel de cinco pessoas, presidido por Sir John Chilcot. Negando qualquer "pacto de sangue" para invadir o Iraque com George W. Bush, muito antes da decisão do Conselho de Segurança da ONU, Blair saiu em defesa da sua decisão. Não foi baseada em nenhuma "mentira". "Estava certo em querer parar Saddam", defendeu porque o mundo poderia estar hoje a lidar com o Iraque nuclear. "Guarda algum arrependimento pela sua decisão?", questionou Chilcot. "Responsabilidade mas nenhum arrependimento por ter deposto Saddam Hussein. Era um monstro. Ameaçava não apenas a região mas o mundo. E nas circunstâncias que enfrentámos na altura, e mesmo quando olhamos agora, era melhor lidar com esta ameaça" justificou, perante a incredulidade de alguns membros da audiência, muitos deles familiares dos soldados britânicos mortos no Golfo.
Á saída do centro de Congressos, um elemento do público gritou "Mentiroso!" logo secundado pela versão "E assassino!" Foi precisamente ao falar do "imenso sentido de orgulho" nas tropas britânicas que a voz fraquejou. "Tinha de tomar esta decisão como primeiro ministro. E não há um único dia que não pense e reflicta sobre essa responsabilidade", admitiu Blair.
A decisão da comissão de inquérito só vai ser conhecida em 2011. Bem depois da batalha eleitoral deste ano.
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