Música

O milagre de São Vicente. De Cabo Verde para a NBC- vídeo

por Joana Stichini Vilela, Publicado em 30 de Janeiro de 2010   
Quatro magnatas da música descobriram Ilo Ferreira num bar do Mindelo. Querem fazer dele uma estrela nos EUA
Ilo Ferreira, 30 anos, estudou engenharia mecânica no Brasil, mas sempre quis ser músico

Como quem fala em dar um salto ao Sudoeste ou a Vilar de Mouros no Verão, quatro amigos decidem ir em Janeiro ao Festival do Deserto, um evento mítico entre os fãs de música do mundo. Até aqui, nada de especial. Até aqui. Comecemos pelos pormenores: o evento realiza-se num oásis do deserto do Saara, no norte do Mali; a média de idades do grupo ronda os 63 anos.

Para o comum mortal, conseguir chegar à capital, Timbuktu, já seria uma aventura. Não para estes veteranos. Um é uma estrela da pop-country nos EUA. Outro criou umas da editoras discográficas mais marcantes da história, a Island Records. O terceiro decide os conteúdos da MTV. O último não só esteve na fundação do canal de música, como o dirigiu durante quase 20 anos. Logo, quando estes melómanos vão até ao Festival do Deserto, no Mali, não se metem numa carrinha ferrugenta, mas no jacto particular de um deles - a saber, do músico.

Pouco antes de saírem dos EUA, os quatro entusiastas, Jimmy Buffett, Chris Blackwell, Bill Flanagan e Tom Freston, só tinham de tomar uma decisão: onde reabastecer. "Que tal Cabo Verde, para variar?", pensaram. "Com sorte, ainda ouvimos a Cesária Évora cantar." 

DESCOBERTA

Nem o avião nem o CV dos forasteiros impressionaram a diva dos pés descalços. A recepção alternativa consistia numa jam session com os melhores artistas de São Vicente organizada por um deles, Vlú, hoje com 52 anos. Até aqui, nada de especial. Até aqui. Pormenores: o filho dele, Ilo, então com 27 anos, também era músico; não ia subir ao palco do bar do Hotel Mindelo, o Alta Lua, mas à última hora mudou de ideias.

O rapaz interpretou dois temas originais e um clássico de Bob Marley, "Redemption Song". Os visitantes trocaram olhares admirados. "Na vida vemos muitas pessoas tocar, mas poucas são especiais", contou Buffett, 63 anos, à "New York Magazine". Convidaram-no para almoçar com eles no dia seguinte. Ele que levasse a guitarra. Chris Blackwell, o homem que há mais de 40 anos descobriu Bob Marley, faltara à festa. Os outros queriam fazer a prova dos nove - a seco.

Sentado à mesa de um restaurante do Mindelo, T-Shirt vermelha, Ilo impressionou. "He's really got it", comentou Blackwell, 72 anos. Buffett não pensou duas vezes: decidiu dar-lhe uma oportunidade nos EUA. Trocaram emails. Manter-se-iam em contacto. Entretanto, tinham de arrancar para o deserto. Agora, sim, especial, no mínimo.

CONFIRMAÇÃO

Ilo Ferreira, 30 anos, fala português com sotaque do Brasil. Passou lá seis anos a estudar engenharia mecânica na Universidade de São Paulo. O pai, Vlú, auto-intitulado "pai do rock cabo-verdiano", não queria que ele se dedicasse à música. "Em Cabo-Verde não dá muito", justifica. O que aconteceu há três anos com o filho "foi quase um milagre", diz. "Nunca ninguém de cá teve essa chance". Ilo prefere falar num "conjunto de coincidências". Reconhece que não fazia ideia de quem eram os forasteiros. "Sentei-me ao lado do Bill Flanagan e ele foi explicando. Quase não acreditava", conta ao telefone de São Vicente, onde foi passar o Natal e o ano novo. Dentro de dias regressa aos Estados Unidos.

Quando Buffett lhe disse que queria levá-lo para o outro lado do Atlântico, Ilo ficou "meio anestesiado". Seguiu-se um silêncio de três meses. "Comecei a cair na real", lembra. "Até que um belo dia recebo um mail do Jimmy Buffett: 'Tenho um show em Setembro em Boston. Estás a fim de vir e começar a trabalhar com a gente?' Eu respondi, 'nossa, na hora!'"

No Gillette Stadium estavam 57 mil pessoas. Em São Vicente, onde mora, vivem cerca de 80 mil. "Fui fazer o soundcheck e fiquei estonteado. Era tudo o que tinha imaginado do rock 'n roll. Fiquei maravilhado com o som." Minutos antes de actuar sentiu o coração acelerar, uma impressão na barriga. À primeira vista, ninguém diria. No vídeo do concerto (disponível no YouTube) sorri confiante. Buffett chamou-lhe "profissional". Ilo não nega: "Quando entras em palco, tens de fazer o que tens de fazer. Ponto."

A actuação foi a primeira de muitas. Há mais de dois anos que anda em digressão pelos EUA com a banda do músico. Em cada concerto tem a oportunidade de interpretar um tema seu. Ao mesmo tempo, vai tocando em clubes mais pequenos. No Guantanamera Bar, em Nova Iorque, conheceu Eric Clapton. Em Chicago tocou de improviso com o guitarrista dos Aerosmith, Joe Perry. O primeiro EP, "Ilo", saiu em Junho passado. A música é country-rock, com influências que vão de Bruce Springsteen aos U2. O álbum deverá sair em Março. São dois CD: um, num inglês irrepreensível, "sobre o amor", outro em crioulo.

FUTURO 

Há dois meses, Ilo teve uma das maiores oportunidades da vida dele. Foi tocar o mesmo tema com que em 2007 seduziu os quatro amigos ao "Late Night With Jimmy Fallon" da NBC, "Let Me Love You". A seguir actuou num bar onde a "Rolling Stone" o entrevistou. "Estamos só a tentar dar-lhe exposição. Se tudo correr bem, consegue uma carreira musical", avançou Tom Freston à "New York Magazine". Para Ilo tudo isto já é um sonho. Melhor, só ver a música chegar "aos quatro cantos do mundo". Faz sucesso com as fãs (mas tem namorada em Cabo Verde, acrescenta). Já se habituou à comida. Só sente falta de uma coisa: o clima de São Vicente. "O negócio lá está muito frio. Impressionante."



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