Manuel Alegre: pressão sobre Cavaco e PS aumenta a cada dia

por Sónia Cerdeira, Publicado em 19 de Janeiro de 2010   
Cavaco Silva não comenta e diz não estar preocupado. Do PS também não há posição oficial
Cavaco Silva e o ministro da Agricultura, António Serrano
A cada dia que passa, a candidatura de Manuel Alegre faz aumentar a pressão. Sobre o PS, que tem de decidir se apoia Alegre ou outro candidato. E sobre Cavaco Silva, que todos os dias vai ser confrontado com uma recandidatura a Belém. Cavaco Silva não comenta e diz não estar preocupado com o combate que se disputa em 2011.

"Não faço nenhum comentário, é uma matéria que não irei com certeza comentar", afirmou o Presidente da República, no final de uma reunião com associações de agricultores do Oeste. "É matéria que não faz parte das minhas preocupações neste momento. Como já disse noutra ocasião, toda a minha atenção está concentrada nos graves problemas do país e na mobilização dos portugueses para enfrentarem os desafios que têm pela frente. É nessa linha que irei continuar", sublinhou.

Mas já há quem afirme que Cavaco Silva está a subestimar Alegre e que terá de se antecipar no anúncio de uma recandidatura. "Manuel Alegre tem uma força que está a ser subestimada por Cavaco Silva e pelo país em geral", avisou Nuno Morais Sarmento, presidente do Conselho de Jurisdição do PSD, no programa "Falar Claro" da Rádio Renascença. "Por uma vez, Cavaco e o PS estão no mesmo saco: terão de antecipar-se", disse também António Vitorino no seu programa semanal da RTP, "Notas Soltas".

Para António Vitorino, Manuel Alegre "já condicionou o timing do PS", que tem de definir o mais depressa possível quem apoia nas presidenciais. "Quanto mais tempo levar pior." O timing de Alegre não é inocente: apressar o PS a tomar uma decisão que só iria surgir depois da discussão do Orçamento do Estado, ou seja, em meados de Março.

O conselheiro de José Sócrates não se mostrou feliz com a candidatura alegrista e vai deixando avisos ao candidato que é visto como o que une as esquerdas: "[Alegre] não vai poder aparecer como candidato do BE." No entanto, Francisco Louçã, líder do Bloco, já manifestou o seu apoio a Manuel Alegre. O primeiro candidato assumido às presidenciais não consegue captar votos ao centro, segundo António Vitorino, que lança um novo aviso: "Ganha as presidenciais quem ganhar o Orçamento do Estado." E tudo indica que o Orçamento do Estado para 2010 será viabilizado à direita.

A situação de crise económica que o país vive é o mote para outra recomendação de António Vitorino: Manuel Alegre deve dizer claramente "o que quer para o país". "A situação do país e discussão de propostas são grandes valores que devem nortear o Presidente da República", afirmou Vitorino.

Eleições Para o politólogo Pedro Magalhães, estas eleições presidenciais são as mais imprevisíveis. O especialista do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião (CESOP) da Universidade Católica afirma que o "primeiro mandato de Cavaco Silva foi o mais acinzentado e difícil e tem os índices de popularidade mais baixos do que tem sido normal para outros primeiros mandatos". Por outro lado, Manuel Alegre "tem anticorpos consideráveis. Não é consensual no eleitorado potencial do PS, os eleitores mais moderados poderão não o ver com agrado"

Na disputa entre Cavaco Silva e Manuel Alegre, Morais Sarmento acredita que o poeta "tem o poder de incorporar a alma e o sonho a que Cavaco nos não leva". E vai mais longe ao dizer que, se o PS não apoiar Manuel Alegre, "facilita a vitória de Cavaco e demonstra que está mais interessado em afirmar as suas posições individuais do que em ganhar as presidenciais".

Segundo os estudos feitos sobre as eleições de 2006, quando Cavaco foi eleito Presidente, os eleitores votaram no PS para o governo mas consideraram as presidenciais menos importantes, explica Pedro Magalhães. Além disso, "muito do que levou a votar em Alegre foi a simpatia que não depositaram em Mário Soares, por acharem que não era o momento para aquele candidato do PS - e Alegre beneficiou disso", afirma o politólogo. As últimas sondagens, feitas pela Aximage em Outubro, revelam que, apesar da impopularidade despertada com o caso das escutas de Belém, Cavaco Silva continuava à frente de Alegre. com Lusa




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