Visto de fora

Famílias agradáveis, casas cómodas. E os jovens não saem de casa dos pais

por Francesco Alberoni, Publicado em 19 de Janeiro de 2010   
Os americanos têm um maior desapego pelos filhos, pelos locais onde nasceram. Nós prezamos muito o ninho, e custa-nos deixá-lo, seja ele a casa dos pais seja a nossa cidade
O Instituto Italiano de Estatística confirmou aquilo que já sabíamos, ou seja, em cerca de 70% dos casos, os jovens italianos do sexo masculino ficam em casa dos pais até terem 35 anos ou mais. Porquê? A causa mais importante e que costuma ser ignorada é as casas italianas serem bonitas, bem decoradas e confortáveis. Ainda se come em mesas com toalhas, pratos, copos e talheres, e come--se bem, devido ao nosso talento culinário. Em Inglaterra e nos Estados Unidos, as casas costumam ser decadentes, sujas e ter uma decoração de péssimo gosto, não há cultura culinária e não se come à mesa. Quem chega abre o frigorífico e engole a primeira coisa fria que encontra.

Quando os nossos jovens aspiram a ter casa própria, o modelo é a casa dos pais - um modelo difícil e dispendioso. É por isso que é mais cómodo ficar e usufruir das mordomias da mãe. As raparigas são mais independentes; saem primeiro e acabam por arranjar, pouco a pouco, casas agradáveis. Depois são elas a acolher os rapazes, quando querem viver juntos ou casar.

Os anglo-saxónicos sempre tiveram a tradição de mandar os filhos para colégios internos, por vezes mesmo com 12 anos. Mais tarde vão sempre para longe, para uma universidade de prestígio. Os nossos filhos sempre andaram na escola ao lado de casa ou na universidade da cidade onde vivem. Os norte- -americanos estão sempre a mudar por causa do trabalho. Um professor norte-americano pode começar por dar aulas em Boston, depois ir para Miami e de seguida para Seattle. Entre nós, quando um professor arranja um bom lugar, fica nele para o resto da vida.

Nós, italianos, estamos sempre ligados à cidade, ao bairro e à família. Os jovens só montam casa quando vão viver com alguém, casam ou têm filhos. E é a mulher que decide quando e como. Quem trabalha e faz carreira decide tarde, mas é sempre a mulher que manda na casa, na família e nos filhos. Quando há uma separação ou um divórcio, ela fica quase sempre com a casa e é lá que um eventual novo namorado ou marido vai viver. Mesmo assim, não é verdade que os italianos não saibam movimentar-se pelo mundo. Viajam, são activos, curiosos, empreendedores, adaptam-se com facilidade aos costumes dos outros, mas o local onde se regeneram continua a ser em casa. Quando ficam definitivamente noutros países, levam qualquer coisa do nosso gosto, da nossa moda e da nossa comida. É por isso que há por todo o lado óptimos restaurantes, excelentes arquitectos e lindas lojas de roupa italianas.

Sociólogo, escritor e jornalista

Escreve à terça-feira


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