Não se maquilham, não se depilam, não se deixam escravizar pela moda, não têm medo de engordar e gostam de homens masculinos e grandes, como eles. São homens de barba rija, que não encolhem a barriga nem a disfarçam. A barba é um fetiche e, como tal, é cultivada com esmero.
Podem parecer intimidantes e agressivos mas na verdade são afectuosos. Chamam-se Bears (Ursos) e são uma subcultura da comunidade gay que apareceu nos anos 80 em São Francisco, nos EUA. A ideia era formar um grupo para gays mais velhos, gordos, peludos e da América rural, que não se identificavam com o estereótipo do homossexual jovem, sem pêlos, urbano e fashion victim. Não é por acaso que os Bears se aproximam do visual de lenhador.
A subcultura cresceu e multiplicou-se e Portugal começa agora a fazer parte da rota dos Ursos. Apesar de ainda faltar um longo caminho para Portugal se equiparar a Espanha no que toca a iniciativas bear durante todo o ano - estes ursos não hibernam -, há um grupo de homens barbudos apostados em mostrar o que é isto dos Bears.
David, o Cub
"Somos gays, tudo bem, mas numa vertente mais masculina." David Canelas é a pessoa por trás do grupo WoofLx, de Bears portugueses (www.wooflx.com). Tem 27 anos, é natural do Algarve e percebeu que era gay muito cedo. Como se sentia atraído por homens mais velhos e muito masculinos, rapidamente soube que se enquadrava na cena bear. É um cub (cria), um tipo de bear que procura a protecção de um Bear ou Daddy (bear mais velho). Esta denominação não está só relacionada com a idade, mas também com uma questão de atitude, pelo que um homem de 60 anos pode ser considerado cub se o seu objectivo for inspirar a protecção de um bear.
A WoofLx nasceu há um ano "por haver a necessidade de colocar Portugal na rota dos ursos". "No estrangeiro, nomeadamente em Espanha, há imensos bares, discotecas e eventos bear e toda a comunidade vive numa base de respeito e aceitação. Em Portugal não há nada parecido. Existem o Max e o Bric-a-bar, em Lisboa, e o Lusitano, no Porto, que nem sequer é bear, é só gay-friendly." Até hoje, a Woof - cumprimento bear que significa qualquer coisa como "uau, agradas-me" - já conseguiu organizar um encontro internacional, de três dias, com uma adesão de mais de 300 pessoas. Para este ano já estão programados mais eventos e até um novo espaço bear, na capital, sem mais pormenores porque o segredo é a alma do negócio.
Apesar dos esforços para a desmitificação da cultura bear e para a sua abertura ao mundo, em Portugal, David depara-se com algumas dificuldades, até no centro da própria comunidade: "Há muitos Bears que são casados. São homens mais velhos, muitas vezes com cargos importantes, que levam uma vida dupla e não conseguem assumir."
Glover, o Admirer
Nasceu há 42 anos em Minas Gerais, no Brasil, e vive em Portugal há 21. Glover Barreto é um admirador da cultura bear, um "bear em crescimento", conta entre risos.
Para já, só a barba o aproxima da subcultura gay. Isso, e o facto de ser o dono do bar Max, no Príncipe Real, a única toca de ursos de Lisboa, fechada para obras de remodelação, para infortúnio de muitos Bears. "As pessoas encontram-me na rua e cobram-me o facto de o bar estar fechado há quatro meses, porque não têm onde se encontrar." Mas animem-se os ursos da capital, porque o Max reabre dentro de dois meses e não vem sozinho: Glover apostou num segundo espaço, na Rua do Século.
Como "gay minimamente esclarecido", conhecia a cultura bear antes de aterrar em Portugal. A atracção por homens masculinos não faz dele um urso como manda o figurino, nem mesmo um chaser (jovem magro, com ou sem pêlos, que gosta de homens mais velhos e fortes), mas admite que se identifica com a cultura: "Os Bears não estão na moda mas também não estão fora dela. Fazem o que toda a gente devia fazer, que é vestir de forma a que se sintam bem, confortáveis. Não estão preocupados em encolher a barriga e isso traz uma autenticidade que eu não encontro em mais nenhuma subcultura."
Os Bears não são novidade em Portugal. Há 30 anos, quando o bar Max se chamava Tatoo, "era um local de encontro de homens maduros e de bigode. Na altura chamavam-lhes focas, um termo pejorativo, porque eram gordos e alguns usavam cabedal. Quando o reabri, como Max, um bar gay-friendly, os antigos clientes voltaram e, apesar de ser um bar aberto a todos, tornou-se bear, porque já trazia essa herança."
Ricardo, o Chaser
Aos 15 anos percebeu que era gay. Nascido e criado na Covilhã, foi em Lisboa que encontrou a comunidade com que se identificava. Descobrira-a através da internet, já que "sempre houve um interesse por homens mais velhos e masculinos."
Ricardo Sena tem 27 anos e é lojista, mas não esteve sempre atrás de um balcão. Durante seis anos fez parte da Marinha de Guerra Portuguesa e correu mundo, com o peso "de uma vida dupla" às costas, sem nunca assumir a homossexualidade. Ricardo não é gordo, nem entroncado, mas tem uma barba meticulosamente desenhada e aparada. Não é indiferente à moda e até gosta de peças de marca. Afinal "Bear também veste Prada". Prova disso é o estilista Walter Van Beirendonck, especialista em moda bear.
Mas talvez por ser elegante, e mais preocupado com o aspecto do que a maioria, Ricardo não se sinta desajustado nos ambientes gay não bear. No entanto, e porque é no meio dos ursos que se sente bem, faz questão de ir a festas ou encontros do género no estrangeiro, pelo menos uma vez por ano. Espanha é o país da peregrinação bear, "o centro gay da Europa", segundo Ricardo, que elege as festas bear espanholas como as melhores do mundo: "Circulo muito na noite, vou a muitas festas e posso dizer que estas são muito divertidas. Como são pessoas que não saem muito, quando vão às festas é para se divertirem, para se libertarem. Podem tirar a camisa, ser muito gordos, que há sempre alguém que gosta do corpo do outro. É um ambiente muito descontraído." Em Portugal, a subcultura bear não é tão efusiva: "É complicado ser bear em Portugal. Não há muita oferta de pontos de encontro. Fazem falta locais de diversão nocturna. Cá, a cultura bear é um pouco mais fechada e conservadora do que lá fora."
Rodrigo, o Bear
Tem 31 anos e é enfermeiro há 11. Trabalha no Hospital de Jesus durante o dia e à noite está atrás do balcão do bar/sauna Labirinto. Natural de Viseu, percebeu que era gay aos 12 anos: "Foi uma luta interior muito grande e, como estava num meio muito pequeno, difícil de gerir. Foi isso que me levou a vir para Lisboa, para poder ser aceite, para me inserir no meio e até para encontrar um companheiro." Missão cumprida. Rodrigo Lopes tem uma relação estável há vários anos e faz parte de uma comunidade que o aceita como é: bear.
Uma transformação com o carimbo de 2004: "Sentia-me atraído por homens masculinos, com barba e com pêlo, e quando descobri a comunidade bear foi óptimo. Visualmente, temos um corpo que foge ao estereótipo gay e muitas vezes sentimo-nos discriminados dentro desse próprio meio." A culpa, diz Rodrigo Lopes, é da falta de informação: "Não há muitos eventos e não é uma comunidade muito conhecida. Aqui, o gay é aquele tipo fashion, de corpo definido, depilado, que vai a determinados bares e entrarmos nesse mundo é complicado."
Saiba mais em www.wooflx.com
José Carlos Malato, um dos mais populares apresentadores da televisão portuguesa, foi fotografado numa festa bear em Espanha. A colecção de imagens, que mostrava uma discoteca cheia de homens em tronco nu, circulou no YouTube e deu que falar. O apresentador, que não quis prestar declarações ao i, disse à revista “VIP” saber tratar-se de uma festa gay: “Já fui a várias festas de natureza gay, da mesma forma que vou a festas de solidariedade e de trabalho.” A foto em questão foi registada na festa “La Jaula de los Osos”, um evento organizado pela Mad.Bear, a associação madrilena de Bears, impulsionadora de encontros e eventos internacionais desta subcultura na capital espanhola (disponível online no endereço www.madbear.org).




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