Vsto de fora

Aprender com a Europa

por Paul Krugman, Publicado em 15 de Janeiro de 2010   
Nos Estados Unidos quer-se fazer crer que a Europa caminha económica e socialmente para o desastre, mas não é verdade. Em fracassos e sucessos a América não está melhor
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Agora que a reforma da saúde se aproxima da recta final, há muito choro e ranger de dentes entre os conservadores. Até os conservadores mais calmos têm feito avisos de que o Obamacare vai tornar os Estados Unidos numa social-democracia ao estilo europeu. E toda a gente sabe que a Europa perdeu todo o seu dinamismo económico. É estranho andar-se por aí a dizer o que toda a gente sabe não ser verdade. A Europa tem os seus problemas económicos; quem não os tem? Mas a história que se ouve constantemente - a de uma economia estagnada, em que o alto nível de impostos e a generosidade dos benefícios sociais anulam os incentivos, atrasam o crescimento e a inovação - tem muito pouco que ver com os factos, surpreendentemente positivos. A verdadeira lição dada pela Europa é, de facto, o oposto do que os conservadores nos querem fazer crer. A Europa é um êxito económico, e esse êxito mostra que a social-democracia funciona. Com efeito, o êxito económico da Europa deveria ser óbvio para toda a gente, mesmo sem estatísticas. Aos americanos que visitaram Paris, a cidade pareceu-lhes pobre e atrasada? E Frankfurt? E Londres?

Seja como for, neste caso as estatísticas confirmam o que os nossos olhos vêem.

É verdade que durante a última geração a economia dos Estados Unidos cresceu mais depressa do que a europeia. Desde 1980, quando a política dos EUA inflectiu acentuadamente para a direita e a da Europa não, o PIB real dos Estados Unidos cresceu, em média, 3% ao ano. Entretanto, a UE 15 - o bloco de 15 países membros da União Europeia antes do alargamento que a fez passar a incluir vários países ex-comunistas - cresceu apenas 2,2% ao ano. Vivam os EUA! Ou talvez não. Tudo o que esses números nos dizem é que os EUA tiveram um crescimento populacional mais rápido. Desde 1980, o PIB real per capita - que é o que importa em termos do nível de vida - cresceu pouco mais ou menos a mesma coisa nos EUA e na UE 15: 1,95% anuais nos EUA; 1,83 na UE 15.

E quanto a tecnologia? No fim da década de 90, poderia dizer- -se que a revolução da tecnologia da informação estava a passar ao lado da Europa. Mas a Europa recuperou desde então, em vários parâmetros. A banda larga, em particular, é tão generalizada na Europa como nos EUA e é mais rápida e mais barata.

E quanto ao emprego? Neste aspecto, pode dizer-se que os EUA estão em melhor situação: as taxas de desemprego europeias são geralmente muito mais altas do que nos EUA, e a percentagem de população empregada é inferior. Mas se imagina que há milhões de adultos na força da idade activa a olhar para ontem e a viver à custa do fundo de desemprego, engana-se. Em 2008, 80% dos adultos entre os 25 e os 54 anos na UE 15 estavam empregados (em França, 83%). É um valor mais ou menos igual ao dos EUA. Na Europa, os muito novos e os idosos têm menos probabilidades do que nos EUA de estarem a trabalhar, mas será que isso é mau? E os europeus são também bastante produtivos: trabalham menos horas, mas o rendimento por hora em França e na Alemanha aproxima-se dos níveis dos EUA. Tal como os Estados Unidos, a Europa está a ter problemas em lidar com a actual crise financeira. Tal como os EUA, também os grandes países europeus se confrontam com graves questões fiscais - e, tal como alguns estados dos EUA, também alguns países estão à beira de uma crise fiscal. (Sacramento é agora a Atenas dos EUA, para pior.) Mas, olhando para as coisas de maneira mais abrangente, a economia europeia funciona; cresce; em linhas gerais, é tão dinâmica como a dos EUA.

Então por que razão tantos gurus nos dão uma perspectiva tão diferente? Porque, de acordo com o dogma económico prevalecente nos EUA a social- -democracia ao estilo europeu deveria ser um total desastre. E as pessoas tendem a ver o que querem.

Afinal, embora os relatórios sobre o colapso da Europa sejam muito exagerados, os que relatam o alto nível de tributação e os generosos benefícios sociais não o são. Os impostos, na maioria dos países europeus, vão de 36% a 44% do PIB, enquanto nos EUA representam 28%. Os cuidados de saúde universais são, lá está, universais. As despesas sociais são, na Europa, muito mais altas do que nos EUA.

Portanto, se alguma coisa houvesse de verdadeiro nos pressupostos que dominam o debate público nos EUA - nomeadamente a crença de que mesmo um modesto aumento da taxa de imposto para os altos rendimentos e benefícios sociais para os menos favorecidos se traduziriam num grave desincentivo ao trabalho, ao investimento e à inovação - a Europa seria uma economia tão estagnada e decadente como a pintam. E não é.

A cartada da Europa é frequentemente jogada como aviso à navegação, como demonstração de que se se tentar criar uma economia menos brutal de modo a zelar melhor pelos cidadãos quando eles estão na mó de baixo, se acaba por impedir o progresso económico. Mas o que a experiência europeia nos demonstra é exactamente o oposto: justiça social e progresso podem andar de mãos dadas.

Exclusivo i/The New York Times

Economista Nobel 2008


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