Exclusivo i/The New York Times
Ciberguerra II. O que fazem os governos para a evitar?
por David E. Sanger, John Markoff e Ethom Shanker, Publicado em 13 de Maio de 2009
A ciberguerra envolve limites à informação. Na web, a censura avança em força, mas há meios para a contornar
O governo iraniano censura, mais do que qualquer outro, o que os seus cidadãos podem ler online recorrendo a uma tecnologia específica para bloquear milhões de sites da internet com notícias, comentários, vídeos, música e, até há pouco tempo, o Facebook e o Youtube. Se escrever "mulheres" num motor de busca no Irão, a resposta é esta: "Caro assinante, não é possível aceder a este site."
Em sites muito populares que oferecem downloads gratuitos de software surgiu, em Julho de 2008, um programa informático que permite aos iranianos esquivarem-se às limitações censórias do governo. Os primeiros a descobrir o alçapão foram estudantes universitários, que passaram palavra através de emails e partilha de ficheiros. No fim do Outono, mais de 400 mil iranianos navegavam na web sem censura.
O software foi criado por peritos informáticos chineses, voluntários do Falun Gong, o movimento espiritual que o governo da República Popular suprimiu em 1999. Os peritos mantêm uma série de computadores em centros de dados pelo mundo fora para reencaminhar os pedidos dos utilizadores da web de modo a contornar os firewalls dos censores.
A internet já não é apenas um canal essencial para comércio, entretenimento e informação: tornou-se também o palco do controlo estatal e da rebelião contra ele. Os computadores estão a tornar-se cada vez mais vitais nos conflitos mundiais, não só na espionagem e nas acções militares, mas também para determinar que informação chega às pessoas no planeta.
Existem mais de 20 países a usar sistemas sofisticados para bloquear e filtrar conteúdos da internet, revela a organização Repórteres Sem Fronteiras, grupo sedeado em Paris que promove a liberdade de imprensa.
Embora os sistemas de filtragem mais agressivos tenham sido instalados por governos autoritários, como o de Irão, China, Paquistão, Arábia Saudita e Síria, algumas democracias ocidentais começaram também a filtrar conteúdos como a pornografia infantil e material de natureza sexual.
Contra a censura Uma amálgama heterogénea de activistas políticos e religiosos, defensores das liberdades civis, empresários da internet, diplomatas, militares e agentes de serviços de segurança está agora a combater a crescente censura da internet. Os criadores do software usado pelos iranianos pertencem ao Global Internet Freedom Consortium, cuja base está sobretudo nos Estados Unidos e tem estreitos laços com o Falun Gong. O consórcio é um dos muitos grupos que estão a desenvolver sistemas para tornar possível o acesso à internet aberta.
Sem relação com o software acima descrito, o Tor Project, grupo sem fins lucrativos de activistas, oferece software para enviar mensagens secretamente ou aceder a sites da web bloqueados. Esse software, inicialmente desenvolvido nos laboratórios de investigação da marinha dos EUA, é utilizado por mais de 300 mil pessoas no mundo, da polícia aos criminosos e dos diplomatas aos espiões.
Os cientistas políticos da Universidade de Toronto construíram um outro sistema, o Psiphon, que permite aos utilizadores ultrapassar as firewalls da internet utilizando apenas um browser para a web. Detectando uma oportunidade de negócio, fundaram uma empresa e querem tornar possível as empresas de multimédia fornecerem conteúdos digitais a utilizadores da web localizados além de firewalls nacionais. O perigo desta guerra electrónica silenciosa está patente num aviso no website do próprio grupo: "Contornar a censura pode constituir violação da lei. Deve pensar seriamente nos riscos inerentes e possíveis consequências."
Neste jogo do gato e do rato, o gato contra-ataca. O sistema chinês, que os opositores designam por a Grande Muralha da China, é em parte construído com tecnologias ocidentais. Um estudo de Rebecca MacKinnon, professora de Jornalismo na Universidade de Hong Kong, constatou que grande parte da censura aos blogues não é feita pelo governo, mas por fornecedores de serviços internet privados, entre eles empresas como a Yahoo China, a Microsoft e o MySpace. Entre um terço e mais de metade de todos os posts dirigidos a três fornecedores de serviços de internet chineses não foram publicados ou foram censurados.
Quando, há anos, o Falun Gong tentou financiar com publicidade o seu serviço, as empresas dos EUA retiraram o seu apoio devido a pressões do governo da China, segundo os membros do grupo.
O governo chinês emprega mais de 40 000 censores em dezenas de centros regionais, e centenas de milhares de estudantes recebem dinheiro para inundar a internet com mensagens do governo para afogar a intervenção dos dissidentes. Isto não quer dizer que a China bloqueie o acesso à maioria dos sites da internet: grande parte do material existente na web está disponível aos chineses, e sem censura. Os censores do governo censuram sobretudo grupos considerados inimigos do Estado, como o Falun Gong.
O bloqueio deste tipo de grupos é cada vez mais insidioso porque a tecnologia de filtro tornou-se bastante sofisticada. Os governos podem bloquear palavras ou expressões sem que os utilizadores se dêem conta de que as suas pesquisas na internet estão a ser censuradas.
Quem apoia os opositores da censura critica os sistemas geridos pelo governo, declarando-os o equivalente digital do Muro de Berlim. Também vêem no combate anticensura um poderoso instrumento político. "Qual é a nossa capacidade de manobra relativamente a um país como o Irão? Muito pouca", afirma Michael Horowitz, membro do Hudson Institute e conselheiro do Global Internet Freedom Consortium. "Suponhamos que existe a possibilidade de o presidente dos EUA comunicar à vontade com centenas de milhares de iranianos, sem qualquer risco ou com um risco mínimo. É qualquer coisa que muda de imediato o mundo."
O governo dos Estados Unidos e a Voz da América têm financiado acções para contornar a tecnologia. Mas, até agora, dizem os peritos, o Falun Gong tem dedicado recursos para criar um sistema que permita que o maior número possível de utilizadores da internet tenha um acesso aberto e não censurado.
Todas as semanas, a internet da China recebe 10 milhões de mensagens de correio electrónico e 70 milhões de mensagens instantâneas do consórcio. Mas, ao contrário do correio não solicitado (o spam), as mensagens oferecem software para contornar os sistemas governamentais que bloqueiam o acesso a sites da web de grupos da oposição.
O informático Shiyu Zhou é fundador do consórcio Falun Gong. A sua ciberguerra com a República Popular começou na Praça Tiananmen em 1989. Estudante universitário e filho de um antigo general dos serviços de segurança do Exército de Libertação do Povo, disse ter compreendido pela primeira vez o poder dos meios de comunicação controlados pelo governo quando, de um dia para o outro, os estudantes que protestavam passaram de heróis a assassinos. "Fiquei imensamente desiludido", declarou. "As pessoas acreditaram no governo, não em nós."
Tanto ele como Peter Yuan Li, outro voluntário de primeira hora do consórcio, frequentaram a Universidade Tsinghua ? a versão chinesa do Massachusetts Institute of Technology. Li, filho de lavradores, também foi para os EUA para estudar informática e ingressou nos laboratórios da Bell antes de se tornar voluntário a tempo inteiro.
O risco de construir ferramentas para contornar a censura tornou-se evidente em Abril de 2006. Como Li contou aos agentes da lei, quatro homens invadiram a sua casa nos subúrbios de Atlanta, taparam-lhe a cabeça, espancaram-no, vasculharam-lhe os ficheiros e roubaram dois portáteis. O FBI não fez quaisquer detenções e declinou comentá-lo. Li pensa que a China enviou os invasores.
Apanha-me se puderes O sistema de contorno do consórcio funciona do seguinte modo: os sistemas de censura do governo, como o Grande Firewall, podem bloquear o acesso a certos endereços IP. Equivalentes informáticos dos números de telefone são endereços compostos por quarto grupos de algarismos que identificam um site da web. Por exemplo, 209.85.171.100 é o identificador do google.com. Clicando numa ligação, fornecida na mensagem de correio electrónico proveniente do consórcio, alguém na China continental ou no Irão, que queira aceder a um site da web proibido, pode transferir software que estabelece a ligação a um computador no estrangeiro e redirecciona o pedido para o site do endereço proibido.
Os sistemas governamentais andam à caça destes percursos alternativos e depois barram-nos. Por isso, o software muda constantemente o endereço de internet do computador remoto: antes de o censor identificar um endereço, já o sistema o mudou. A China reconhece que vigia conteúdos da internet, mas garante ter uma postura semelhante à de qualquer outro país: policiamento de material nocivo, pornografia, propaganda de traição, actividades criminosas e fraude. O governo argumenta que o Falun Gong é um culto perigoso que já estragou a vida a milhares de pessoas.
O software do Falun Gong provou ser popular entre os iranianos. No fim de 2008 os computadores do consórcio estavam sobrecarregados. No dia 1 de Janeiro, o consórcio encerrou o serviço para todos os países, excepto a República Popular da China. Zhou diz que financiar o seu grupo é dinheiro bem gasto. "Todo o combate a respeito da internet se reduziu a um combate sobre recursos", afirma. "Por cada dólar que gastamos, a China tem de gastar cem, talvez centenas."
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