Entrevista

Tristram Stuart: Ele quer saber onde está o seu lixo. E vai comer os restos

por Rosa Ramos, Publicado em 06 de Janeiro de 2010   
Recusa-se a desperdiçar comida e já alimentou 5 mil pessoas só com as sobras dos hipermercados
Tristram Stuart acredita que um terço da produção alimentar pode ser poupado caso se consiga reduzir o desperdício. Os países ricos são os que mais desperdiçam.
Em Portugal, poucos ouviram falar de Tristram Stuart. Contudo, o inglês é uma verdadeira autoridade em matéria de desperdício de comida. A 16 de Dezembro, alimentou cinco mil pessoas em Trafalgar Square. E só com restos de comida. O seu segundo livro - "Waste: Uncovering the Global Food Scandal" - foi nomeado para melhor livro de Economia pelo jornal britânico "Financial Times". Tristram é conhecido por revistar os caixotes de lixo dos supermercados e chocar a opinião pública comendo os restos à frente das câmaras de televisão. Tudo para provar que os desperdícios existem e podem ser evitados. Em entrevista ao i, o inglês fala dos desperdícios do mundo ocidental em todos os elos da cadeia alimentar, das consequências de se gastar demasiado e até da gastronomia portuguesa.

Tornou-se conhecido por apanhar comida dos caixotes de lixo dos hipermercados. Come mesmo esses produtos?

Sim. A maior parte da minha comida vem dos caixotes de lixo dos hipermercados. Quero mostrar que são alimentos que nunca deveriam ter sido deitados fora. Na verdade, há muitas formas de as empresas evitarem estragar comida: não acumulando stocks, reduzindo o preço dos produtos antes de atingirem o prazo de validade e doando as sobras a instituições de caridade.

Foi isso que quis provar com a iniciativa "Feeding of 5000" em Dezembro?

A maioria da comida foi-nos oferecida por agricultores e armazenistas que são obrigados a deitar fora milhões de toneladas de comida fresca e em boas condições, apenas porque os vegetais não têm o aspecto requerido pelos hipermercados. Um produtor ofereceu-nos cinco mil maçãs e peras que foram rejeitadas por serem uns milímetros maiores do que os espaços reservados para elas nas prateleiras. Juntámos comida suficiente para alimentar cinco mil pessoas e servimos pratos de caril, meia tonelada de fruta e três toneladas de produtos frescos. Alimentos que, de outra maneira, teriam sido desperdiçados.

A verdade é que gostamos de excessos. Ter em excesso advém do medo de não ter o suficiente?

Ter comida suficiente tem sido uma das principais batalhas do Homo sapiens ao longo da sua história evolutiva. É natural que tentemos armazenar a mais para sobreviver sem reservas e providenciar alguma segurança contra períodos de escassez. Qualquer pessoa que tenha passado fome reconhece isso. No entanto, a sociedade moderna ocidental tem disponível o triplo ou o quádruplo da comida em relação às necessidades nutricionais da população.

É possível quantificar os desperdícios?

Um terço da produção alimentar pode ser poupado se conseguirmos reduzir o desperdício. Os países ricos são, sem dúvida, os que mais gastam. Os Estados Unidos desperdiçam mais comida do que qualquer outro país - cerca de metade da comida disponível. Mas os países europeus não lhes ficam atrás. Desperdiçamos comida em todos os elos da cadeia alimentar: nas quintas, nas fábricas, nos vendedores e em casa. A minha preocupação não é a quantidade de comida que se produz mas o que se faz com ela.

Acredita que isto trará consequências?

Sim. Desde aquecimento global - 10% das emissões de gases provêm da produção de alimentos que ninguém come -, à desflorestação - na América do Sul e no Sudeste asiático cortam-se árvores para nos alimentar. Tudo isto tem consequências ambientais e sociais.

E é possível inverter esta tendência?

Este é um daqueles grandes problemas que podem ser resolvidos com relativa facilidade. Na década de 1930, os britânicos desperdiçavam 2% a 3% da comida. Hoje, desperdiçam 25% da comida que compram. Não há qualquer razão para que não entendamos que a comida é um recurso demasiado valioso para ser desperdiçado. Precisamos de parar de desperdiçar. Devemos comprar só aquilo de que precisamos e comer tudo o que compramos.

Nos hipermercados, se um produto for vendido depois da data de validade e causar problemas aos consumidores, as empresas estão sujeitas a processos legais muito complicados. Há alguma alternativa?

A maioria dos consumidores não compreende o sistema confuso das datas de validade. Aliás, a desinformação sobre o significado da rotulagem de datas é uma das grandes causas do desperdício de alimentos. Muita gente pensa que as datas indicadas em "de preferência antes de", "vender até" e "expor até" estão relacionadas com a segurança alimentar e que a comida deve ser deitada fora nessa data. Mas apenas a data "consumir até" - tal como instituída pela directiva europeia para a rotulagem de alimentos - é aviso de segurança alimentar. As datas--limite para vender e expor são irrelevantes para os consumidores e devem ser ignoradas. A data apresentada em "de preferência antes de" aponta apenas para uma garantia de qualidade dos produtores e fabricantes, mas não significa que a comida não possa ser utilizada depois dessa data, excepto no caso dos ovos, que têm regras específicas. As intoxicações alimentares são o maior receio das empresas alimentares e, muitas vezes, as datas apresentadas antecedem muito a verdadeira data em que essas empresas consideram que a comida deixa de ter condições. Há que ter isto em consideração e encarar as datas dos rótulos com algum cepticismo.

Viveu na Índia e no Kosovo. Essas experiências contribuíram para ganhar consciência deste problema?

Sem dúvida, porque contactei com pessoas que não têm o suficiente para comer. Um das alturas mais interessantes foi 2008, durante a crise dos cereais, quando a comida subiu para preços muito altos. Estava no Paquistão e visitei bairros de lata. Encontrei gente que costumava ter dinheiro para comprar comida suficiente mas, quando os preços subiram em todo o mundo, deixaram de conseguir comprar alimentos. Entretanto, no Ocidente havia contentores atafulhados de pão e de trigo. Visitei uma fábrica inglesa que deita fora, todos os dias, 12 mil fatias de pão fresco. Sabe-se que uma parte do trigo para produzir esse pão tem origem no mercado internacional - o mesmo mercado internacional onde as pessoas do Paquistão têm de o comprar. Por isso, quando deitamos comida ao lixo, estamos a tirá-la da boca dessas pessoas com fome.

Costuma dizer que a comida que se compra na rua é um espelho da cultura de cada país. Conhece a gastronomia portuguesa? Aprecia?

Gosto muito. Uma das minhas preocupações com a produção de animais para comer é que o consumo de partes como o fígado, os rins, os pulmões ou as tripas diminuiu bastante. Em Portugal, no entanto, essa tradição mantém-se. Ainda se come chispe, mioleira, sarrabulho, patas de galinha. Antes, todo o animal era aproveitado para comer. Aos poucos, esta tradição foi afastada das mesas. Isto não faz muito sentido. Devíamos comer os animais por inteiro.

Apesar de ser adepto do movimento freegan (ver caixa de perfil), não é vegetariano. Porquê?

Não há necessidade. É possível produzir carne de formas ambientalmente sustentáveis com um impacto mínimo no ambiente e na vida selvagem. Eu caço veados ou coelhos, crio porcos com restos de comida. O problema na Europa e na América é que a produção de carne é ambientalmente pouco sustentável: nós pagamos ao Brasil para abater parte da floresta amazónica para ali se plantar cereais que depois importamos para alimentar os animais que iremos comer. A maior parte dos nutrientes acaba perdida em fezes e energia que acabará por ser desperdiçada. A questão não é se nos devemos tornar vegetarianos. É comermos demasiada carne e produzi-la de forma errada.


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